Capítulo 10 - Marina

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Depois de pegar as chaves com Seb na cozinha, corro para mais um dia de ensaio no terraço do Get. Ele pediu aos rapazes para puxarem o teto removível para mim e me deu dois ventiladores, já que aqui em cima faz um calor horroroso. Mas eu não posso reclamar. É mais do que eu pensei que pudesse conseguir pra fazer meus ensaios.

O teste da Special Corpus será dividido em duas etapas. Na primeira, preciso fazer um solo de minha escolha. Numa segunda etapa, caso eu passe, vou apresentar um solo da escolha deles. Terei quarenta e oito horas para ensaiar e apresentar para a banca examinadora. Se estou nervosa? Imagina.

Escolhi apresentar um solo de A Bela Adormecida, com cerca de três minutos. A regra é que não podemos ultrapassar os quatro minutos estipulados para cada um dos candidatos.

A Special Corpus Ballet é a maior escola e companhia de balé do país, conceituada no mundo inteiro. Tem como principal objetivo formar seus alunos e o seu corpo de bailarinos para espalhá-los pelo mundo todo com suas apresentações. E quando penso nisso, fico toda arrepiada com a expectativa de poder estar lá! Deus! É tudo o que eu preciso!

Ligo o micro system que eu peguei emprestado da Lu e coloco a canção para tocar. Judith me gravou uma porção de CD’s com todas as músicas possíveis e imagináveis que nós duas ensaiamos ao longo de todos esses anos. Ela foi minha primeira e única professora de balé. A pessoa para a qual devo tudo o que sei hoje. Claro, devo também a minha mãe, que abria mão de um pedaço de seu salário de professa primária para pagar minhas aulas escondidas, depois que meu pai me proibiu de dançar. As duas sempre acreditaram que eu tinha jeito pra coisa, e cá estou hoje, na busca do sonho de ser uma bailarina clássica e profissional.

Ensaio pelo menos por duas horas antes de dar uma parada e tomar um pouco de fôlego. Pego minha garrafa de água e vou para a beirada do terraço olhar o movimento e o pedacinho do mar que consigo enxergar daqui. Sorrio quando vejo a praia. É meio óbvio o por quê. Toda vez que eu ver a praia vou me lembrar de como foi colocar os pés naquela água pela primeira vez... E com ele! É muita loucura o que eu estou fazendo, eu sei. O Fred, além daquele cheiro maravilhoso de perfume, cheira também a problemas e a tal da Liss me deixa arrepiada só de olhar pra ela. Mas é algo que eu não tenho conseguido controlar muito. Quando dei por mim estava vestida e pronta para uma festa que nunca fui antes, com amigos muitos diferentes de mim e com o estômago doendo porque sabia que ele estava lá me esperando. E vou confessar, nunca dei muita bola pra homem nenhum. Ok, eu namorei alguns em Sacramento, mas nenhum deles realmente me despertou algo que chegasse perto de paixão. Outro fato, claro, é que nenhum deles não é nem de longe parecido com o que meu pai sonhava como marido pra mim. Eu assumo que cresci uma garota rebelde e que contrariar meu pai era meu passatempo favorito, mas quando olho para o Fred, penso que nem em mil vidas meu pai esperaria por uma coisa como essa, porque ele é definitivamente o oposto dos sonhos e expectativas do senhor Carlos. E não é só isso que me puxa para esse garoto. É esse jeito que ele tem de olhar pra mim como se eu fosse realmente especial, não fosse só mais uma garota boba que veio da cidade pequena pra correr atrás dos seus desejos. Ele me olha como se isso tudo fosse compreensível, como se ele me dissesse que no meu lugar faria o mesmo. E eu gosto disso nele. Eu gosto da forma como ele me olha, e como ele sorri de lado. Gosto como ele fala o tempo todo fazendo gestos e em como ele quer sempre me agradar. Gosto de como dançamos juntos, não importa se a música é lenta ou agitada. Gosto de quando ele toca a ponta dos seus dedos nos meus cabelos. Só não gosto do medo que eu sinto de me entregar com tudo nessa história. Mas eu vou arriscar. Já não estou no meio do maior risco que eu poderia correr na vida saindo de casa como uma fugitiva? Então. Enfrentar meus medos passou a ser meu nome do meio!

Acordo dos meus pensamentos e volto para o ensaio. Mais duas horas serão suficientes por hoje, e então irei para casa ajeitá-la, já que é o mínimo que posso fazer por Lu. A moça que arruma a casa já passou por lá, mas uma casa onde Luciana Boaventura more não fica arrumada por muito tempo. Rio ao pensar nisso. Luciana é um furacão. Ela é meu furacão particular que tanto amo. Queria que todas as pessoas no mundo tivessem um furacão como o meu. Uma desordem em pessoa para chamar de amigo de verdade.

Aos teus pés (Caps Para Degustação)Onde as histórias ganham vida. Descobre agora