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Pen Your Pride

11 - PERDIDOS

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Ao longe era possível ouvir o barulho de água corrente. O sol estava forte, mas as folhas verdes das árvores impediam a passagem de seus raios ardentes. Eleanor estava sentada em uma raiz e recostada ao tronco de uma árvore. Havia muito tempo desde que chegara aquele lugar, mas não havia se enturmado com ninguém, nem mesmo com seus amigos.

  Era estranho não conseguir parar de pensar no Arcanjo, havia algo diferente nele, não que já tivesse visto um Arcanjo antes, mas só que parecia que aquele em especial a fazia sentir-se estranha. Suspirou o ar gélido e úmido. Esticou as pernas e fechou os olhos numa tentativa de esquecer que estava a ponto de voltar para casa. Aquela sensação era maravilhosa. Outra vez respirou profundamente.

  Pela primeira vez depois de ter chegado à dimensão humana, havia relaxado. Quase não sabia mais como era boa a sensação de estar em paz. Mas logo que ouviu o som de passos se aproximando seu momento de solidão se foi.

  Não se moveu, apenas fingiu não ter percebido nada. Sabia que só podia ser um de seus colegas. Mas estava enganada.

- É... olá – ela ouvira a voz uma única vez, soando uma única palavra, mas a reconheceria em qualquer lugar.

  Eleanor ficou de pé numa velocidade alarmante.

- Como me achou aqui? – ela focou nos olhos amarelos do Arcanjo. Seu cabelo castanho claro caía sobre a testa. Eleanor fechou o punho. Era o momento perfeito para capturá-lo.

- Eu não estava procurando você – ele falou dando mais alguns passos para perto. – Mas já que a encontrei podemos conversar um pouco.

- Vai sonhando.

  Eleanor ajeitou uma mecha lilás de seu cabelo atrás da orelha, depois se perguntou por que fez aquilo. Começou a caminhar pela floresta a fim de despistar Adiel, mas ele a acompanhou.

- Para onde estamos indo? – ele ladeou com ela.

  Eleanor virou-se para ele e lançou um olhar demostrando que estava se irritando.

- Não “para onde estamos indo”, e sim “para onde estou indo”!

  Fez-se um minuto de silêncio enquanto andavam.

- Então... Para onde estou indo? – Adiel perguntou dando um leve sorriso descontraído. Eleanor não respondeu. – Por que estamos indo cada vez mais longe... Não me diga que você está a fim de...

  Eleanor arregalou os olhos, talvez assustada. Mas que tipo de Arcanjo era ele?

- Se você completar a sentença pode apostar que nunca mais fará o que está pensando.

  Ela começou a andar mais rápido. Às vezes tirando galhos de plantas de sua frente. Ela começou praguejar mentalmente quando percebeu que estava suando mais que o normal.

- Sabe o que eu acho? – Adiel tentou puxar assunto, mas Eleanor não respondeu então ele disse: - Você vai mesmo ficar me evitando? Sério, porque se for isso, eu prefiro estar perdido sozinho.

  Eleanor parou subitamente. Queria lançar um feitiço que o fizesse calar a boca.

- Sim, vou ficar evitando você. Quanto menos falarmos, com menos sede vamos ficar. E não, não estou perdida. Você sim.

  Adiel tentou rir, mas parou assim que percebeu que Eleanor não estava achando graça.

- Claro que estamos – ele falou meio irritado. – Já passamos por essa árvore umas cinco de vezes – ele apontou para uma árvore magrela de tronco retorcido. – Meu Deus, em menos de duas horas perdidos avistei a mesma árvore cinco de vezes!

  Eleanor cruzou os braços sobre os seios e focou em Adiel. Ele a deixava com o dobro de raiva que Rodrigues era capaz de fazê-lo. Ela bufou e ergueu uma sobrancelha, Adiel fez o mesmo. Ficaram alguns minutos numa guerra de arquear sobrancelhas até Eleanor cansar.

- Não me siga! – ela bufou e voltou a caminhar, mas desta vez o Arcanjo não a acompanhou.

  Ele tinha conseguido tirá-la do sério. Eleanor estava completamente perdida. Não sabia em qual local estava nem em qual parte estava. E estava com sede.

  Caminhou por mais algumas horas antes de lembrar-se do barulho de água corrente que ouvira algum tempo antes, mas não sabia mais onde ficava. O barulho cessara e sua cabeça doía demais para forçar-se a fazer algum feitiço.

  Levou a mão à testa e tirou o excesso de suor desnecessário. Continuou caminhando até encontrar um lugar onde achou confortável e sentou-se. Deixou sua mão massagear o chão sob ela coberto por folhas secas e grama.

  - Mas como Adiel sumiu? – Jorge arregalou os olhos negros e focou em Beatriz.

  Eles estavam no chalé onde Jorge e Adiel passariam os três meses hospedados. Beatriz estava histérica, aponto de explodir e sair gritando por ajuda. Adiel não podia ter sumido daquela forma. Era errado e irresponsável fazer aquilo. E ela, Beatriz, seria a culpada se algo acontecesse com ele, pois ela o havia convidado.

- Temos que fazer algo, Jorge – ela começou a balançar o pé direito, sempre fazia aquilo quando estava nervosa. – Adie não é dessas pessoas que somem sem dizer nada.

  Jorge mexeu os lábios. Ele estava no beliche de cima e Beatriz no de baixo. Não dava para vê-la, mas podia apostar que ela estava com os dedos inquietos.

- Ele vai aparecer – Jorge falou tentando acalmar a amiga. – Talvez esteja apenas explorando o lugar. Não fique preocupada a toa...

- Não estou preocupada a toa! Logo vai anoitecer e vão fazer a chamada. E se Adie não estiver lá para responder? Gente, eu vou pirar! Por Deus, eu não devia cansar minha pele com preocupações bobas – Beatriz levantou-se rapidamente da cama. – Ele vai voltar – e saiu.   Queria ter certeza do que acabara de dizer, mas não tinha. Havia algo no sumiço de Adiel que a deixava com a pulga atrás da orelha. Ele não era daquilo, de atitudes irresponsáveis.

  Beatriz caminhou por todo o terreno do acampamento e olhou rosto por rosto, mas não encontrou ninguém nem ao menos parecido com o amigo. Sentiu um aperto no coração quando viu a professora de educação física com um grupo de alunos. Estava em parte preocupada e em parte com medo.

  Acenou quando viu Valentina, Estevão e Rodrigues reunidos num tronco perto da clareira. Mas, além deles, não havia mais ninguém lá. Ou seja, ela precisava encontrar Eleanor. Apressou os passos e seguiu até onde o grupo estava. Quando chegou deu um meio sorriso tímido, pois não tinha muita intimidade com eles, apenas com Eleanor.

- Oi – deu um leve aceno que só foi retribuído por um quase imperceptível sorriso de Estevão. – É... Els, vocês a viram?

- A última vez que a vi, ela estava sentada ao meu lado no ônibus – pronunciou-se Estevão. – Depois disso ainda não.

  Beatriz sorriu e agradeceu Estevão pela resposta e saiu tão irritada quanto no dia em que viu seu pai com a empregada. Não sabia por que estava com aquela fúria negra em seu peito, só sabia que devia estar certa ao adotá-la.

- Então eles estão juntos – sussurrou para si mesma quando entrou no seu chalé.

  Beatriz tirou suas botas e deitou-se em qualquer beliche. Talvez estivesse errada, mas tinha quase certeza de que não. E ela nunca errava em dar palpites. Era craque naquilo.

  Deu uma risada em seguida.

  Eleanor e Adiel combinavam um com o outro.

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