Prólogo

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PRÓLOGO

Ele deu largas passadas, cuidando para que a sola de seu sapato não tocasse o sangue que se empoçava no chão de madeira. Não por cuidado com não a fabricação de evidências, mas sim pelo apreço com o mocassim que acabara por utilizar naquela noite. Não importava que ali, por ventura, ficassem alguns indícios de que ele estivera presente, sabia muito bem que o crime jamais seria investigado por algum órgão policial. Primeiro, pelo motivo óbvio. Segundo, porque seu próprio inimigo se garantiria daquilo.

Ele riu, achando a situação inusitada, passando por cima do corpo do homem e olhando o casal de frente.

Ao menos fora poético... Ficaram juntos para sempre.

O sorriso abriu-se mais, tornando-se sarcástico. Amor... Um sentimento tão patético como qualquer outro. Não foi forte o bastante para superar a iminência da morte.

Nada era.

Ele cruzou os braços, olhando ao redor. Todas aquelas gavetas eram como uma mina de informações para ele. Mas teria que ser rápido, sabia que os italianos chegariam a qualquer momento. Que ele chegaria a qualquer momento, e não seria prudente que ainda estivesse por perto.

Não depois do que fizera.

A única parte que se ressentia era o fato da garotinha estar bem. Deveria ter esmagado a cabeça pequena contra o piso quando tivera a chance.

Era tarde, mas nada fora perdido, e os dois corpos inertes serviam de confirmação.

Enquanto revirava as gavetas à procura de qualquer coisa que fosse útil ou meramente interessante, ele balançou a cabeça, deparando-se com o que parecia ser um diário da mulher, escondido em um fundo falso.

Voltou os olhos para ela, as pernas completamente desnudas enquanto jazia contra o piso. Era muito bonita, ele constatou, passando os dentes pelo lábio inferior. Só que agora, uma morta bonita. Tanta beleza desperdiçada... Deu de ombros, afastando o pensamento. Deveria ter se aproveitado dela antes, enquanto estava viva, quente e, provavelmente, tentaria resistir.

Ficaria com o diário, no entanto. O que a primeira dama da máfia poderia ter escrito ali de útil? Algum segredo que ele poderia utilizar para destruir o que restara da máfia italiana? Algum segredinho sórdido que ela escondera do Ferraro? Ele adoraria descobrir.

Yagniel abriu um sorriso sardônico. Valeria a pena a leitura.

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