O Dia Em Que Minha Filha Nasceu.

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- Arthur! – ouvi a voz da minha esposa gritar ao longe. – Acorda!

Meu corpo era chacoalhado com força quando abri os olhos e entrei em um intenso estado de alerta. Olhei de relance para o relógio: eram uma e meia da manhã.

- O que foi, amor?! – perguntei para Érica, minha esposa. – O que tá acontecendo?!

- É a Liz, ela vai nascer! – disse trêmula e aos berros antes de fazer uma careta de dor, afundar a testa em meu peito e cravar com força as unhas em meus antebraços. - A minha bolsa estourou! – rosnou como um monstro.

Pulei da cama e rapidamente vesti minha calça jeans e meu par de tênis. Peguei as bolsas que já estavam há algumas semanas prontas para esse momento e as joguei no carro. Voltei para dentro ofegante e peguei no colo minha esposa que gritava sobre como não se aguentaria em pé de tanta dor que estava sentindo.

- Faz essa dor parar, Arthur! – gritava Érica no banco de trás enquanto eu furava todos os sinais vermelhos para chegar o mais rápido possível no hospital.

Quando chegamos na emergência, uma equipe prontamente nos atendeu e a levou para a sala de parto em uma maca. Por alguma razão, não me deixaram entrar junto com a minha esposa. Pediram que eu aguardasse do lado de fora até que alguém autorizasse minha entrada. Eles iriam mesmo fazer eu perder o momento mais importante da minha vida? - Me questionei.

E então duas horas se passaram. Passei duas angustiantes e longas horas sem resposta. Agoniado, andando de um lado para o outro, sentando e levantando. Olhando para o relógio no meu pulso e o relógio no alto da recepção. Sem saber se tudo havia corrido bem, sem saber se minha esposa e minha pequena Liz estavam bem. Perguntei sobre ela para a recepcionista do hospital e para todos os médicos que cruzaram a porta de plástico que há muito haviam atravessado com minha esposa. E nada, ninguém sabia de nada. Até que resolvi cruzar aquela maldita porta por conta própria.

- Ei, espere! – gritou a recepcionista. Mas a ignorei.

Andei em passos largos e pesados até a sala de parto, mas antes que eu pudesse abrir a porta, um médico a cruzou.

- Cadê a minha esposa? – perguntei, deixando clara minha preocupação.

- Quem é sua esposa? – perguntou o médico em tom sereno.

- Érica Winston

O médico suspirou.

- Você é o senhor Arthur Winston? – sua expressão mudou ao perguntar o meu nome.

- Sim, sou eu. O que aconteceu?!

- Estava indo procurar o senhor. – respondeu o médico. – Sente-se, por favor. – pediu, colocando uma de suas mãos em meu ombro e acompanhando-me até o acento mais próximo.

Obedeci, embora parte de mim quisesse surra-lo até que respondesse minha pergunta.

- Queria dizer ao senhor que eu e minha equipe fizemos todo o possível...

Neste momento, senti meu coração parar de bater. Um calor tomou conta do meu corpo e uma fraqueza das minhas pernas. Gotículas frias de suor se formaram em minha testa e um frio congelante correu ligeiramente pela minha espinha.

– Infelizmente, sua esposa não resistiu às complicações do parto...

Não consegui escutar mais nada. A voz do médico se tornou algo distante e abafado pelo turbilhão de pensamentos que invadiram a minha cabeça. Entrei em estado de transe e tudo o que restava em minha mente era Érica. Neste momento, vivi em retrospectiva todos os dez anos que passamos juntos. E no fim, lá estava ela, como se tivesse acabado de acordar. Deitada ao meu lado com a cabeça apoiada sobre as mãos, os cabelos escuros levemente bagunçados, os olhos castanhos caidinhos e brilhantes, sorrindo como quem acaba de ouvir uma piada e o sol brilhando através das cortinas que balançavam com o vento atrás dela. Linda, uma verdadeira obra de arte, o amor da minha vida. Senti meu peito arder em chamas quando ouvi minha própria voz sussurrar que eu nunca mais a veria daquele jeito.

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