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Às vezes não me entendo! Sou de boa e bravo. Sou alegre e triste. Sou animado e murrinha. Sou afetuoso e malvado. Num dia estou de um jeito, no outro, só por Deus... Às vezes quero muito alguma coisa, depois, já não quero mais! Para certas coisas, tremo na base, já para outras, sou o cara. E daí ? A turma toda é assim! Também não suporto mais ouvir que é assim mesmo, que é fase, que eu preciso me alcamar. E quem disse que eu quero me alcamar ?


*

Sempre fui assim. Desde que me lembro por gente. Tenho que rir só de pensar. Sabe o porquê do meu apelido ? Porque, quando pequeno, eu derrubava tudo e vivia caindo, me machucando. Então meu pai começou a dizer que, onde eu chegava, as pessoas podiam se preparar para juntar os cacos.
- Atenção, pessoal ! Tem uma bolotinha rolando por aí. Cuidado. Já, já teremos alguma coisa fazendo -se em pedaços : cacos, cacos...

E todos riam. Mas eu não achava legal. Ficava Muito bolado!

Sabe, no fundo eu ficava esperando meus pais me protegerem. Minha mãe só me olhava com aquele ar de reprovação. Mesmo quando eu a procurava pedindo ajuda, era sempre o mesmo olhar. Punha-me em seu colo como se fosse um peso. E acho que era!

Definitivamente eu não conseguia fazer nada que que a agradasse. Mas era estranho, porque ela não brigava. Eu nunca sabia o que ela estava pensando, embora soubesse que nunca conseguia deixá-la feliz.

Meu pai era um cara trabalhador pra caramba. Nunca deixou faltar nada em casa. Mas tem uma coisa nele que sempre me incomodou muito: ele caçoava demais do meu jeito destrambelhado e fazia questão de me notar no meio de estranhos.

- Não acredito! Ninguém derrubou nenhum copo hoje ?

- Quem será que sujou a camiseta ?

Em casa ele simplesmente me ignorava; mas quando havia outras pessoas, eu era seu objeto de gozação. E ,pior, os outros se juntavam àquela tortura psicológica. Cara, como era ruim aquela sensação. Creio que eu era a decpção do meu pai.

O apelido foi pegando, pegando, até que eu mesmo começei a me chamar de Caco. Caco! Comecei a achar simpático e afinal eu não precisava mais me cuidar. Assumidamente podia quebrar as coisas, já que eu era o Caco. Mas não tem nada a ver com meu nome!


*

Meu melhor amigo, o Caniço,era muito magro e baixinho. Era um menino que morava perto de casa. O cara mais maluco que já conheci. Ele parecia imune a qualquer sentimento. Sempre com a mesma cara, não expressava paixão, raiva, alegria, nada! A sensação que eu tinha quando conversava com ele era a de estar falando sozinho. Mesmo assim eu me identificava com ele. Éramos os dois excrados de turma. Às vezes, penso que com ele era até pior. Mas depois falo dele...


*

O fato de ser gordinho, isso sim, sempre me incomodou muito, Mas muito mesmo. Não! Você não entendeu: muuuito! As roupas não servem; numa parada, você é o último, aquele de quem todo mundo faz chacota. Se for jogar qualquer coisa, você é descartado. Ser gordinho é a maior barra. Todo mundo fica reparando! Queria sumir com isso! Até em dar fim na vida pensei. Ah Tá bom. Todo mundo já pensou. Nada de mais. Mas que ser gordinho é muito ruim, é. E as pessoas pensam que é porque a gente come muito. Você não sabe o quanto me esforçava, ralava, e nada. E também comia bastante!

*
Bem, pareçe até que só havia coisas ruins na minha vida, mas não é bem assim; havia coisa boa, também.

Também havia uma grande amiga, a Nati, minha irmã, com quem podia contar sempre. Foi ela quem cuidou de mim quando criança. Ficávamos horas conversando bobeira, rindo. Não é que falássemos de nós mesmos, mas sempre tínhamos assunto. Amava fazer cócegas nela.

E quantas vezes fingi estar doente só para ela me cuidar. Vê se pode! Mas eu também cuidava dela. Especialmente quando estava com cólicas, então me oferecia para fazer as tarefas dela.

- Nati, pode deixar! Pode descansar que dou uma geral aqui.

Era legal que ela aceitava, porque me sentia cuidando dela, e percebia que minha irmã ficava feliz com aqueles cuidados, embora nunca me pedisse para lhe fazer alguma coisa.

CacoOnde as histórias ganham vida. Descobre agora