- Onde estão os meus pais? - Perguntei quando ele acabou de travar o cinto. Kian olhou em meus olhos e pude tremer com a escuridão que se formou em seu olhar.

- Você saberá assim que chegarmos ao nosso ponto de destino. Eu prometo.

- Para onde estamos indo?

- Washington, Distrito de Columbia! Todas os seus pertences já foram retirados da sua casa e encaminhados para lá.

Respirei com dificuldade e antes que pudesse perguntar mais alguma coisa, o "Primeiro" fez um sinal com a mão e Kian foi se sentar no banco da frente ao seu lado.

- O celular! - O Primeiro anunciou de forma rude, como sempre, do banco do motorista e estendeu a mão em minha direção.

- Para que você quer o meu celular? - Perguntei nervosa.

Ele tinha algo que mexia com todas as minhas emoções. Conseguia ficar irritada somente por escutar o som de sua voz, entretanto não desejava que ele parasse de falar, apenas para continuar ouvindo-a. Muito confuso para alguém que eu nem conhecia.

- Ele pode ser rastreado e você não pode correr nenhum risco.

Entreguei meu celular ao Primeiro com muito receio e o vi quebrar o chip e jogar o aparelho no campo da faculdade. Droga!

Adam se sentou à minha direita e Billy à esquerda. O pânico começou a me consumir. Meus pais não permitiriam que pessoas estranhas me levassem da nossa casa em Manhattan para Washington se não fosse algo sério. Comecei a temer o motivo de tudo aquilo. Quando o carro arrancou, olhei para trás, tentando segurar uma teimosa lágrima que queria descer com a dura realidade de deixar tudo aquilo que eu conhecia sem nem sequer me despedir. A faculdade se distanciava a cada segundo e minha vida, da forma como eu conhecia, provavelmente estava ficando para trás também.

Três horas se passaram e ainda não havíamos chegado. O "Primeiro" estava dirigindo acima de 140km por hora e em algumas situações, eu travava a unha no banco do carro e soltava um suspiro, notando que ainda não tínhamos sofrido um acidente e morrido.

- Está tudo bem? - Em todas essas pequenas crises que tive, Kian se virava para trás com a mesma pergunta.

Como o fôlego ainda não havia retornado ao meu pulmão, eu apenas concordava com a cabeça. Em tese, ainda estava tudo bem. Em alguns momentos, o Primeiro me olhava de relance pelo retrovisor, tão discretamente que até eu duvidava de que ele realmente estivesse olhando. Passamos por uma gigantesca placa escrita: "Seja bem-vindo à Washington! ".

- Chegamos! - Kian informou, tentando me acalmar.

Entramos em uma longa estrada de terra cercada por áreas florestais. As árvores dançavam ao vento, livres. Raros rastros de luz solar cortavam por entre as galhas, iluminando o caminho entre as pedras soltas da estrada. Percorremos aquele caminho por longos trinta minutos até avistarmos uma barreira com duas guaritas e muros altos, o que contrastava com o ambiente verde ao redor. Parecia um forte muito bem protegido por um enorme portão cinza. Homens vestidos de preto estavam ao redor da guarita, assim como acima dela haviam cinco homens caminhando de um lado para o outro. Notei que cada um possuía uma enorme arma nas mãos e mais uma vez, apertei o banco.

Kian olhou para mim e sorriu.

- Não se preocupe.

Claro, para ele era fácil falar. Afinal, quem estava longe de casa com quatro desconhecidos, entrando em uma fronteira protegida por homens armados, era eu. Sendo assim, eu tinha sérios motivos para entrar em pânico.

- Liberem a entrada. É o Primeiro! - Um dos homens que vigiavam a guarita anunciou em um rádio quando nos avistou.

O grande portão se abriu ressoando um estrondo esganiçado. Novamente, o furgão acelerou por uma estrada de pedras até chegarmos ao asfalto. Olhava para todos os lados, buscando entender em que lugar havia chegado. Cinco minutos mais tarde, avistei uma cidade se formando em meio a relva da floresta. Havia um enorme prédio central com aproximadamente seis andares e de largura incontável. As paredes amarronzadas praticamente escondiam aquela construção. Ao redor, haviam algumas casas menores, entretanto grandes o suficiente para abrigar cem pessoas. Uma delas estava cercada de mesas e cadeiras, como um refeitório.

Área Militar -DEGUSTAÇÃO Onde as histórias ganham vida. Descobre agora