QUATRO

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Chegar em casa sempre pode guardar uma surpresa. Como na vez que encontrei a Nathália (outra das irmãs), sorridente com uma tesoura na mão, feliz por ter finalmente ingressado na carreira de cabeleireira. Logo atrás dela, era possível detectar as tristes expressões de três das minhas irmãs e a nossa mãe, todas exibindo novos tortos e trágicos cortes de cabelo. Mesmo assim, eu não podia imaginar o que estava por vir.

                Logo que voltei da casa de repouso da Marga, me deparei com todas as minhas irmãs usando seus melhores vestidos, com penteados intocáveis e maquiagens trabalhosas. Sentadas, com uma postura digna de princesas, lado a lado, no sofá da sala de estar.

                – Uma de cada vez, por favor, me explique que maluquice é essa? – perguntei no exato momento em que botei os dois pés para dentro de casa.

                – É hoje, não é? – Raquel foi a que se prontificou a representar esse que parecia ser um grupo de um concurso de beleza. – É hoje que o Pablo vem te buscar para sair?  

                 – Sim, mas... Ele não vai ficar. Eu que vou sair.

                – Independente. Pablo é da alta burguesia de Amberlin, costuma conviver com a realeza e a elite, dessa forma, não pode nos ver de qualquer jeito, nem que seja por apenas um segundo.

                Olhei novamente para aquele grupo de garotas, todas pareciam prontas para entrar em uma festa, não só pelas roupas, mas pela animação que apresentavam, como se a visita do Pablo fosse um evento.

                – Agora vai se arrumar, ele pode chegar a qualquer momento! – Raquel exclamou.

                – Eu... Já estou arrumada – impossível soltar essa frase sem sentir uma pontada de vergonha. Mas eu realmente já estava pronta, o meu vestidinho de verão não tinha nenhuma parte remendada e era ideal para o calor da estação do ano.

                – Você quer sair com ele desse jeito? – Raquel perguntou com uma expressão estranha no rosto.

                Não tive tempo para me sentir ofendida porque me deparei com uma das cenas mais engraçadas das últimas eras. Meu pai passou pela porta da sala vestindo uma espécie de terno, amassado e muito pequeno para ele. O contraste em ver o meu pai, trabalhador braçal, usando uma peça de roupa formal da forma mais errada possível, me fez gargalhar e, por algum motivo muito estranho, amá-lo um pouco mais.

                – Pai, o que você está fazendo?

                – Eu também não entendi o que está acontecendo – respondeu por trás daquele bigode volumoso. – Só sei que tinham seis mulheres falando ao mesmo tempo e todas calaram a boca quando vesti esse terno. Irei para a cama com ele hoje, se for preciso. – E jogou-se na sua poltrona com uma caneca de hidromel na mão.

                Minha mãe também foi outra surpresa. Uma mulher baixinha e gordinha de meia idade tão histérica como uma adolescente em sua festa de quinze anos.

                – Mel? Oh, minha Mel! – Ela se aproximou sorridente e segurou o meu rosto, de forma que apertasse as minhas bochechas de forma firme e carinhosa. – Eu sabia que um rostinho desses não podia fisgar nada melhor do que o melhor partido. Você vê ele no jornal? Ele ajuda as crianças carentes! Ele é um estudioso! Não é como os outros burgueses que só pensam neles mesmos, esse garoto tem um caráter de ouro! – Como explicar para a minha mãe que ela não conhece o Pablo e está fazendo uma pintura da personalidade dele através de relatos de jornalistas? – Agora vai se arrumar, dona Mel! Ele pode chegar a qualquer momento! –

                – Mãe, eu já estou pron...

                Alguém bateu na porta.

                Silêncio entre todos os presentes na casa, incluindo o meu pai, que foi o único a não se importar com o acontecimento. Só tive tempo de pensar em uma coisa antes de abrir a porta:

                – Todas vocês, se comportem! – falei com a maior autoridade que pude juntar.

                Era muito difícil tentar convencer o resto da minha família de que Pablo era um homem comum e não um príncipe do cavalo branco, quando ele de fato aparece montado em um cavalo branco. As roupas, para o meu alívio, eram bem discretas e menos pomposas do que as da minha própria família.

Ele sorriu ao me ver:

– Olá, Mel.

– Olá! – Não posso deixar de sorrir de volta enquanto me pergunto mentalmente se pareço muito nervosa por estar preocupada com a trupe de loucos logo atrás de mim. – Só um minuto e já vamos, tudo bem?

– Sim, claro. – ele respondeu.

Virei de volta para as oito pessoas que me observavam para me despedir, mas tudo que consegui dizer foi:

– É isso. Tchau.

Quando me voltei para a porta, levei um susto: Pablo entrou em casa e estava sorridente e com a mão estendida em direção ao meu pai:

– É um prazer conhecer o senhor – disse.

 Pela expressão, papai também sabia quem era o rapaz e não entendia muito bem o que estava acontecendo, retribuindo o aperto de mão meio atônito. Pablo foi um perfeito cavalheiro com toda a minha família, dando a devida atenção a cada membro separadamente, como se não enxergasse nada de estranho em toda aquela movimentação. Ouviu prontamente todas as instruções de minha mãe, incluindo sobre o horário em que deveria me trazer de volta. E partimos, sem maiores complicações. No exato instante em que fechei a porta, foi possível ouvir todas as minhas irmãs falando ao mesmo tempo, excitadas com o que acabaram de ver e mandando a classe para longe.

– Desculpe pela minha família – disse, montada no cavalo branco que nos transportava pela cidade.

– Desculpas pelo o quê? Eles são adoráveis! – Respondeu.

– E para onde vamos hoje? – Perguntei, enquanto não podia deixar de notar o seu corpo, que eu abraçava com firmeza para não cair.

                – Você verá!

                – Vai ser sempre assim? Você vai continuar me sequestrando para me levar a lugares secretos, todas as vezes em que formos sair? – brinquei.

                – Exatamente – respondeu prontamente.

                O cavalo de Pablo era diferente de todos em que já cavalguei. Era mais firme, balançava menos, o animal tinha uma compostura própria. Perguntei-me que tipo de treinamento era realizado para alcançar esse resultado.

                Logo estávamos de volta à mansão de Pablo, que desceu para abrir os mesmos portões gigantes.

                – Você me trouxe para a sua casa novamente? – perguntei. – Existe outra coisa incrível para se ver nela? Dessa vez, um submarino, talvez? – Brinquei.

                – Você não faz ideia – algo em seu sorriso me despertou a curiosidade. 

MAIS LEVE QUE O AR (HISTÓRIA COMPLETA)Onde as histórias ganham vida. Descobre agora