2

1.8K 38 3
                                                  

Desde que me lembro, acordar sempre foi terrível, ainda mais quando se sabe que vai ser ruim. Vai ser mais um dia daqueles! Calçar os tênis já exigia um contorcionismo que me deixava ofegante. Na verdade era a primeira tortura. Depois, todos me achavam lento.

- Ligeiro, Caco. Acha que o banheiro é só seu ?

- Vamos, gordo! Pensa que tem o dia inteiro ?

Esta era, muitas vezes, minha saudação matinal. E era só o começo. Chegar à escola era outra batalha. Já estava suado e exausto. Ia direto para o fundo da sala de aula. Ah! Mas havia as carteiras, e passar por elas era outro desafio. Era comum justificar meu apelido. porque derrubava os materiais dos colegas e muitas vezes fui xingado por isso.

- Ei, olha aí, ô!

- Cara desastrado, vê por onde anda!

Às vezes era pior. Sentava na minha carteira e de lá tentava não sair por nada. Só quando não tinha outro jeito; então, começava tudo novamente.

Também não conversava com ninguém. Aquele não era meu mundo! Aliás, que mundo ?

Ô meu! E com as meninas? Cara, que dificuldade! Sentia-me o último da fila e sem chances. Eu nunca ia conseguir ter alguém. Sentia-me feio, desajeitado, com vergonha de mim mesmo. A sensação de constrangimento era companhia constante. Acho que por causa disso vivia num mau humor permanente. Nada mais parecia interessante.

As aulas de Educação Física eram o maior terror. O que era aquilo ? Imagine só, eu era a piada!

- Corre, Caco! - e todos riam.

- Anda como homen, Caco! - até as meninas caçoavam.

Dentro de mim um nó apertava o peito. Juro que queria chorar. Aí,sim, eu seria mais zoado. Vez ou outra não havia jeito, tinha de jogar handebol, voleibol ou futebol de salão. Então, virava saco de pancada. A alegria da turma era me derrubar ou me dar bolada. Um dia me pusseram para jogar no gol e até sangrei, tantas boladas levei. Aquele dia foi sinistro!

Quando fui ao banheiro me levar, a tortura continuo. Jogaram-me água, afundaram minha cabeça na pia e não me deixaram usar o banheiro.

Eu não tinha saída. Aquilo não terminava nunca. Foram minutos que demoraram uma eternidade. Naquele dia, quando cheguei em casa, minha mãe me olhou e perguntou:

- Ué! O que é que foi? Apanhou? É bom! Assim, quem sabe, você vira homem!

Caramba, aquilo acabava comigo. A vontade que eu tinha era de bater, gritar, chutar, chorar, morrer, sei lá. Fui para o fundo de casa e fiz tudo isso em pensamento. Falei sozinho, gesticulei, dei socos e pontapés ao vento, imaginando estar pegando os caras. Em relação à minha mãe, eu só pensava: você ainda vai ver! Espere que você vai ver!

E ir à aula no outro dia? Sabe o que é isso? Encarar tudo novamente? Porque não para, nunca para! Ninguém dá a mínima. Eu Já chegava com medo, e pior era que tudo aconteçia de novo.

*

Nessas horas só tinha o amigo Caniço, embora eu não tocasse nesse assunto com ele. O caniço ficava em casa o dia todo. Faltava muito às aulas, porém ninguém dava bronca nele por isso. Na casa dele a gente fumava. Fumava muito. Eu chegava a ficar tonto. Aquilo me aliviava. Era como se eu tivesse desabafado, embora pouco se falasse. Não havia assunto. A gente fumava e aquilo parecia fazer bem para ele e para mim.

Os pais do Caniço eram malfalados. Eram meio sinistros mesmo. Quando estavam em casa, dormiam o tempo todo. Depois sumiam uns dias. Mas sempre voltavam. A casa era muito suja. Dava a impressão de que ninguém a limpava.

Um dia, minha mãe apraceu lá me procurando. Eu estava podre de cheiro de cigarro. Quando escutei a voz dela, tremi na base. O Caniço encarou como se nada estivesse acontecendo e mentia na cara dura que eu não estava. Não calou. Minha mãe fingiu que foi embora, mas ficou me esperando. Quando saí de lá, ela me pegou. Chegando em casa, me bateu com uma vassoura. Apanhei muito! E não chorei. Ah! Ela não falou uma única palavra, apenas me bateu. E bateu muito.

Nesse dia pensei, sinceramente em dar fim à minha vida. De raiva. De revolta.

*

Meu pai, alheio a tudo, permaneceu como sempre, sentado no sofá. Era como se ele não escutasse e não visse nada. Falava estritamente o necessário. Quando saía desse estágio letárgico, era para dar bronca ou reclamar da vida. Nunca se envolvia com nada. Também não contava nada. Eu jamais soube nada de meu pai. Eu o chamava, no silêncio dos meu botões, de estátua. Na rua, com os de fora de casa, ele era falante, contador de piadas, parecia ser o cara mais legal do mundo. Porém comigo nunca brincou, não me ensinou a andar de bicicleta, odiava meu videogame. O fato de ele ser tão inerte era o que mais me incomodava. Preferia vê-lo bravo, pelo menos sabia o que estava pensando.

Minha irmã, a Nati, entrou no quarto onde eu estava, deitou do meu lado, me abraçou e chorou baixinho comigo. Não trocamos uma palavra, entretanto havíamos nos entendido. Depois de algum tempo, não sei quanto, acordei com ela se levantando. Esse é um momento de que nunca vou me esquecer na vida! Ela foi muito legal comigo sem ter dito uma única palavra!

CacoOnde as histórias ganham vida. Descobre agora