Até que Chegue o Amanhã - Conto Quatro

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     O amor é o espaço e o tempo tornados sensíveis ao coração.
- Marcel Proust

     Ele levantou os olhos para o palestrante e assentiu para si mesmo. Era uma coisa que ele sempre fazia quando começava a entender ou concordar com um assunto. Os óculos de aros finos e aspectos sérios estavam em suas mãos, as pernas pretas abertas, como se ele tivesse acabado de tirá-los dos olhos. O maxilar estava firme, mas seus olhos, apesar de franzidos na tentativa de enxergar melhor, ainda eram suaves, tanto quanto sempre foram.

     Aquele rosto. Ela vinha tentando, procurando uma desculpa ou coragem para ficar frente a frente com ele e dizer tudo o que estava preso na garganta. Depois de tudo o que acontecera nos últimos meses, a culpa passeava em suas entranhas, fazendo seu próprio caminho desconfortável entre um órgão e outro. Mas em sua maioria, pulsava junto ao coração.

     Com mais uma olhada sorrateira por sobre o ombro ela o viu sorrindo. Virou o rosto para não ser pega encarando, mas ficou inclinada o suficiente para tentar espiar pela visão periférica. Pegou alguns fleches de movimento antes de se voltar para frente, os olhos fixos no palestrante.

     Ele estava segurando a mão da garota ao seu lado. Ela não havia notado isso.

     Cora apurou os ouvidos e se concentrou nos sons que vinham da cadeira atrás da sua. Nos momentos em que Jimmy Carlson fazia uma pausa em seu discurso sobre os Personagens Planos e sua importância, ela podia ouvir. Não com clareza, apenas murmúrios. Mas a voz que sussurrava era a dele e se juntava a uma risada melodiosa de garota.

     Ela tinha certeza de que eles estavam inclinados um para o outro, sorrindo como se fossem cúmplices de um crime perfeito, ainda com os dedos intimamente entrelaçados. Comemorando uma grande vitória, comemorando o poder do amor.

     Cora não resistiu à necessidade de revirar os olhos, mas por sorte conseguiu conter a careta. Amor, puff.

     O ciúme tomou o lugar da culpa, que ainda se agarrava às arestas de Cora como quem se agarra à beira de um penhasco, temendo a queda e a morte iminente.
O desconforto se instalou na boca do estômago quando a cena imaginada deles se desenrolou em sua mente. Eles haviam se conhecido em um café, não, não em um café, mas num clube do livro qualquer. Eles conversaram sobre os livros que tinham em comum e o sentimento de se reconhecer um no outro pairou entre eles. Ross a convidou para sair, claro. Quando havia acontecido? Há uns dois meses, quando Cora deixara de responder suas mensagens? Antes disso, quando ele estava tentando se reaproximar de Cora?

     Cora engoliu em seco e tentou focar seus pensamentos na palestra sobre escrita. Aquilo é o que faria pelo resto da vida, sua melhor e mais confiável amiga, que mora dentro dela e nunca pensaria em se mudar. Devia se agarrar à suas palavras e criatividade com unhas e dentes, não ficar pensando no que o casal dizia um para o outro e se era tão importante para Ross a ponto de ele não se importar com o que Jimmy Carlson estava dizendo.

     A verdade é que ela não o conhecia mais. Não sabia o que era importante para ele. Ela mudou muito em cinco anos e ele também havia mudado. Ela tinha notado isso no instante em que se reencontram. O jeito de falar, as palavras que ele usava. A maturidade e até mesmo o jeito de andar. Ele estava mais alto, esguio e musculoso, a blusa social colada às costas. Ele mudara tanto sua personalidade quanto sua aparência.

     Cora baixou os olhos para o caderno aberto numa folha em branco em seu colo. Este dia estava sendo uma montanha russa de sentimentos, uma espiral de decisões que não sabia se estavam certas ou erradas. Não tê-lo respondido quando seus dedos ardiam para mandar uma mensagem foi uma grande covardia e se ela pudesse voltar e fazer diferente, ela voltaria.

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