Parte da história sem título

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Ele dormia na beira da estrada algumas vezes, ou andava durante a noite quando não conseguia fechar os olhos. Várias vezes o torpor do sono o fazia cair pelos bancos dos parques em cada cidade que visitava. Procurava sempre pelas cidades pequenas onde a aflição da cidade grande não era vista pelas ruas.

Não sabia se estava fugindo ou se encontrando, só sentia que devia continuar indo. Erguia o braço para os carros quando se sentia muito cansado, e deixava visível seu polegar. Conseguia algumas caronas, mas em algumas cidades as pessoas lhe lançavam um olhar desconfiado e seguiam em frente.

Caminhou durante toda uma noite; seus pés queimavam e pensou em descansar, mas logo a frente podia ver as luzes de uma pequena cidade.

Estavam todos dormindo era o que parecia. Nenhum bar ou boate.

Caminhou pelas ruas iluminadas pela lua e encontrou uma praça. Sentou-se num banco e colou sua mochila ao seu lado. A afagou um pouco e a fez confortável já que lhe serviria de travesseiro aquela noite.

Antes de se deitar levantou a cabeça e avistou o céu. Viu a lua em seu mais belo tom. Lhe lançou um sorriso e ela retribuiu lhe iluminando o rosto. Dormiu bem naquela noite e sonhou com neve.

Acordou com seu corpo tremendo e um peso no braço. Abriu os olhos e viu uma gentil senhora lhe sacudindo, se sentou e ela lhe perguntou se estava com fome, ele assentiu com a cabeça. Ela o mandou seguir-lhe e logo entrou numa casinha cor-de-rosa onde só conseguia sentir cheiro de flores. Ela despareceu por entre as paredes e ele ficou na sala olhando ao redor e pousou seu olhar num móvel repleto de fotos emolduradas. Viu a senhora, um pouco mais nova, abraçando um homem que provavelmente seria seu marido, e um jovem de rosto sorridente. A mulher voltou com uma bandeja repleta de biscoitos, lanches, sucos, café e pães. Eles se sentaram, um a frente do outro e a bandeja ficou pousada na mesa que os separava.

Ele comeu quase tudo que havia nos pratos enquanto a velha senhora lhe observava. Ela sorria e ele não sabia porque.

-É seu filho? Ele perguntou ainda comendo e apontando com o olhar para o retrato.

-Sim.

- Por onde anda? Mora aqui?

- Não, ele se foi. - Ela lhe mostrou um sorriso mas não conseguiu disfarçar a tristeza.

- Se foi?

- Se foi assim como acho que você está indo. Se foi pro mundo e nunca mais voltou.

Ele engoliu seco e olhou novamente a foto.

- Depois de um tempo recebi uma carta que me informava de sua morte enquanto escalava uma montanha por ai. Ele ficou três anos fora e por todos esses anos meu coração morria. Acho que você se parece com ele mas talvez não seja verdade. Eu o vejo em todos os rostos e se tornou comum reconhecer um pouco dele em cada pessoa.

- Me trouxe aqui para me fazer ir pra casa?

- Estou aqui para lhe avisar que entendo sua ânsia por aventuras, e só posso te apoiar. Mas lhe peço uma única coisa, quando achar o que procura volte para casa. Não há algo pior para alguém que ama uma pessoa que partiu do que nunca presenciar sua volta.

O garoto estava parado e já não sentia fome; parte por que havia comido demais e em parte pelas palavras que estava escutando. Levantou-se e olhou pela janela. La fora na praça as mães empurravam seus filhos na balança, ou os ajudavam pela calçada na bicicleta. Sentiu um aperto no peito e saudade de casa.

- Não deixe alguém que você ama reconhece-lo no rosto de estranhos.

O garoto lhe olhou com seus olhos melancólicos e recolheu sua mochila jogada no chão.

- Leve alguns sanduíches. Pode ter fome no caminho.

O garoto pegou os sanduiches e sussurrou um leve obrigada, lançou um olhar à velha senhora e saiu. Pôs-se a caminhar enquanto no mesmo momento a mulher pegava a foto de seu filho e se deixava cair ao chão em prantos.

Caminhou e por dias não dormiu. Não se alimentava bem mas sua energia se prolongava.

Chegou em sua casa num dia de sol e tocou a campainha. Uma mulher saiu e lentamente se aproximou da porta. Enquanto chegava mais perto suas lágrimas se tornavam mais visíveis assim como seu sorriso. Abriu a porta e caiu nos braços do filho.

- Já sei o que procurava mãe, só não sabia que já o tinha.

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