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Como sempre acontecia lá em casa, demorou, mais ganhei um PlayStation 2. Foi o melhor que meus pais conseguiram, orientados pela Nati. Minha vida agora tinha ficado muito melhor!

A Nati logo arrumou mais uma TV e a pôs no meu quarto, assim nada mais me incomodaria! Pena que não registrei quantas horas passei em frente da televisão. Eu só pensava em jogar, em qualquer lugar onde estivesse. Zerei todos os jogos que consegui ter. Depois que zerava, se não tivesse nenhum jogo, fazia todo percurso novamente. Aquilo me acalmava. Bem, em termos. Eu comia, bebia refrigerante e jogava. Não preciso nem dizer que passava as noites em claro.

Quando ficava sozinho em casa, chamava o Caniço para me fazer companhia e, como ele não tinha PlayStation, divertia-me vê-lo jogar, porque sim eu podia esnobar, afinal, além de ter o aparelho, sabia mais que ele. Era a única oportunidade que eu tinha para me achar.

- Vai, manda a ver! Vai, vai... putz, você comeu barriga! - este era meu incentivo. E também nunca o elogiava!

*

Todos os meus conhecidos tinha computador em casa. Todos não, mas para mim era como se todos tivessem. Então comecei a me vitimizar. Essa era uma tática infalível. Claro, usei a Nati novamente. Eu sabia que era sacanagem agir assim, mas meu narcisismo falava mais forte.

Na época, eu estava convecido, de verdade, de que eu era um não previlegiado por não ter computador. Não sei como foi, mas um dia, quando cheguei da escola, lá estava um computador. Ninguém falo nada, nem perguntei.

Milagrosamente uns dias depois meu pai instalou internet. Aí não me contive:

- Pai, você é o cara! - elogiei.

Ele fez de conta que não era com ele e ficou imóvel sem nenhuma expressão, em frente da TV. Eu não sabia se ficava feliz ou de cara pelo toco que levei. Não quis nem saber, logo fui me informando como baixar jogos. Agora estava arrumado!

Não demorou e só queria de saber de estar conectado. Voltava correndo da escola, engolia alguma coisa e jogava, jogava, jogava. Não sabia mais nada do que estava acontecendo no mundo, e todo o resto havia passado para segundo plano.

Eu não conseguia ficar sem internet e jogos. Minha concentração para as outras coisas já era. Passava as noites em claro, bebendo refrigerante e jogando freneticamente. Eu tinha sintomas físicos quando ficava longe do computador! Dava taquicardia e minhas mãos suavam!

Engordei muito! Minha autoestima, que já era baixa, diminiu ainda mais. Quando as pessoas vinha conversar comigo, era estranho. Pareciam estar longe e era como se eu não as escutasse. Ouvia mas não processava.

Claro, mentia bastante. Quando alguém me indagava se eu ficava muito tempo no computador, eu me ofendia. Tudo, menos falar mal do meu fiel amigo. Lá era o único lugar do mumdo onde ficava à vontade. Quando era obrigado a ir a um aniversário ou coisa assim, ficava totalmente deslocado. Aí o desespero aumentava e eu comia e bebia desesperadamente.

Ou seja, era um cyberdependente. Consequência lógica: reprovei de ano sem nem sequer poder fazer recuperação, tão ruins eram minhas notas. Dessa vez meu pai estourou:

- Cacooooo! Você é um caco mesmo! Imprestável. Acha que meu dinheiro é capim? Não falta nada pra você seu... gordo! Acabou! Não tem mais computador...

Não me lembro de tudo que ele falou. Só sei que disse muita coisa. Pior, eu concordava com ele. Eu era tudo aquilo mesmo. Por isso fiquei quieto. E não lamentava o ano perdido. Mas me apavorava a ideia de ficar sem o computador, sem jogar. Como ia ser? Minha mãe olhou com a mesma cara de nojo de sempre e limitou-se a repetir:

- Estou avisando, esse menino não vai dar em nada. Já falei, mas ninguém faz nada! - Se alguém tinha de fazer alguma coisa, esse alguém era ela!

*
Fiquei muito intrigado! Tinha de haver um jeito. Então fui visitar meu abandonado amigo Caniço.

- Pô, Caniço, meu pai cortou o computador. Tirou do meu quarto e sumiu com ele. Estou passando mal. Parece síndrome de abstinência!

O Caniço, com aquela cara sem expressão, nem levantou os olhos, mas resolveu meu problema.

- Brother, nunca ouviu falar em Cyber?

Era tudo de que precisava. Meu problema estava resolvido. Praticamente aluguei uma máquina. E lá ficou ainda melhor, pois havia uma galera tão fissurada quanto eu. Era só controlar as horas para eu estar em casa e não dar chance ao azar.

Quando não estávamos jogando, nos reuníamos em torno do narguilé e é claro que, na maioria das vezes, ele estava cheio de erva. Quase sempre sentávamos na frente da casa de alguém, na calçada. Narguilé era liberado. Então não tinha problema! Ou íamos a uma pracinha próxima. Então juntava um monte de gente que passava só para dar um tapa na pantera e seguir o caminho.

Logo meus colegas me deram dicas sobre como conseguir uma grana pela internet. Ficou fácil. O cara do cyber desligava todas as luzes à noite. Então ficávamos todos lá jogando desesperadamente. Arrumei uma forma de sair de casa e voltar, sem ser notado. Pronto, tudo entrara nos eixos novamente.

*

Meu amigo Caniço circulava na boa pelo cyber, mas não jogava. Ele trazia umas bolinhas para a galera ficar ligada. Logo também comecei a usar. E para acalmar, na hora de ir embora, usávamos um back.

Quando as aulas começaram, ao invés de irmos à aula, íamos ao cyber. É claro que deu B.O. Fui descoberto! Meu pai entrou em cena novamente:

- Caco! Seu miserável... se você pisar no cyber outra vez e eu descobrir, não precisa mais voltar para casa. Entendeu? Escolhe: ou esta casa ou o cyber, entendeu?

Isso tudo aos gritos. Falou muito, quer dizer, gritou muito, mas do resto não me lembro. Ele me bateu pela primeira e única vez na vida. Bateu, bateu muito! Fiquei cheio de hematomas. Quem me socorreu novamente foi a Nati. Colocou gelo, abraçou-me e chorou comigo.

Fiz-me a maior vítima da história. De fato, a forma como tudo aconteceu dava margem a isso. Odiei meu pai! O que é que tinha?

Nada a ver! Não tinha nada de mais no que eu estava fazendo.

CacoOnde as histórias ganham vida. Descobre agora