Capítulo 3 - Solidão

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Você já se sentiu sozinho alguma vez na sua vida? Se sentiu só mesmo com uma multidão ao seu redor? Leonardo nunca foi assim, quero dizer, não costumava se dopar de remédios. Logo após acordar, sua primeira visão pós-desmaio foi de sua mãe desesperada com um olhar de medo. A mãe de Leonardo se encheu de culpa e medo de perder o filho, um sentimento imenso de irresponsabilidade.

   -Leozinho?! Você acordou? Meu Deus! -a mãe abraça o filho se segurando para não chorar-. Graças ao bom Deus!

   -Mãe... 'tá' me apertando...

   Logo chegaram enfermeiros para checar se estava tudo bem, fazendo perguntas e exames. O olhar vazio e triste do garoto era algo tão nítido que até mesmo o enfermeiro percebeu, e chamou sua mãe para o corredor.

   -O garoto está bem? A ficha do exame constou muitas substâncias que são encontradas em remédios, ele praticamente se dopou. Foi obviamente uma tentativa de suicídio.

   -O Leo? Se... se matar? Haha... -a mulher solta um riso de nervosismo- Ele não seria... Ele não faria...

   -Olha, se ele seria algo ou se faria algo, eu não sei. Mas coloque este rapaz numa terapia, porque ele tentou se suicidar. Amanhã ele recebe alta, espero que faça oquê pedi.

   Sem palavras ou reação, a mulher caiu em lágrimas silenciosas, ela sabia o motivo de tudo isso, sabia o motivo do desespero do filho e consequentemente o dela.

   -Como será que o Leo 'tá', hein? -Marcelo questionou no pátio da escola vendo Rodrigo e Roberta chegando na escola-

   -Ai, não sei. Aquele lá vive tomando remédio pra ficar calmo, sabia que logo ele iria se drogar.

   -Você 'tá' louca de dizer isso? Deve ter algum motivo, ele não é um viciado. Eu acho...

   Rodrigo tentou não dizer algumas palavras ofensivas para Alice após escutar aquilo. Eles eram realmente amigos? Tinha algum tipo de amizade ali? Como ela podia dizer aquilo de um possível colega?

   -Cala a sua boca Alice, sua mimada do cacete. Deixou a empatia em casa, foi? -Roberta tirou as palavras da boca de Rodrigo-

   -Argh, chegou a militante.

   O sinal toca e a porta abre para entrarem no segundo turno. Naquele momento Rodrigo percebeu algo : ou ele se enturmava com aquelas pessoas, ou se enturmava com ninguém.

   -O santo sinal! Vamos antes a gente perde a terceira aula também. -Marcelo sai disparado na frente, deixando o resto para trás.-

   O dia foi intenso, escutando cochichos e todos na sala e ao seu redor, indiretas sobre seu atraso no primeiro dia. Talvez, a coisa mais fácil de lidar para Rodrigo naquele dia foi as próprias matérias, que era a única coisa boa do dia, rapaz, pensa numa escola boa! 

   No fim da aula após se despedir do pessoal, Rodrigo caminhava sozinho até seu apartamento.

   -Ei! Rodrigo!

   -Roberta? Sua casa não é pra lá? -ele aponta para o lado contrário.-

   -É sim, você esqueceu teu caderno de anotações em cima da mesa. Tome cuidado da próxima vez...

   -Ah... Obrigado, eu fiquei com a mente o dia todo no Leonardo. Será que ele está bem?

   -Deve estar. Ele costumava tomar remédios para se acalmar de umas coisas que o conturbava, mas nunca disse pra gente o que era.

   -Estranho, pensei que fossem amigos, ou algo do tipo.

   -Mas somos, eu acho. Porém todos são distantes e inseguros e acabamos sem saber de nada um do outro

   Rodrigo suspirou e olhou para a avenida

   -Enfim, agora eu estou aqui. Quando Leo melhorar e receber alta, vou visitar ele pra saber como ele está. Vamos?

   -Ok, vamos sim. Agora eu preciso ir, tá? Até amanhã.

   -Até.

   Roberta se vira e caminha até desaparecer no horizonte daquela imensa Avenida, e Rodrigo faz o mesmo. No caminho, pensou em tudo aquilo que passou logo no seu primeiro dia como estudante na capital. Foi um sentimento tão estranho passar o dia com completos estranhos e ajudar um garoto que nunca sequer o viu. Chegou no apartamento e cumprimentou o porteiro.

   -Bom dia, seu Manoel.

   -Bom dia jovem.

   Sobe as escadas e abre a porta do apartamento. Aquele pensamento de adotar um animal voltou ao ver o pequeno lugar vazio e quieto. Colocou as chaves na mesinha da entrada e começou a tirar as roupas, foi tomar um banho quente.

   Leonardo começa a se recordar de quando estava mal na Paulista. O rosto do garoto que o ajudou naquele momento estava tão borrado em sua mente, não recordava nem como era sua voz. Mesmo sem ser religioso, ele fecha os olhos e agradece por ter aparecido alguém para o ajudar. Se não fosse por Rodrigo, não queira nem saber oque poderia ter acontecido.

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