DOIS

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Politicamente, Amberlin é um reino muito pacífico. Geograficamente, estamos longe de qualquer desastre natural ou de um ataque surpresa de qualquer besta, como os dragões. Porém, socialmente, avançamos a passos lentos. É comum flagrar olhares cheios de censuras dos desconhecidos que me encontram na biblioteca, uma jovem menina que deveria estar trabalhando para tornar o lar mais agradável ou na busca incessante por um marido, em vez de ler por prazer.

Só é possível imaginar o tamanho da bronca que eu levaria por chegar em casa tarde da noite, muito depois do horário do fim das aulas. Isso supondo que meus pais não descobriram que o motivo do meu atraso é estar ocupada demais beijando jovens voadores.

Ao chegar na porta, encontro um discreto bilhete me esperando:


"Mel.


            Nossos pais pensam que você já está no seu quarto, por isso, suba pela janela dos fundos.


Anita."


Algumas das vantagens de ter seis irmãs: você pode se tornar invisível dentro da tumultuada rotina da casa, além de sempre contar com a ajuda de uma cúmplice.

Já sabia o que fazer, não é como se nunca houvesse entrado em casa escondida antes. Contornei até os fundos, onde é possível avistar a janela do meu quarto, subi na árvore e pulei para dentro. Fácil.

No interior, encontrei a irmã que divide quarto comigo, Raquel, tricotando o que provavelmente viria a ser um vestido. Raquel passava muito tempo tricotando e pouco tempo tentando ser atraente, mesmo assim era uma péssima tricotadora e a mulher mais atraente que já conheci.

– E aqui está a nossa Mel – falou quando me viu aterrizando graciosamente no cômodo. – Agora você já pode me contar tudo.

– Não tenho nada para contar – menti enquanto tirava a roupa para vestir um pijama. – Isso que você está fazendo é um vestido?

– Sim – respondeu orgulhosa estendendo um emaranhado de lã disforme com certo ar de orgulho. – Está bom?

– Está sim – menti pela segunda vez desde que entrei no quarto e deitei na cama.

– Calma lá, mocinha – senti o colchão afundando com o peso da Raquel sentando ao meu lado e me virei para ela. – Você tem a obrigação moral de me contar o que aconteceu. –

– E como você sabe que aconteceu alguma coisa? –

– A Natasha te viu fugindo da escola com um rapaz – Natasha é outra das irmãs. – Ela não conseguiu ver o rosto do garoto, então não pôde nos dizer se era bonito, mas só de te ver saindo com alguém uma vez na vida já me dá um alívio. Agora, me conta tu-do o que aconteceu. – Não restavam dúvidas para nenhuma de nós de que eu seria a solteira da família, por isso é natural o interesse excessivo das minhas irmãs pela minha vida amorosa.

– Tudo bem... – No fundo, estava realmente animada com tudo o que aconteceu e feliz por poder dividir isso com alguém. – O nome dele é Pablo. Amanhã virá aqui em casa para me buscar para outro passeio.

- Que ótimo! Ele é legal?

- Sim, demais. Um pouco excêntrico. Totalmente obcecado por fazer uma máquina que possa voar, mas é um amor de pessoa.

O sorriso fugiu do rosto da Raquel, dando lugar a uma expressão de quase choque.

– Você saiu com um rapaz chamado Pablo e que está construindo uma máquina voadora?

– Isso.

Raquel se levantou e passou a andar de um lado para o outro do quarto, como se de repente toda a sua energia tivesse sido ligada de uma só vez.

– O que aconteceu? – Não pude entender nada.

– Espera aí – ordenou. – Fique onde está!

E para onde eu iria? Raquel saiu do quarto e depois de alguns minutos voltou acompanhada da Anita (que me deixou o bilhete) e da Bianca, outra irmã.

– Repete para elas o que você acabou de me falar – ordenou novamente a Raquel. Aquilo me pareceu um teste, mas não conseguia pensar em motivos para não contar.

– Saí com um garoto hoje... Ele se chama Pablo. –

– E o que mais? – Completou Raquel.

– Ele é... Bonito? – Arrisquei.

– Não. Isso não, a outra coisa.

– Ele está construindo uma espécie de... Máquina, que ele acredita que pode voar um dia.

Os olhos de ambas arregalaram. Bianca abriu um sorriso do tamanho do mundo e começou a se abanar frenética como se afastasse um calor interno.

– Não acredito – repetia, praticamente sem respirar. – Nãoacreditonãoacredito.

– Alguém pode me explicar o que está acontecendo? – Supliquei.

– Como assim, "o que está acontecendo"? – Perguntou Anita, uma vez que a Bianca encontrava-se em um estado de histeria que a impossibilitava de falar.

– Ela não sabe – informou Raquel. – Ela passa tanto tempo dentro dos livros que se esquece da vida real.

- Os livros são muito mais divertidos do que a vida real – defendi.

- Já sei! A Natasha tem algo que vai te ajudar a entender – lembrou Anita. – Já volto.

Anita demorou alguns minutos, e voltou acompanhada de todas as outras irmãs, que pareciam tão ou mais animadas do que a Bianca. Nunca antes o meu quarto esteve tão lotado em um dia que não fosse o meu aniversário.

 – Olha isso – Anita lançou um jornal na minha direção. – Esse é o seu Pablo?

Era o jornal oficial de Amberlin. Uma foto de corpo inteiro de Pablo estampava a primeira página com a manchete:



JOVEM INVENTOR MUDA-SE PARA AMBERLIN



– O que isso significa? – Perguntei.

– O seu Pablo é famoso.

MAIS LEVE QUE O AR (HISTÓRIA COMPLETA)Onde as histórias ganham vida. Descobre agora