Capítulo 02: Boas vindas!

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- Você vai ficar no quarto de sempre, Larinha! – tia Rebeca me conduziu pelo corredor que eu atravessara correndo tantas vezes.

Ela abriu a porta, fazendo aquele típico suspense que as mães geralmente fazem antes de entregar aquele presente que o filho tanto desejava. Fingi estar empolgada para ver o meu antigo quarto, não queria desapontar minha tia, ou melhor, não queria que ela me lançasse aquele olhar assustador, como quando me esqueço de chamá-la de “tia Beca”.

Quando pisei no lugar, senti uma onda de nostalgia me atingir. Tudo continuava exatamente igual. Há doze anos que não visitava os meus tios, no entanto, o carpete roxo continuava tão limpo e macio quanto me lembrava. A cama parecia um pouco menor, contudo, acho que é porque eu cresci, saindo do meio metro para um metro e sessenta e cinco.

Caminhei pelo quarto, analisando tudo com atenção. O colchão era mais grosso do que me lembrava, e não costumava ter tantos travesseiros assim em cima dele, mas o dorsel continuava sendo aquele de madeira em tom marfim, com gravuras de anjos brincando e cortinas lilás clarinhas. Eu sorri quando me lembrei de como me achava uma princesa deitada naquela cama.

Olhei para a janela e ri ainda mais quando reparei em seu formato arredondado. Eu havia bancado a criança birrenta, obrigando os meus tios a reformarem a janela e a deixarem no formato daquelas janelas que geralmente torres de castelo têm. Aquelas que imaginamos com uma princesa apoiada nela, observando o mundo lá fora, à espera de seu príncipe encantado num cavalo branco.

A única diferença é que a janela era bem maior do que o habitual e dela desciam cortinas grossas, extremamente coloridas. Além disso, ali não estava mais a pequena Lara bancando a princesinha encantada.

Virei-me para a escrivaninha. Ela continuava tão grande quanto me lembrava. Quatro gavetas, um espelho oval no centro, cercado por outros dois espelhos um pouco menores e no mesmo formato. O móvel combinava com a cama, sendo feito na mesma cor de madeira e com os mesmo desenhos. Os detalhes se mesclavam entre as cores lilás, roxo e rosa bebê.

Mexi na cadeira colocada estrategicamente a frente da escrivaninha, novamente a mesma madeira com os mesmo detalhes. A almofada da cadeira era toda cheia de desenhos com flores. Apertei-a e constatei que continuava tão macia quanto a ultima vez que me sentara ali para pentear o cabelo.

Andei até o armário e vi o tom marfim da madeira, adornado com detalhes rosa. Os anjos gravados nas portas sorriam para mim. Era bem espaçoso e ocupava a parede toda.

Olhei para o teto e vi ali o lustre todo colorido e cheio de flores e criaturas angelicais. Dele saiam alguns pingentes de vidro, que mais pareciam gostas de chuva despencando sobre mim. Eles lançavam cores fabulosas por todo o quarto, toda vez que a luz os atingia.

Girei no lugar, acompanhando a visão geral do meu quarto. Porta, olhando para a esquerda, armário, logo depois cama, janela, escrivaninha e novamente a porta. Olhei para o lustre e desci o olhar. Paredes pintadas de creme com borboletas, anjos e flores desenhados nela, e o sempre inusitado carpete roxo. Reparei nos demais detalhes como prateleiras com os meus livros e bonecas de infância. Flores sobre a escrivaninha, junto com um porta-retrato sem foto alguma.

Aquele quarto tão angelical e delicado, feito realmente para uma princesinha mimada, me trazia doces recordações, contudo, nunca me senti tão distante do meu passado quanto naquele momento. Eu não era mais a mesma garotinha... Não era mais tão delicada, não era mais tão fã de rosa – apesar de ainda gostar de roxo -, não recebia mais tantos mimos e aprendera a pensar mais nos outros do que em mim mesma.

Naquela época, muitos fariam de tudo para me agradar e mimar, mas agora, era eu quem fazia de tudo por algumas pessoas, para que nunca mais as vissem sofrer. Muita coisa mudara desde a morte de meus avôs... Continuei a sorri, contudo os meus olhos não brilhavam mais.

Tempos de ApocalipseWhere stories live. Discover now