" É curioso como não sei dizer quem sou. Quer dizer, sei-o bem, mas não posso dizer. Sobretudo tenho medo de dizer, porque no momento em que tento falar não só não exprimo o que sinto como o que sinto se torna lentamente no que eu digo. Ou pelo menos o que me faz agir não é o que eu sinto mas o que eu digo. Sinto quem sou e a impressão está alojada na parte alta do cérebro, nos lábios - na língua principalmente -, na superfície dos braços e também correndo dentro, bem dentro do meu corpo, mas onde, onde mesmo, eu não sei dizer. O gosto é cinzento, um pouco avermelhado, nos pedaços velhos um pouco azulado, e move-se como gelatina, vagarosamente.  Às vezes torna-se agudo e me fere, chocando-se comigo.  Muito bem, agora pensar em céu azul, por exemplo.  Mas sobretudo donde vem esse certeza de se estar vivendo? Não, não passo bem."
Perto do Coração Selvagem, página 21. CLARICE LISPECTOR.
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