24 de julho

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Meu despertador toca pontualmente as 5 horas. Todos os dias quando ele toca, tenho vontade de tacar meu celular na parede e voltar a dormir, mas como eu não posso fazer isso, até porque minha mãe nunca me daria outro (devido ao fato de o meu celular anterior ter sido perdido dentro de um supermercado), eu levanto, o desligo, faço minha higiene pessoal e vou tomar café.

O ônibus que me leva para a cidade vizinha passa as 6:15 ou antes (ônibus são um caso sério), então quando dá 6 horas eu subo para o ponto, que é um pouco acima da minha casa.

- *** -

As aulas seguem monótonas como qualquer outro dia e eu não vejo a hora dessa tortura acabar logo, mas quando me lembro que terei que ficar aqui até mais tarde, todo o meu ânimo se vai. Hoje eu e mais dois amigos ( Rafael e Sofia) ficaremos aqui para terminar um trabalho de artes. Me pergunto a todo momento qual a utilidade de fazer um mosaico, mas como não sou eu que faço as regras...

Ao meio dia somos liberados e vou até uma lanchonete que tem em frente a escola comprar meu "almoço". Sempre que fico direto como por aqui.

- Ei dona Rita, como vai a senhora? -Dona Rita é a dona da lanchonete e nos gostamos já de cara. Uma senhora muito simpática, ja na casa dos 50, de cabelos brancos e pele de um branco pálido, que se a visse na rua, acharia que estava doente. Ela cuida de mim como se fosse da família, já que sua única filha vive longe e é totalmente desligada da mãe.

- Ei, minha filha. Aqui está tudo certo, tirando a dor nas pernas. Vai querer o mesmo de sempre?

- Vou sim. - não se passam nem 5 minutos e ela coloca na minha frente um suco de laranja e uma porção pequena de peixe. Em uma de nossas muitas conversas eu contei que adorava comer peixe frito, igual aqueles que vendem de porção em barzinhos. Na outra semana eu cheguei e ela já trouxe o peixe.

- Alguma notícia da sua filha, dona Rita?

- Que nada, aquela lá foi embora sem olhar para trás mesmo. Sumiu no mundo com minhas economias, mas se um dia ela decidir voltar, a casa vai estar sempre aberta pra ela. - disse com os olhos rasos d'agua.

Era isso que eu admirava nela. O fato de estar sempre alegre e sempre tentar ver o outro lado da situação. Ela nunca julgava ninguém. Na lanchonete (que a noite virava bar) já tinham passado das histórias mais tristes as mais engraçadas, ela ouvia todas com a mesma atenção.

Enquanto comia, senti como se tivesse sendo observada, mas quando olhei para trás, não tinha nada de anormal. Terminei minha comida, me despedi da dona Rita e voltei para a escola.

- **** -

Estávamos tão preocupados em acabar o trabalho que acabamos nos esquecendo da hora. Perdi o ônibus e o próximo era só as 19:30.

Saí da escola e estava indo para o ponto. Já tinha escurecido,a noite estava estrelada e uma leve brisa soprava meus longos cabelos castanhos. Tinha nas mãos meu casaco,a bolsa e alguns livros, o que fazia parecer que estava carregando coisas demais para o meu tamanho, graças aos meus 1,62 de altura. A rua em que eu passava era deserta durante os dias de semana, mas não me preocupo muito, pois hoje é sexta e provavelmente os restaurantes e bares que ficam por ali já estarão lotados. Mero engano.

Apesar de ser sexta, havia me esquecido que hoje começava o rodeio, então praticamente a cidade toda ia para a exposição. Muitos estabelecimentos dali já estavam fechados ( como era uma cidade universitária,os restaurantes que eram menos frequentados em dias normais, hoje não se via uma alma viva), e eu morrendo de medo de ter que atravessar toda aquela avenida sozinha. Quando eu estava no meio do caminho percebi uma silhueta encostada no poste, comecei a rezar e pensei que se eu fingisse que não tinha visto, a pessoa me ignoraria também, mas mais uma vez eu estava tremendamente enganada.

- Psiu, gatinha! - reza, reza, reza e anda depressa, era tudo o que passava na minha cabeça. - Iih, o gato comeu sua língua?

Pelo amor de Deus. Se não fosse o meu medo, eu teria parado e ensinado pra ele que "gatinha" não é uma palavra legal para cantar as meninas na rua e falar com elas como se tivessem 5 anos de idade não ia ajudar muito, mas eu estava assustada o suficiente para andar rápido e rezar pro meu anjo da guarda.

Apressei o passo achando que seria suficiente, que daria para chegar no ponto, mas ele me alcançou. Nessa hora pude perceber que ele era até bem bonito. Alto, de cabelos pretos e pele clara,nada do que se esperava de um assaltante. Não é que seja um preconceito, mas ninguém imagina um assaltante bonitão...Meu Deus, eu deveria estar correndo e estou praticamente parada pensando no quanto ele é bonito? ? Quantos miolos me faltam??

- Eu estou falando com você. - ele já estava com a voz nervosa e segurou o meu braço, pensei em gritar, correr, fazer qualquer coisa, me xingando mentalmente por ser tão idiota de não ter corrido quando tive a oportunidade, mas ele levantou a barra da blusa e me mostrou a arma, naquela hora minhas pernas viraram gelatina. Meu maior medo sempre foi ser sequestrada ou algo do gênero e era o que estava acontecendo. O medo foi me tomando e meus olhos ardiam de tentar segurar as lágrimas. Não queria parecer a mocinha frágil ali, mas era exatamente isso que eu estava sentindo. - Você vem comigo e se pensar em correr, eu mato você. - ele tinha olhos bem azuis, mas estavam vermelhos, parecia que tinha usado alguma droga ou algo do tipo.

Eu o segui até uma casa, ali naquela rua mesmo. A casa tinha uma aparência velha,com as paredes descascando, devido ao tempo,mas apesar disso, nao se destacava entre o luxo dos restaurantes. Ele estava praticamente me arrastando já que meu cérebro tinha parado de funcionar lá atrás, quando ele mostrou a arma.

Eu pensei que ele fosse ligar pros meus pais pedindo dinheiro, mas não. Assim que entramos na casa, ele me arrastou até um quarto. Nesse quarto tinha uma cama e um criado mudo em cada lado, só. Ele me jogou contra a cama, como se eu fosse de papel e foi nesse instante que percebi que não envolvia ligação nenhuma, ele ia me estuprar. Quando eu fiz um único movimento como se fosse levantar, ele tirou a arma e apontou para mim.

- Eu não estava brincando quando disse que iria te matar se você não colaborasse. - então as lágrimas caíram.

Depois disso é como se tudo virasse um borrão. Só me lembro dele começar a arrancar a minha roupa e da dor, as lágrima continuaram a descer.

Coincidências do DestinoOnde as histórias ganham vida. Descobre agora