Capítulo 2 - Fred

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Ainda consigo sentir meu coração batendo na garganta e nos meus ouvidos. Eles eram cerca de quinhentos, mas para mim pareciam mais uma multidão infinita. Todos gritavam o meu nome e o meu único pensamento era: concentrar, mirar, chutar e fazer aquela rede balançar. A chance da classificação para o campeonato estadual estava literalmente aos meus pés, e eu sentia cada um dos meus companheiros, o meu técnico e a nossa torcida, me olhando como se eu fosse o cara mais importante do universo. Bem, naquele momento pelo menos eu era sim.

O jogo estava empatado. Éramos nós contra o time da universidade do Oeste. Quem conseguisse mais um gol nos próximos dez minutos levaria a vaga. Os caras estavam matando a gente – quando digo matando, estavam quebrando quem viam pela frente – e eu confesso, apesar de não deixar transparecer pra ninguém naquela porra de gramado, que eu estava num medo do cacete de não conseguir levar aquela classificação. Quando o zagueiro deles cometeu aquela falta perigosa quase na linha da pequena área em cima do nosso centro-avante, o Marcão, eu quis gritar um palavrão de tanta felicidade que eu senti. Aquela era minha melhor posição nas cobranças de falta. Eu passava quase que meio período dos meus treinos diários cobrando faltas como aquela, e quando o juiz apitou e marcou a falta em cima do Marcão, o time inteiro olhou pra mim me dizendo no silêncio: “Vai que é sua.” E cara, era minha mesmo.

Eles montaram a barreira e nosso lateral esquerdo, o Guido, ficou ao meu lado, aumentando a expectativa de quem cobraria a falta. Calculei quanto de distância eu precisaria para bater a bola no canto direito do gol, fazendo a trajetória de forma que o goleiro deles caísse para o lado esquerdo. Contei até três, dei sinal para o Guido e quando o juiz sinalizou a autorização para a cobrança da falta, coloquei meu coração na ponta daquela chuteira neon e corri para a bola logo depois do meu companheiro simular que cobraria em meu lugar. Chutei com tudo, numa velocidade que nem eu mesmo conhecia, e quando a bola entrou no cantinho que eu queria, um gritou louco saiu da minha garganta enquanto meus companheiros corriam atrás de mim pelo campo a fora. Pulei no nosso técnico, que estava vermelho de tanto gritar, nossos reservas nos abraçaram e a arquibancada foi ao delírio. Caralho, eu nunca vou conseguir explicar como foi a sensação de ter feito aquele gol.

_Porra, Fred. É isso ai, mano! É isso aí! – meu irmão Leandro gritava da arquibancada ao lado do nosso amigo de infância, o Tuca. Sorri para os dois e acenei para toda a torcida que pulava e gritava junto com a gente.

A partida acabou sete minutos depois, e eu fui carregado e jogado para cima de todas as formas possíveis que você possa imaginar. A adrenalina era tanta que a única coisa que eu fiz foi fechar os olhos e sentir meu corpo entre a queda e o ar, repetidas vezes. Eu consegui nossa classificação para o estadual! Eu ainda não consigo acreditar. Nossa universidade aguardava há dez anos por essa oportunidade novamente.

E é por isso que a gente resolveu dar uma festa aqui no casarão do time de futebol hoje à noite pra comemorar. O patrocinador do nosso time, o Sr. Suarez, um dos caras mais influentes e ricos da capital, dono de praticamente metade dos comércios deste lugar, nos presenteou com comida e bebida sem limites. Hoje o bicho vai pegar!

Tuca e a sua banda estão passando o som no palco que montaram no gramado ao lado da piscina, e eu e os meninos do time organizamos as coisas na cozinha. Enquanto os caras arrumam as bebidas e os copos, estou picando as frutas para as batidas. De repente sinto um beijo na minha nuca e olho pra trás. É a Sam. Sorrio de imediato e levanto um pé pra trás, dando um chute leve na bunda dela. Sam é minha prima e minha melhor amiga desde que me conheço por gente. Nós dois entramos para a Universidade de São Miguel no mesmo ano, ela cursando moda, eu educação física. Viemos de Prudente, uma cidade na região metropolitana da capital. Ela e Leandro, meu irmão, moram no alojamento da universidade. Leandro é mais novo que eu dois anos, acabou de completar vinte mês passado e faz direito. É seu primeiro semestre conosco. E tem sido uma surpresa ver como ele se adaptou tão bem ao mundo da universidade e como as coisas são por aqui. Sam e Tuca têm uma participação muito grande nisso tudo, nunca deixarei de ser grato.

Aos teus pés (Caps Para Degustação)Onde as histórias ganham vida. Descobre agora