Todas as historias começam em algum lugar.
Acho que a dela começou num lugar muito feio. Feio, desvalido, mas repleto de vida e vidas. Não falando só de geografia, mas também de história e sociologia. Sim, senhoras e senhores, sua vida é uma interação multidisciplinar de acontecimentos convergentes e divergentes. No espaço-tempo, era um lugar daqueles no terceiro mundo onde os turistas pagavam para ver como é ser pobre, marginalizado, e modelo de bicho-papão para pais mostrarem a filhos desobedientes e preguiçosos, um lugar empoeirado ou enlameado que eles queriam ver mesmo correndo o risco de levar um tiro. F-a fa, v-e ve, l-a la, mas se pronuncia comunidade atualmente em nome do politicamente correto. Parêntese. As pessoas são estranhas. Ela também é, só não pagaria para fazer esse tipo de turismo. Ela acha isso bem perverso. Uma idealista.
É claro que ela não sabia que era feio até ver lugares mais bonitos, mas tudo na vida é uma questão de ponto de vista, e de onde ela veio, isso é muito limitado. Não importa, ela não está mais lá, ela está aqui.
Onde é aqui? Bom, aqui é Um quarto branco, muito branco, com chão de madeira polida e brilhante, com moveis brancos, uma janela, e um ursinho de pelúcia rosado no canto da cama queen size, segurando um coração escrito "eu te amo". Ganhou no dia dos namorados. Não é em um hospício, mas poderia ser, é só sua casa. A casa é tão arrumada que realmente poderia se passar por uma clinica para loucos, pois é quase isso que ela é. É arrumada porque ela é louca mesmo, igual a todo mundo, a diferença é que, bem tranquila quanto a isso, admite, acolhe e agradece. Pequenos traumas de ambientes desorganizados e sujos que esconde no fundo do saco de memórias dispensáveis. Deve ter, assim por baixo, uns quatro ou cinco códigos médicos para patologias psiquiátricas. Eles precisam classificar as pessoas de alguma forma e as vezes chamam de doença o que não conseguem entender, a história do mundo tem muitos exemplos. Ela os entende. Ela até gosta e as vezes se diverte! Facilita a vida quando as pessoas são chatas e tentam se aproximar, se comporta um pouco como doida e elas desistem. Anda sem paciência para interações vazias. O que não acrescenta... Tem muito B.O. entre lá onde começa, e aqui.
Está arrumando as malas para ir para o aeroporto, com um sorriso sacana bailando no canto da boca, lembrando de uma piada impublicável que só ela entende.
Para onde ela vai? Essa é uma outra historia.
Voltando. Onde estávamos mesmo?
Ah, no começo de todas as historias.
Sejamos tradicionais, e começar do começo.
Ela nasceu numa manhã chuvosa de domingo, numa cidade bonita e que é sempre ensolarada. E que também em seu aniversário sempre chove. É a coisa mais certa que ela conhece e a única que tem a mais absoluta certeza. Em todos esses trocentos anos de vida, nem que fosse um chuvisco, o céu chorava. Até hoje ela se pergunta se o céu chora de alegria pois ela ainda não surtou, ou de tristeza, porque ela ainda não surtou. Vai saber, não é? Tem dias que nem ela sabe como ainda não surtou nesse mundo de doidos. Para quem perguntou sua idade, depende. Que dia é hoje? Tem dias em que tem 20 e outros em que ela tem 100. Varia.
Ela lembra de momentos tristes numa infância feliz. De gritos e sons de mão estalando, de ouvir choros e lamentos. E de parques e brincadeiras, e festas. Lembra de ser feliz em seu tutu cor de rosa, das aulas de balé, todos os brinquedos e viagens e folguedos. Foi uma criança como todas as outras, que amava brincar de bonecas e vesti-las, algo que carrega consigo até hoje. Entre as memorias felizes, tem uma sombra aqui e ali, de um ambiente nem sempre saudável para uma cabecinha de esponja, pronta a absorver, mesmo que inconscientemente, tudo que acontece ao redor. Mesmo hoje ela lembra bem de coisas que a assustam, e de coisas que sequer quer falar. São coisas mais feias que a feiura. Como a quentura no lado direito do rosto, o gosto de sangue na boca, as noites em claro com os adultos raivosos, ou um adulto lhe tocando onde ela não queria.
Ela traz consigo cicatrizes horrorosas. No corpo, e na alma. Mas tem um sorriso que faz parecer que nada a pode parar. Quando sorri para si mesma, principalmente. Ainda assim, considera que teve uma infância feliz. Olhando ao redor, comparando com o que havia a sua volta, definitivamente, teve uma boa infância, sem fome, sem frio, sem sede. Ela lembra de ter amor nessa época apesar de tudo e de alguns adultos. Ela vê nas fotos antigas e tudo mais e já basta.
Teve uma adolescência normal, cheia de coisas normais de adolescentes, incluindo entrar numa seita religiosa por causa da família, gravidez indesejada porem muito amada, trabalho em rede franquiada de fast-food, namorados abusivos, sexo consentido e sexo sem permissão, abortos clandestinos, sonhos partidos, pulsos atados, lagrimas e infelicidades que tinham cor, surras e agressões em casa e fora dela, físicas, mentais, rebeldia, rock n'roll, álcool, baixa autoestima, obesidade, insegurança, pensamentos homicidas e suicidas e mais uma interminável lista, que fazia o absurdo contraste em ela ser muito talentosa com artes, musica, moda, ser doce e ingênua, ter excelente desempenho acadêmico, ser uma leitora voraz e uma incansável sonhadora, nada necessariamente nessa ordem, mas tudo intrinsecamente ligado, entrelaçado, e que não necessariamente a levou a lugar nenhum, mas também a trouxe onde está e vai levar ao seu destino. Enfim, super comum mesmo, uma adolescente estranha desgrenhada mal vestida. Passou por coisas que hoje lhe custa crer que foram reais, e outro tanto que bloqueou em nome da já debilitada saúde mental. Ela poderia contar dezenas de histórias que os fariam odiar cada membro da sua família, muitas das pessoas que passaram por sua vida e odiar até mesmo a ela, mas ai não seria justo com ninguém, afinal seria só uma perspectiva, e ela não é muito confiável hoje em dia, o tempo embota as lembranças. Mas apanhou muito em casa, sim. Por coisas que nem fez, que hoje admite que queria e devia ter feito. Já passou, ficou a vontade. Típico dela, só ter uma boa resposta depois que já passou a discussão. Ela era muito pouco voluntariosa à essa altura, já estava meio domesticada pelas pancadas, condicionada pelas intempéries da vida de filha mais velha de quatro irmãos.
Tudo, absolutamente tudo, é ferramenta e material de construção para ela. Mesmo sendo bem pequena, contém um universo inteiro dentro de si. Até porque, o fato de algo ser pequeno, não quer dizer que não seja grandioso. Ainda que não se veja, e ela realmente não foi muito vista.
Cenário meio triste e meio amargo, mas acreditem que melhora. Vai ter muita tristeza, mas melhora. É preciso entender as pequenas vitorias comemoradas como medalha de ouro. Melhora, de verdade. E no fim, vai ter café e bolo se você ficar mais um pouco.
Ela não sabe quando a gente vira adulto nos dias de hoje, mas no seu tempo, bastava virar mãe. Ou casar. Se juntar também servia. Ou as duas coisas que foi o seu caso. Aos 20 ela já era uma senhora matrona muito desastrada, perpetuando o ciclo de existência do mundo feio de onde saiu. Ela não via nada de errado com o contexto pois todos que a rodeavam seguiam o mesmo padrão, e o que é padrão normalizado, não se questiona, e o normal ali naquele universo estava ocorrendo lindamente sem maiores preocupações para o deus roteirista daquele núcleo de ficção divina. Todas as suas então amigas já eram mães, algumas eram casadas outras não, históricos de desestrutura familiar, sempre tinha alguém agressor, alguém alcoólatra, alguém narcisista ou alguém abusador nos seios dessas famílias. Na dela, no caso, tinham as brigas, muitas brigas. Não fiquem tristes, todos sobreviveram lá em sua casa, inclusive, com grandes melhorias nos personagens. Alguns até surpreenderam com as reviravoltas e capotadas que tiveram.
Teria dado tudo certo no que diz respeito a ela, nos planos do ciclo da vida que se espera para todos que nascem nesse ambiente, se não fosse uma louca sonhadora e eterna insatisfeita questionadora subversiva. Começou a criar problemas? Claro que sim. Ingenuamente porque além de tudo é lerda demais pra perceber as coisas mais obvias. O obvio é: aquele nunca foi seu lugar, nunca se encaixou ali, e todo esforço que fazia para pertencer, era coroado com sofrimento e dor. Sem falar que não teve um único relacionamento até então, no qual ela não havia sido traída. Quem se identifica aí, levanta a mão.
Com isso, não se quer dizer que ela tem algum traço de santidade, está mais para uma grande pecadora nem sempre arrependida. Ela é intensa demais, entregue demais, com horas em que pensa muito para agir e perde o timing e outras horas que nem sabe o que significa pensar, a lerda. O script a coloca em alguns papeis de otária também, aos quais desempenhou com maestria, lépida e trigueira, a perfeccionista com TOC. E no meio de espertos, gente lerda só se fode. Todo mundo quer se aproveitar da bondade, e de tudo que puder tirar, como diz a famosa Lei de Gerson. Vantagem sobre o outro sempre. Ela mesma, se puder, hoje, com os aprendizados que fez, se aproveita um pouquinho. Como é humana, é uma escrota as vezes, e sem a menor pretensão de ser perfeita. Hipocrisia não é seu forte, mas devia usar de vez em quando.
Ela devia ter demitido o roteirista de sua vida por volta dos seus 30 anos, quando este estava colocando só péssimas escolhas em seu caminho. Levou anos empregando um incompetente que escreveu muitos momentos infelizes para viver. Esse roteirista com certeza estudou filosofia e era fã de Schopenhauer. Embora alguns episódios fossem geniais, com mirabolancias imprevisíveis, caramba, roteirista, ela podia ter tido um caminho mais fácil, né não? Do jeito que estava sendo escrita aquela historia, talvez, e muito provavelmente, não houvesse nada para dizer de bom da vida. Demorou um pouco, mas assumiu as rédeas e passou a escrever ela mesma o roteiro. O mundo vasto em que vivemos podia sim, ter mais escolhas, mais possibilidades.
As pessoas são fruto do meio, mas também são frutos das próprias escolhas. Ela fez escolhas diferentes das possibilidades que haviam no roteiro original. Escreveu o roteiro todo de novo daquele ponto em diante, pois não dava para apagar o passado. O passado é parte de quem somos como todas as coisas que vivemos e isso não há como mudar, o passado molda nosso caráter, e nos ensina caminhos pelos quais se pode ver o mundo.
Poder escolher é bom, e saber escolher, é fantástico. Ela escolhe escolher, porque é uma verdade universalmente conhecida de que depois do amor, o poder da escolha é a maior força do mundo.