01. Eu, Você e Bonecos de Ação

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Terça-feira, 19 de maio de 2015

Todos nesse mundo odeiam alguma coisa, essa é uma boa regra do mundo. Por mais desagradável que ela seja, é algo natural do ser humano e ninguém pode fugir disso. Sempre existe algo que é extremamente odiado, aquilo que nos irrita tanto que pode nos fazer chorar de raiva (e chorar se raiva não é lá muito agradável, mas é inevitável, vai acontecer uma hora ou outra). Além de termos sempre uma lista de coisas mais odiadas na face da Terra, pode ser longa ou curta, depende do quanto você é irritável (ou do quanto você é feita de mau humor). Claro que é algo extremamente pessoal, é uma grande coincidência quando duas pessoas que se conhecem odeiam as mesmas coisas, são mais de sete bilhões de pessoas, qual a possibilidade? Claro que algumas coisas são mais comuns, são como um senso comum, coisas simples que a maioria não gosta, praticamente é a regra não gostar de algumas coisas. Coisas desagradáveis, como cheiro ruim e calor excessivo.

Para Simone Kupstas, o que ganhava o prêmio de coisa mais odiada nesse mundo era a mania de seu pai (uma de muitas), talvez não fosse exatamente uma mania, mas era quase: a linda e terrível insistência em fazer ela ir ao psicólogo. Em tentar outra e outra vez colocar a menina numa terapia porque ele achava que seria melhor para ela. Simone já havia perdido as contas de quantas vezes eles tentaram, de quantas tentativas fracassaram, cinco, seis, sete? Ela não queria aquilo, ela não gostava daquilo e só continuava indo a todas as tentativas porque seu pai era muito teimoso. E porque era seu pai, um homem bom. Também o cara que pagava as contas, comprava comida e livros, deixava ela morar sob o teto da casa dele.

Era seu pai, ela não podia evitar.

Simone simplesmente não entendia o motivo dessa grande insistência. O que havia de errado com o seu comportamento? Na mente dela, obviamente, nada. Ela só era introvertida. As pessoas podem ser introvertidas, não podem.

Ela apenas era uma adolescente de dezesseis anos que era um pouco diferente, gostava de passar o dia em seu quarto, trancada ouvindo música e lendo algum livro. Ela passava um tempo estudando e também fazendo algo inútil na internet. O que havia de tão ruim ou prejudicial em ser reclusa? Havia uma sensação confortável de segurança em estar protegida do mundo pelas paredes físicas do quarto e os muros imaginários de mundos de fantasia.

Ela não sabia, nunca saberia, o que havia de errado nisso.

Seu pai não era o maior apreciador de seu modo de viver. Ela era isolada demais na opinião do homem. Ela era isolada e tímida, frequentava perfeitamente o colégio, não era uma garota sociável. Tímida e um tanto antissocial porque ela nunca soube como lidar com pessoas. Ela frequentava poucos lugares além do colégio. Às vezes ia para a casa de seu melhor amigo, Henrique (antes dele começar a namorar um garota do terceiro ano e Simone tinha um pouco de ciúmes. Não o ciúme 'esperado', ela nunca viria o garoto como um namorado em potencial, era o tipo de ciúme que você sente quando seu irmão começa a se afastar). E às vezes ia ao mercado com o pai para fazer as compras do mês, também passava na livraria para abastecer a estante do seu quarto (que já estava abarrotada e estavam pensando em comprar outra porque aquilo poderia acabar na tragédia de livros caindo no chão). Raramente ela ia para algum outro lugar, para algum lugar com pessoas com quem ela poderia socializar. Simone era um belo exemplo de pessoa introspectiva (e o que há de errado nisso?).

A maior parte das pessoas de dezesseis anos saiam, se divertiam, tinham amigos, namoravam (ou pegavam alguém), mas ela não se interessava por nada disso. Ela não via muita graça no mundo exterior e muito menos nas pessoas. Enquanto (ela imaginava que) muitos pais pelo mundo queriam que seus filhos ficassem em casa, estudando e sendo uma garota (ou um garoto) comportada, em vez de estarem nas ruas, em festas ou em qualquer ligar (bebendo, fumando ou transando), Lucas queria que Simone saísse de casa e ao menos experimentasse coisas diferentes. Não algo pesado. Só tomar um porre uma vez na vida, beijar alguém só por beijar, ter um dia divertido.

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