Mãe

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O bebê parou de chorar. A mãe, que olhava o bebê como se hipnotizada, esperou o pai terminar de cortar a grama e voltar para dentro de casa. Ficou olhando o filho imóvel no berço. Ele era tão lindo quando ficava quietinho assim. Quando criança, Guilhermina sonhava em ter muitos filhos. Para ela, quanto mais filhos tivesse menos sozinha ela ficaria na vida. Vinha de uma família pobre, um pai violento, uma mãe cansada, e nenhum irmão.

Guilhermina sonhava com o dia em que conheceria o homem de sua vida, casaria e teria o primeiro filho. Na sua imaginação infantil, seu marido era um homem alto e bondoso, que trazia flores para ela todas às sextas-feiras. Ele era, principalmente, o contrário do pai. Seu marido jamais levantaria a mão para bater nos filhos ou nela.

O bebê deitado no berço era o quinto filho do casal. Se parecia com o pai. Os cabelos lisos e loiros, a pele branca como a neve. Guilhermina não via seus olhos, mas sabia que eles eram azuis. Olhar seus bebês quietinhos assim no berço era o que ela mais gostava. Fazia com que se lembrasse das brincadeiras solitárias de boneca, onde a pequena Guilhermina fingia ser a mamãe de um bebê perfeito.

Sua boneca favorita era feita de pano e tinha uma marca de cigarro na bochecha. A marca tinha sido um presente do pai, que prometeu que, da próxima vez, seria Guilhermina quem receberia o presente. Ela passava horas ninando o bebê falso, penteando seus cabelos de lã, e conversando com ele. Todas as bonecas dela eram meninas, mas a garota gostava de fingir que eram meninos. Queria filhos homens.

Enquanto lembrava de sua infância, Guilhermina arrumou a colcha azul que ela mesma havia tricotado para seu primeiro filho e que havia passado para os mais novos.

Conheceu o marido no segundo grau da escola pública que frequentava desde pequena. Ele havia se mudado para a cidade com a família e passou a estudar na mesma turma que Guilhermina. Foi amor à primeira vista. Antes mesmo da primeira semana de aula acabar, ele já a havia chamado para um encontro. A cidade era pequena e não tinha muitas coisas para se fazer, mas tinha um pequeno cinema e foi lá que eles deram o primeiro beijo.

As duas famílias eram extremamente religiosas e era esperado dos jovens que se casassem virgens. Isso não os impediu de descobrir o corpo um do outro, escondidos no quarto dele enquanto os pais trabalhavam. Matavam aula para se encontrar em segredo. Quando completou 17 anos, Guilhermina descobriu que estava grávida. Sabia que a família não iria gostar, especialmente o pai. Por isso, os dois adolescentes fugiram durante a noite e se casaram em segredo.

Ao descobrir o que a filha tinha feito, o pai tentou discipliná-la com socos e pontapés. Enquanto Guilhermina apanhava do pai, viu seu novo marido acuado num canto com medo de também apanhar. A surra não foi o suficiente para fazer com que a garota perdesse o bebê. O mesmo não se podia dizer sobre o respeito que Guilhermina tinha do marido.

O garoto arrumou um emprego em uma ferragem, como vendedor, graças ao pai de um amigo. Já ela foi trabalhar na floricultura de uma tia, que não era nem de perto tão religiosa quanto o irmão mais velho. A tia também permitiu que o casal se mudasse para a pequena edícula nos fundos de sua casa.

O primeiro bebê era lindo e saudável. O pai não podia estar mais orgulhoso. Tinham uma vida simples, mas perfeita. Guilhermina, à princípio, ficou encantada com o bebê. Porém, não demorou muito para notar que ter uma criança não era a mesma coisa que ter uma boneca. O bebê chorava dia e noite e a mãe chorava junto. Estava cansada e nem a ajuda do marido aliviava seu trabalho. Quando finalmente conseguiu um pouco de paz, descobriu que estava grávida novamente e, menos de um ano depois, tiveram seu segundo filho. Uma filha, na verdade. Assim como o irmão, a menina era um exemplo de perfeição.

Guilhermina passava noites sem dormir. Mesmo quando era a vez do marido levantar e trocar a fralda da filha, ela não conseguia voltar ao mundo dos sonhos. O choro da criança ficava preso na mente dela.

O marido podia ser covarde e sem graça, mas amava muito os filhos que ela havia dado à ele. Mesmo nos momentos de dor, ele ficava ao lado da esposa. Mas quando a terceira gravidez veio, ele começou a se distanciar. Passou a fazer hora extra no trabalho, usando sua promoção a gerente da loja como desculpa. Quando não havia mais como fingir estar trabalhando, ele ia para o bar beber com os poucos amigos que ainda tinha. Ele não tinha mais aquela felicidade juvenil que tinha atraído a esposa quando se conheceram. Bebia cada vez mais, tanto fora de casa quando dentro, mas não se tornou violento como o sogro. Nem mesmo quando o amor que sentia por Guilhermina se tornou desprezo.

A mulher secretamente culpava os filhos pelo distanciamento do marido. Mas ela os amava assim mesmo. Embora o choro, as fraldas sujas, a bagunça, as noites em claro, a comida jogada no chão, fossem quase um pesadelo para ela, ainda assim amava os bebês acima de tudo.

No dia em que o quinto filho nasceu, o pai ameaçou sair de casa. Não aguentava mais, ele disse. Guilhermina, com o bebê preso em seu seio, implorou para o marido não abandonar a família. Bêbado, ele chorou colocando a mão na cabeça macia do bebê e não foi embora.

Parada perto do berço, com os braços caídos do lado do corpo, a mãe sorriu. O barulho do cortador de grama à acalmava. Ficou pensando em cada um de seus filhos maravilhosos, como todos haviam dormido naquele mesmo berço onde o pequeno bebê estava agora. Lembrou da felicidade que sentiu quando segurou seu terceiro filho nos braços e viu que ele tinha os cabelos negros como os dela. Lembrou quando o quarto bebê aprendeu a caminhar e sorriu faceiro para ela, enquanto se segurava em uma cadeira.

Lá fora, o barulho do cortador de grama parou. Logo o marido estaria lá dentro com ela novamente. Talvez viesse para o quarto do bebê, mas era mais provável que fosse se sentar na frente da televisão com uma cerveja gelada. Já fazia bastante tempo que ele não se interessava pelos filhos. O silêncio repentino acordou Guilhermina de seus devaneios. Era melhor voltar para cozinha antes que o marido terminasse de guardar o cortador e voltasse. Estava quase na hora da janta.

Arrumou a colcha do bebê mais uma vez, ajeitou o ursinho marrom que ele tanto amava ao seu lado e tirou o travesseiro que cobria o pequeno rosto. Se certificou de que o bebê realmente não estava mais respirando. Sorriu, saindo do quarto com o travesseiro nas mãos. Se sentia feliz, pois o choro irritante da criança finalmente tinha parado. Tocou o ventre, onde seu sexto filho estava se formando e sorriu mais uma vez.

O bebê já devia estar com seus irmãos, lá para onde a mãe havia mandado todos eles.

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Nota: Quando eu era criança, minha mãe assinava a revista Seleções e eu amava ler as histórias reais que eles publicavam. Várias deles me marcaram e me lembro delas até hoje. Uma dessas histórias era a de Waneta Hoyt, uma dona de casa americana que matou os cinco filhos sufocados. Levou cerca de 20 anos para descobrirem que ela havia matado seus bebês e seu caso se tornou importante no mundo médico, porque levou ao estudo da Síndrome de morte súbita infantil.

Essa história me impressionou muito. A ideia de uma mãe fazer algo assim não me entra na cabeça. E o fato de Waneta nunca ser mencionada quando se fala sobre serial killers é muito estranho. Não quero, com este conto, enaltecer uma pessoa horrível como ela. Mas precisava tirar Hoyt da minha cabeça de uma vez por todas.

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