Eramos Treze

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Um Dos Treze

Ainda estamos na quarentena. Brasil, junho de 2020. Um período crítico em nosso país. A pandemia não dá trégua. Milhares de mortos, milhares de contaminados.
Escrevo.
Deixo aflorar tudo que sempre esteve em minha mente.
A grande irmandade que éramos: Treze!

Sr. Pedro, o Pedrinho está lá subindo pela ponte! Ele disse que vai atravessar o arco de um lado a outro!
Meu pai saiu correndo, a meninada toda atrás dele, minha mãe já chorando, o alvoroço estava formado.
Daí a pouco voltava meu pai com meu irmão e toda a molecada atrás comentando, aumentando ou admirando a "arte" feita por ele.
Minha mãe o mandava entrar, dando-lhe um sermão e mandando-o tomar banho e punha toda a plateia a correr, que fosse cada um para sua casa.
Meu irmão era meu ídolo. Eu com sete anos mais ou menos, outro irmão com uns oito e meio, minha irmã com dez e ele com doze anos.
Existiam os mais velhos, mas esses já não eram crianças, usavam calças compridas, fumavam escondido e iam com meu pai ao trabalho. Não se metiam com as crianças. Então o nosso núcleo era de quatro irmãos. O que um aprontava respingava nos outros. Nesse caso, ficávamos "pianinho", senão sobrava para nós.
Abaixo desse grupo tinha ainda os pequenos que nós ajudávamos a cuidar.
Mas o Pedrinho era a vida do nosso pequeno grupo.
Ele tinha a condescendência de todos, a professora chamava meu pai para o aconselhar, mas dizia que ele era ótimo aluno, embora fosse levado; o padre chamava minha mãe para conversar sobre ele, talvez se fizesse a primeira comunhão, se aquietasse mais; os irmãos mais velhos não se metiam com ele, e do nosso grupo ele era o líder. Eu acho que isso passou a ser assim depois do acidente. Não sei.
Sim, porque houve um acidente horrível com ele e, por incrível que pareça, nesse caso não foi uma travessura, uma arte, um descuido. Foi um acidente mesmo.
Mas desde sempre ele era meu ídolo. Lembro-me bem de mim nessa idade, minha mãe me penteava os cabelos, partia ao meio e fazia duas rodelas de cabelo de cada lado que ela amarrava com fitas, e eu usava uma jardineira, calça comprida de pernas largas, com bolsos e suspensórios, porque nas brincadeiras não faltaria subir em árvores, guardar bolotas nos bolsos, então era minha roupa do batente. Ele era franzino, nem parecia já ter doze para treze anos.
Quando minha mãe conversava com meu pai após todos deitarem, eu pensava o que eles falavam sobre nós, os filhos, mas eu sabia que visivelmente o meu irmão era a alegria e a preocupação maior dos meus pais.
Aos treze anos mais ou menos ele montou uma dupla onde cantavam e tocavam violão. Teria uma apresentação no clube e os dois estavam inscritos, para se apresentar.
A escola toda lá, o frenesi dos organizadores, hora deles se apresentarem e cadê o cantor da dupla? Simplesmente ele viu o periquito da vizinha do clube que fugira e foi pegá-lo para entregar a dona e depois vir se apresentar. Veio, se apresentou e foi um sucesso. Não à toa ele era meu ídolo!
O acidente ocorreu em um dia que não havia expediente na companhia. Meu pai foi fazer um serviço na casa de um dos chefes e minha mãe o mandou levar o almoço para ele. No pátio da companhia tinha bombas de abastecimento dos caminhões, e o chão era manchado pelo óleo diesel e combustível derramado. Nesta parte minha memória falha ao não saber o que houve realmente. A fagulha foi de um raio que antecedeu uma tempestade ou algum motorista descuidado jogou um toco de cigarro ou um palito de fósforo?
Não sei. Mas a cronologia do ocorrido exaustivamente contado me fez imaginar todo o horror do fogaréu, dos gritos dos poucos operários, do meu pai correndo e tirando a camisa para jogar sobre o corpo do meu irmão e tirá-lo do meio do fogo. Da correria dos chefes que estavam em casa, da "deferência" de colocá-lo na enfermaria da companhia e de todo o medo que nós sofremos de perdê-lo!
Nossos pais sabiam da nossa ligação e assim que possível fomos ao hospital vê-lo .
Uma situação inédita, meu pai conseguiu que o comandante permitisse que nós fossemos à enfermaria onde ele estava.
Meu coração parecia sair pela boca, mas corajosamente entramos no quarto do hospital para ver o nosso querido irmão, o meu ídolo.
Tive dúvida de que a figura que estava naquela cama, com a cabeça enorme enrolada numa bandagem, o rosto com uma cor marrom besuntado de pomada fosse meu irmão! Mas pelo brilho dos seus olhos ao me oferecer as inúmeras guloseimas que ganhara das pessoas todas que foram visitá-lo e a frase: olha aí, coma, é marmelada! Nessa hora eu reconheci meu irmão querido! Que alívio!
Perco a sequência dos fatos, mas sei que demorou para que tudo voltasse ao normal em nossa casa.
Pois então...
O ano letivo ia começar e minha mãe mandou que nosso pai nos levasse ao médico para verificar se tudo estava bem. Exames de sangue para saber de anemia e exame de fezes para tratar dos vermes. Pela ordem, ele foi o primeiro a ir. E aquele fato mudou nossa vida. Nossa vida pobre, mas feliz, nossa vida rica de brincadeiras, rica da certeza e da segurança que tínhamos um nos outros e em nossos pais.
A médica puxou as pálpebras dos olhos para ver a anemia, depois mandou que abrisse a boca para ver os dentes, e já decretou: Primeiro o leve para tratar seus dentes, depois o traga aqui para fazermos os exames.
E assim fez meu pai. O levou ao dentista. Que lhe arrancou um dente. Que sangrou por três meses. Que mudou nossos dias e nossas noites. Que acabou com nossas brincadeiras. Que tirou a força da minha mãe. Que despertou o leão que havia em meu pai. Que gerou polêmicas entre médica, dentista formado e dentista prático. Que fazia meu irmão ficar o dia inteiro deitado na rede. Ou ir à enfermaria receber transfusão de sangue. Um tempo ruim, um tempo em suspenso. E meu pai decidiu levá-lo a outros médicos, na capital do seu país, Assunção.
E onde ele morreu.
Sim, o meu ídolo, o filho peralta, o aluno com quem os professores eram condescendentes, o menino que liderava todos os outros da sua idade, ele estava com leucemia. Morreu e levou com ele nossa inocência de vida, eu com nove anos, ele com 14 anos.
Talvez, no fundo, ele já sentia que sua passagem por esta vida seria como um meteoro. E por isso brilhou tanto!

Contos da Quarentena IIOnde as histórias ganham vida. Descobre agora