Capítulo 03: Jug-eun Jaui Wang-gug

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Coreia do Sul, Terra

1992

A sensação de andar entre os Reinos dos Vivos e dos Mortos era diferente de tudo que Rei já havia sentido em sua vida. Seu corpo estava leve, como se a gravidade fosse menor. Ele viu centenas, se não milhares, de pessoas translucidas indo de um lado para o outro; todos sorriam. Rei conhecia a verdade, conhecia as Leis do Universo, sabia sobre o Paraíso e o Inferno, no entanto, ele não imaginara que, de fato, as almas que viviam no Paraíso eram felizes de verdade.

Rei procurou por seus companheiros, mas não os viu, o que significava que eles também não o podiam ver ou sentir – todos os membros da Raimei são capazes de saber quando outro está perto; faz parte das habilidades que eles treinam para conquistar durante a fase de treinamento; no entanto, os mais habilidosos são capazes de localizar outros ninjas em qualquer lugar do mundo.

Ao chegar à KTX Seoul Station, você não é visto, por isso entra no trem para Busan que está prestes a sair da plataforma. Felizmente, este é o trem expresso que leva apenas três horas de viagem. Rei sentou-se no banco, um pouco insatisfeito com a viagem, afinal, se ele tivesse acesso a todos os recursos da Raimei, poderia chegar lá em minutos. Sem ter o que fazer, ele recitou as palavras que Sook havia dito que poderiam provar que ele, de fato, estava tentando ajudar duas Gumihos.

Kajio mich Jiryn, ingangwa dongmul-ui sindeul.

De acordo com antigas histórias e lore coreano, Kaijo e Jiryn foram deuses-raposas que viveram nas Coreias mais de cinco mil anos antes. Kaijo era uma raposa de pelo laranja, grandes olhos vermelhos, guardião dos animais e das plantas, protetor dos céus. Jiryn tinha o pelo branco e grandes olhos negros; guardiã das mulheres e dos homens, protetora do mundo dos mortos.

Ambos possuíam oito caudas, cada uma representando um elemento: Céu, Vento, Água, Montanha, Terra, Raio, Fogo e Pântano. Entretanto, Kaijo encontrara Palk, o deus-sol e criador do Reino da Luz – de acordo com a mitologia coreana –, e trocara uma de suas caudas pelo poder do Terceiro Olho, que surgiu em sua testa; com ele, Kaijo era capaz de ver as almas dos homens, vivos ou mortos, e prever seu futuro – mesmo que de maneira incerta, já que o futuro é maleável.

No entanto, tal lore e histórias foram esquecidas pelos homens, mas não pelas Gumihos, que continuaram passando essas histórias de geração em geração. Kaijo e Jiryn, deuses dos homens e dos animais era como começavam as histórias sobre os dois, e isto seria prova o bastante de que Rei estava tentando ajudar Gumihos – ou pelo menos, era o que ele e Sook esperavam.

Durante a viagem, uma alma tentou sentar-se no mesmo lugar em que Rei estava; se perguntou em como poderia afetar seu feitiço, mas chegou à conclusão de que custaria ainda mais da magia que estava protegendo Sook e Hyo, por isso se levantou sem deixar-se tocar pela alma. Ele esperou à porta do vagão em que estava até o trem partir, de modo que ele pudesse se sentar em um lugar que não fosse ocupado pelos mortos. Encontrou apenas no último vagão depois de vinte minutos de procura.

Busan era uma cidade moderna e colorida, com casas de todos os tamanhos nas montanhas que antecediam as praias, que estavam cheias de turistas naquela época do ano. Mais a fundo na cidade, entre as montanhas, de difícil acesso às pessoas comuns; a floresta era fechada, não naturalmente, mas por causa da magia que Min-ji havia colocado para se proteger.

Ainda, o estado entre-vidas de Rei o permitiu passar por essas magias como se não existissem. Os obstáculos físicos que o terreno proporcionava não eram nada para um ninja da Raimei, como ele. Em outras palavras, não levou nem uma hora para que ele estivesse diante da porta do castelo de Min-ji.

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