1 - Vidro

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Wanessa

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Wanessa

Começou com um vidro. Quer dizer, mais ou menos. Mas se for pra resumir, começou com um vidro.

Eu explico.

Meu pai, Luciano Coimbra, tinha 23 anos, estava no último ano da faculdade e era coprodutor da banda MARCHA quando o vocalista e o baixista se envolveram num acidente de carro na zona sul (eles não causaram o acidente, só foram vítimas dele) e é por isso que ele foi parar num hospital de Santo Amaro na madrugada em que agosto virava setembro.

Enquanto esperava por notícias dos seus artistas — o baixista precisou de cirurgia —, meu pai resolveu "explorar o hospital", como ele costuma dizer. Na época, ele ainda não era meu pai, mas estava perto de ser porque ele foi parar no andar da maternidade e o tempo que levou para ler uns cartazes do mural foi suficiente para uma enfermeira o parar e fazer um monte de perguntas.

Inclusive perguntar se ele teria interesse em ser voluntário na sala dos recém-nascidos.

Foi aí que entrou o vidro.

O vidro da maternidade através do qual meu pai olhou para os bebês que tinham acabado de chegar e me viu sozinha num berço duplo.

— Essa pequena precisa de amor extra. — Ele disse que a enfermeira disse. — A mãe deixou pra adoção.

E pra falar a verdade, meu pai disse que na época não queria adotar nada, nem planta. Ele estava no começo da carreira e dois quintos da sua banda estavam internados, não havia espaço pra cuidar de uma criança. Mas ele topou ajudar com aquela parada de ficar com o bebê no peito pra ele aprender a respirar e tal, enquanto tivesse que ficar no hospital.

Ele falou, "Eu fico com a pequena hoje, então", mas acabou que ficou comigo pra sempre. Me ensinou a respirar através do contato, me alimentou, me deu nome. Wanessa. E virou meu pai, tudo isso no tempo do tio Yarlei ser operado e sair do hospital.

_______

Chega de flashback.

Chega, porque a vida com meu pai e com os meus tios da MARCHA era bem básica para os nossos padrões. Nossa família de sangue era pequena — papai, vovó e eu — mas podíamos contar uns com os outros, e agora os tios também estavam começando a ter suas famílias, então sempre tínhamos algo diferente a fazer.

A vida era básica, mas feliz e eu nunca tive do que reclamar.

Para falar a verdade, nem quando eu descobri que tinha muito mais no mundo do que eu poderia imaginar fiquei com a sensação de que havia algo faltando em minha vida. Quando as coisas mudaram, eu só me senti... mais satisfeita. Como quando a gente come de mais em festa de criança, mas não sai arrependido.

Mas estou me adiantando aqui, é melhor contar o que aconteceu na ordem certa.

A guinada para uma vida mais cheia aconteceu no meu 1° colegial, logo quando as aulas começaram. Isso porque minha turma estava agitadíssima por causa do aluno novo. Do momento que eu desci do ônibus até chegar na porta da sala, pelo menos umas oito pessoas vieram me contar que tinha um menino transferido na minha turma. Oito, sem brincadeira. Duas de minhas amigas, amontoadas na porta como Maria Futriqueiras que eram, estavam particularmente empolgadas (mas também eram cagonas de mais pra ir cumprimentá-lo).

As coisas que nos escolhemOnde as histórias ganham vida. Descobre agora