Ela virou o rosto para um homem que se aproximava no final da praia. Ele tinha os cabelos escuros, a pele bronzeada e usava um conjunto de linho claro. Além dela e do sujeito, que caminhava tranquilamente pela beira do mar com a barra das calças dobrada, não havia mais ninguém. O céu estava nublado e um vento frio soprava os cabelos castanhos dela com fúria, obrigando-a a segurá-los com as mãos delicadas.
A solidão do local naquele final de tarde a havia atraído. Saíra correndo para o aconchego da areia úmida a fim de se acalmar e pensar sobre a discussão que acabara de ter. A perspectiva de que o sujeito pudesse puxar assunto a incomodava. Queria ficar sozinha. Tocou brevemente a mão esquerda, olhando placidamente para a marca clara da aliança de ouro que arremessou longe pouco antes de sair porta afora.
Olhando para o desconhecido, que agora já não estava tão distante, a mulher se levantou e limpou a saia do vestido azul-claro com um gesto rápido e contido. Colocou o chapéu panamá na cabeça, obstruindo a visão de seu rosto, e voltou-se para a direção oposta. Não conseguiu, entretanto, dar cinco passos antes que o chapéu se desprendesse de seus cabelos e alçasse voo pela praia. Ela observou-o planar por alguns segundos no ar, enquanto dava a volta e se lançava delicadamente nos braços do homem, que levantou o olhar para ela e abriu um sorriso simpático e amistoso. Ela quase desfaleceu. A última coisa que desejava era aquele encontro.
Algo lhe disse que saísse correndo, que esquecesse o chapéu e fugisse dali. Um pressentimento alertava-a para que fosse embora naquele instante, antes que fosse tarde demais para recuar.
Mas ela foi incapaz de se mover e o sujeito parou a um passo dela e depositou o chapéu gentilmente em suas mãos. Os dois se fitaram longamente, talvez estudando a situação, talvez avaliando um ao outro. Ela com desconfiança indisfarçada e o homem com a simpatia e a tranquilidade que lhe pareciam peculiares.
— De nada... — murmurou ele sorrindo de forma divertida.
A mulher piscou duas vezes antes de poder compreender o sentido das palavras dele.
— Oh! — fez ela soltando um suspiro, o rosto corando imediatamente — Obrigada!
— Atrapalhei seu momento de paz? — indagou ele começando a andar novamente instando-a a acompanhá-lo.
— Hã... Não... — respondeu ela sorrindo sem perceber enquanto descobria o rosto dele com o olhar.
— Talvez eu possa acompanha-la?
Um sorriso mais calmo coloriu suas feições ao notar que a pele dele era tão magnificamente bronzeada, os olhos de um tom cor de mel fascinante, com alguns pontinhos verdes que pareciam iluminar-lhe os traços bem desenhados do rosto.
— Estou indo para o hotel... — disse ela voltando o olhar para o chão quando sentiu o coração dar um solavanco.
— Onde está hospedada? — quis saber ele
— No Mill e Uma Noites.
— Chalé?
— Sim... — respondeu ela — Acho que aqui já está bom...
Ela parou num local onde a grama começava a invadir a areia.
— Não quer que a leve até o seu chalé? – disse ele com um tom de voz neutro, que apesar de não sugerir absolutamente nada além de simples companhia, fez com que os cabelos da nuca dela se arrepiassem.
— Não — interpôs ela rapidamente, ao pensar em tudo que teria que ouvir ao ser vista chegando acompanhada de um homem — Eu vou encontrar a minha irmã aqui...
De certa forma sentiu-se mal por usar a irmã naquela pequena mentira, mesmo ciente de que ela adoraria saber que havia sido usada como desculpa para não mencionar o marido. Que besteira ela estava fazendo?
— Vai ficar por quanto tempo?
— Estamos partindo hoje à noite — respondeu desviando o olhar e mordendo o lábio inferior.
— É uma pena... gostaria de me encontrar com você novamente — o silêncio entre eles parecia prosperar, lançando o coração dela em cambalhotas descontroladas — Posso pedir seu telefone, ou te dar o meu número? — perguntou ele parecendo sincero.
— Não — falou de forma abrupta.
A sensação era ao mesmo tempo familiar e assustadora. Como era possível sentir-se tão desconcertada na presença de uma pessoa que jamais havia visto na vida? Que acabara de conhecer e sequer sabia o nome? Só poderia estar ficando louca. Precisava ir embora.
— Desculpe, eu realmente tenho que ir.
Diego sabia que havia perdido a oportunidade quanto notou-a abaixando o olhar. Ela torceu o chapéu entre os dedos e deu-lhe as costas. Ele observou-a afastar-se rapidamente em direção a entrada do hotel e não conseguiu fazer nada. Sentiu ímpetos de correr atrás dela. De perguntar seu nome. Mas não o fez.
Aquela era a mulher mais hipnotizante que já encontrara em toda a sua vida e já começava a se arrepender por não a ter impedido de fugir, por não ter insistido em anotar seu telefone, ou pelo menos leva-la até a entrada do hotel. Mas se o fizesse talvez soasse rude ou insistente.
No caminho de volta à sua rústica casa de veraneio, ele relembrou palavra por palavra o que ela lhe havia dito. Quando chegou a noite, pensou em ir ao hotel para tentar vê-la antes que fosse embora, mas achou melhor não o fazer. O arrependimento parecia não deixa-lo em paz. Dormiu ouvindo o som do mar à distância e sonhou com ela. Durante os quatro meses que se passaram, não conseguiu pensar em mais nada.
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Reflexos
RomanceLEIA A SINOPSE APÓS O AVISO: Se você estiver lendo esta história em qualquer outra plataforma que não seja o Wattpad, provavelmente está correndo o risco de sofrer um ataque virtual (malware e vírus). Se você deseja ler esta história em seu formulár...
