Um portal mágico se abriu no meio da floresta, rasgando o silêncio como um trovão mudo. De seu interior surgiu uma cegonha gigantesca, com penas tão brancas que refletiam a luz do portal. No bico, ela trazia uma criança enrolada em um pano igualmente branco. A ave pousou com cuidado, amortecendo a queda para proteger o bebê. Parecia aflita, como se estivesse fugindo de alguma coisa terrível.
Alguns segundos depois que tocou o chão, a cegonha se transformou. As penas se dissolveram como fumaça, dando lugar a um homem alto, de cabelos longos e brancos, olhos profundos e orelhas pontudas. Ele se chamava Morfeus, um transmorfo, capaz de assumir qualquer forma animal.
A criança — Vandey Vowtty — começou a chorar. No lado esquerdo do seu pescoço havia uma marca incomum: parecia o número sete, atravessado por uma letra cê no centro, como um símbolo antigo e poderoso.
Morfeus ergueu o olhar. Ele sentiu — antes mesmo de ouvir — que alguém se aproximava. Num piscar de olhos, transformou-se em corvo e voou até um galho alto, de onde poderia vigiar o bebê sem ser percebido.
Dos arbustos, surgiram um homem e uma mulher. Ambos eram baixinhos, de orelhas pontudas, usando gorros verdes e botas pretas. Eram leprechauns.
— Marreu, é um neném! — exclamou a mulher, surpresa.
— Quem abandonaria uma coisinha tão linda assim, Damin? — perguntou o homem, inclinando-se para olhar o bebê de perto.
Damin pegou Vandey nos braços, com delicadeza.
— Temos que levá-lo daqui, meu amor. — disse ela.
— Vamos! — respondeu Marreu.
No alto do galho, o corvo observava. Morfeus decidiu segui-los. Os três caminharam pela floresta até chegarem a uma vila construída entre as árvores. As casas ocupavam troncos grossos, conectadas por pontes de madeira iluminadas por lanternas mágicas.
Havia uma grande placa:
VILA DOS LEPRECHAUNS
A casa de Marreu e Damin ficava na quarta árvore. Lá criaram o menino, como se fosse deles. Os anos passaram, e Vandey cresceu forte, inteligente e bondoso — qualidades que deixavam os leprechauns orgulhosos e, muitas vezes, boquiabertos.
Aos dez anos, Vandey tinha seu próprio quarto no alto da casa. Após jantar um delicioso porco assado, subiu para descansar. A noite estava misteriosamente fria. Ao fechar a janela, uma rajada de vento gelado entrou, fazendo as velas tremer.
O garoto sentou-se no banquinho ao lado de sua mesa de leitura. Ali ficava seu livro favorito: Ruínas Perdidas de Portos, um tomo antigo que parecia não ter fim. Ele começou a ler e, após alguns minutos, acabou adormecendo.
O quarto era pequeno, abarrotado de objetos: uma cama estreita, um guarda-roupa grande demais para o espaço e pequenos frascos de ervas que tilintavam suavemente. No teto, uma aranha trabalhava pacientemente, enrolando uma mosca em sua teia.
No canto, escondido numa sombra, Morfeus, agora na forma de um rato, continuava sua vigília silenciosa.
Na manhã seguinte, Vandey desceu com os cabelos arrepiados e os olhos remelentos. Assim que entrou na cozinha, arregalou os olhos. Era o caos absoluto: panelas espalhadas pelo chão, frascos quebrados, legumes rolando pela mesa e pelas prateleiras.
— O que aconteceu aqui? — perguntou o menino, perplexo.
Damin suspirou, limpando a testa.
— Foi aquele gato danado da vizinha! Derrubou tudo perseguindo um rato.
— E o Marreu? Onde ele está? — perguntou Vandey.
— Foi buscar frutas no Quintana Vulquelo. Vou fazer uma torta de frutas hoje.
O garoto ajudou a reorganizar a cozinha. Pouco depois, Marreu voltou carregando uma enorme sacola de frutas. Ele abriu a porta com um sorriso orgulhoso — e a sacola se rasgou, espalhando frutas por todo o chão.
Damin levou as mãos à cabeça.
— Mais trabalho, Marreu…
Eles passaram mais uma hora limpando tudo, mas rindo aqui e ali. As frutas eram grandes, coloridas e cheirosas.
O dia seguinte era especial: Vandey completava 10 anos. Damin preparou um bolo gigante e decorou toda a casa. Quando Vandey desceu, quase caiu para trás ao ver balões coloridos, bandeirinhas e uma mesa repleta de doces.
— Feliz aniversário, Vandey! — gritaram os dois.
Ele assoprou a velinha e fez um pedido silencioso.
A festa chamou a atenção da vizinha, Maledicência Vertigem, a maior fofoqueira da vila. Da janela de sua casa, ela observava com desconfiança, ao lado do marido atolado numa poltrona e do filho gordinho, Bocónildo.
— Estão comemorando alguma coisa e não chamaram ninguém! Eu preciso descobrir o que é.
— Deve ser aniversário, murmurou Tônus Vertigem.
— Quero bolo! — gritou Bocónildo, já correndo para a cozinha para pegar uma bacia cheia de docinhos.
Maledicência ficou horrorizada ao ver o filho devorar tudo.
À noite, Marreu e Damin deram a Vandey um presente embrulhado em papel dourado: um lindo porta-retrato com o desenho dos três juntos. O garoto subiu para o quarto com o coração aquecido.
Mas, ao entrar, viu um rato.
Vandey tinha pavor de ratos.
Pegou uma vassoura e o encurralou contra a parede.
Foi então que ouviu:
— Por favor, não me mate!
O susto foi tão grande que Vandey tropeçou e bateu no guarda-roupa. O móvel começou a tombar em sua direção — mas, antes que o esmagasse, ele o segurou no ar com uma força invisível. Seus olhos ficaram completamente negros por alguns segundos, depois voltaram ao normal.
O rato — Morfeus — o observava com atenção.
— O que está acontecendo comigo? — perguntou Vandey, desesperado.
Ele desceu correndo e contou tudo aos pais adotivos.
— Deve ter sido… engano, murmurou Damin, claramente nervosa.
Marreu e ela trocaram olhares tensos. Levaram Vandey até o quarto e ficaram com ele até adormecer.
— Apenas fadas, bruxos, feiticeiros e magos podem falar com animais, disse Damin, quando finalmente estavam sozinhos no próprio quarto.
— Então Vandey é um deles… — disse Marreu, apreensivo.
— Exatamente.
— Um dia precisaremos contar a verdade.
— Não quero nem imaginar esse dia.
No dia seguinte, enquanto os leprechauns trabalhavam no ateliê de calçados, Vandey criou coragem para falar com o rato outra vez.
— O-oi… seu rato — disse, nervoso.
O animal virou-se calmamente.
— Não precisa ter medo de mim, respondeu.
— T-tu… tu fala mesmo?
— Sim. Meu nome é Morfeus.
— Prazer, seu Morfeus…
Eles conversaram longamente. Aos poucos, o medo virou curiosidade. E a curiosidade virou amizade.
Uma amizade que mudaria o destino de Vandey para sempre.
KAMU SEDANG MEMBACA
Vandey Vowtty e a Caixa de Lamittle
FantasiVandey Vowtty é um garoto comum com uma missão extraordinária: reunir as quatro partes do lendário Medalhão de Entrenomadive e derrotar Demonus, o inimigo que ameaça destruir Brâmane. Entre perigos, enigmas e segredos sobre seu próprio passado, Vand...
