1. Impasse

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- Será que eu te vejo mais tarde, moça?

Esse cara. Esse cara era um idiota, mas basicamente o único amigo que ela tinha. A garota sempre fora meio comportada e quieta e até tinha outros colegas que saiam com ela uma ou duas vezes durante as férias, mas seu tempo livre, suas conversas e confissões, tudo era com ele. E eu sempre tive a certeza que tudo o que ele queria era entrar no meio das pernas dela - nunca entendi como ela não reparara nisso.

Era a famosa Friendzone, era óbvio. Se tomasse coragem, ele ia agarrá-la e não iria deixá-la fugir de jeito nenhum.

Ela sempre foi uma moça bonita, a Ludmila, sempre zangada e certinha. Não gostava de se exibir, de ser o centro das atenções e nem sequer gostava muito de sair. Acho que ela sempre teve uma zona de conforto muito rente e curta que a impedia de curtir a vida alopradamente como as outras garotas bonitas. Não bebia, não fumava e eu tinha impressão que ela também não era muito adepta do sexo e do rock'n'roll. Ela só era aquela criatura contida, carregando livros por aí, estudando e tomando latinhas de Pepsi com pacotes de biscoito Fofura. Chegava a ser patético, a beleza desperdiçada com apenas aquele idiota do Léo rodeando-a.

Bom, eu podia ter conseguido ela antes, é claro, mas eu estava ocupado com outras garotas mais fáceis para me concentrar apenas nela, embora gostasse de desafios. E também tinha aquele problema de aversão que ela parecia ter desenvolvido por mim desde o instante em que colocara os olhos em meu corpo maravilhoso - o que era bastante estranho, na verdade.

Era culpa do seu blábláblá qualquer sobre violência desnecessária.

Ela riu à pergunta de Léo, ressonando como a gatinha carente que era. Colocou uma mecha de cabelo atrás da orelha, envergonhada, flertando sem que ele sequer percebesse porque ele era um burro. Acho que ela nem fazia por mal, era mais uma questão de não ter mais nenhum cara rodeando-a, então todo o seu charme infantil era jogado para o amigo.

- Talvez - ela respondeu, doce. - Mas acho que só vou dormir até a semana que vem.

Ele riu, acompanhando, acostumado a fingir sentir graça de suas piadas depreciativas desde que se conheceram, no segundo período. No quinto, quase dois anos depois, eles tinham aquele entendimento silencioso, embora houvesse uma aura de desconforto pelo romance não concretizado.

Ele, fracote que era, não tomava iniciativa; ela, apenas não achava que devesse arriscar o único amigo que tinha em uma tentativa que podia ser frustrada.

Acho que ela aceitaria qualquer outra opção que lhe aparecesse, mas sua tentativa de permanecer invisível a todas as pessoas do campus era completamente bem sucedida.

Talvez eu fosse a única exceção, embora estivesse ignorando-a publicamente em boa parte do tempo.

- Bom, então acho que nos vemos em fevereiro - ele disse.

Em uma das raras vezes que ele se atrevia a ter algum contato físico com ela, deu-lhe um tapinha nas costas e um beijinho na bochecha. O clima desconfortável se instalou entre os dois porque ele sabia - todo mundo que tivesse algum conhecimento sobre Ludmila sabia - que ela teria três meses tediosos, implorando por algum evento social na cidade, que normalmente ficava vazia porque os estudantes retornavam todos para a casa de seus pais.

Algumas vezes, ela dava sorte; outras, apenas ficava em casa com a cara enfiada em livros e mais livros ou com o nariz inchado de tanto chorar vendo filmes românticos bregas.

Se esse fosse um cara esperto, podia abdicar umas férias para ficar com ela e tenho certeza que ele conseguiria o que queria sem muito esforço, mas - e eu ficava muito contente com isso - ele nunca pensou nisso, então o clima de despedidas era sempre desconfortável porque ambos sabiam que ela estava sendo abandonada para mais meses de tortura e reclusão.

Jogando os Dados com o Prazer [DEGUSTAÇÃO] - 1ª TemporadaLeia esta história GRATUITAMENTE!