Izuku observa a Uraraka de soslaio quando ela volta para a sala depois de ter levado seu amigo até lá fora, as bochechas dela parecem mais rosáceas do que o normal e dá para notar quando ela parece respirar profundamente antes de ir até os sofás, a Ashido a puxa pelo braço para que se sente ao lado dela, daqui da cozinha, onde ele se empenha em lavar as louças, não dá pra ouvir tudo, apenas gritinhos empolgados da garota rosada e algo que parece a Uraraka dizendo "Sim, ele é bem gentil..."
O All Might lhe disse certa vez que ser o tipo de pessoa que sempre vê o melhor em todos é essencial para um herói. Desconfiar de tudo e todos é muito fácil, qualquer um pode fazê-lo, mas o Símbolo da Paz sempre deve ter esperança nas pessoas que salva, em cada uma delas.
E Izuku sempre achou essa uma das partes mais fáceis, pois é uma característica inerentemente sua, ele teve que dar duro pra adequar seu corpo à individualidade inédita recém-adquirida, teve que preparar sua mente para lidar com isso tudo, mas nunca, nunca precisou trabalhar nada em relação à sua capacidade de simpatizar com todos até que oferecessem algo para não simpatizar.
E então, Yubi Hirotaka chegou.
É uma sensação estranha e incômoda, como comer algo que não desce bem ou as unhas do dedo do pé grandes demais roçando contra a meia, mas não é exatamente assim também, é só... um desconforto, algo que ele talvez esqueceria facilmente fosse outro dia, mas hoje está deixando-o agoniado. Olhar para o amigo da Uraraka o deixou assim, ouvi-lo rebatendo-o sobre o uniforme da Uravity é algo que fica voltando em sua memória a ponto de causar pontadas no estômago, e por mais que tente, por mais que queira que não seja assim, é difícil fugir da conclusão à qual ele chega.
Izuku não foi com a cara do Yubi.
Por quê? Ele não sabe! Algo no olhar dele, na voz, no jeito que monopolizou a atenção de todo mundo presente com uma história extremamente pessoal que deixou a Uraraka visivelmente desconcertada, só... só não. É amigo de infância dela, quer ajudá-la a fazer uma coisa muito bacana, mas... mas... mas não. Só não.
— Você está bem? — o tom grave e sereno do Todoroki não o impede de dar um pulinho de susto.
— E-eu? Claro... claro! P-Por que eu não estaria? — normalmente, perguntas assim são retóricas, mas então Izuku se lembra que o Todoroki não entende o que é uma pergunta retórica, quer dizer, ele sabe o que é, mas é incapaz de reconhecer uma quando a ouve, o que significa que deve ter uma resposta que aponta porque Izuku não estaria bem.
— Porque você está lavando a mesma caneca já tem uns três minutos.
— Oh! — ele a enxágua e coloca no escorredor rapidamente, sentindo suas orelhas queimarem de vergonha — Limpeza nunca é demais.
— Economia de água também não. Quer dizer, talvez eu não seja a melhor pessoa para falar sobre isso já que posso produzir minha própria água, de certa forma, mas independente disso... — ele suspira — O amigo da Uraraka é curioso. — e simplesmente muda de assunto completamente do nada!!!
— Oh, hã... sim, acho que sim. — e então, uma pergunta lhe corre para a ponta da língua, uma que não é retórica — O que você achou dele, Todoroki-kun?
— Já disse, curioso.
— Hã... curioso, curioso como?
— Dos dois jeitos, ele tanto me pareceu curioso no sentido excêntrico quanto no sentido de ter curiosidade, principalmente em relação à Uraraka, mas não posso opinar muito além disso. — ele o olha — Por quê?
— Nada! — que ideia perguntar para o Todoroki! O que Izuku estava esperando ouvir? "Não fui com a cara dele."? O que ele quer? A confirmação de que não foi o único? Uma validação de que pode se sentir assim? Ahhrgh, qual é o problema dele?
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Na ponta dos dedos
FanfictionUraraka reencontra um velho amigo de infância, e Izuku começa a se questionar porque isso o incomoda tanto.
