Capítulo Dois

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Parecia quase um equívoco que o dia lá fora se mostrasse tão alegre, com seu céu azul, as nuvens brancas como algodão, e que uma brisa fresquinha açoitasse as cortinas, fazendo com que elas quase dançassem ao som da melodia dos pássaros. O mundo deveria estar de luto, lamentando a morte.

            A morte...

            Ela era impiedosa, seletiva, ardilosa. Brincava com tudo e todos e se achava muito astuta. Maryanne nunca acreditara na ideia de que a morte era inevitável. Ela acreditava muito mais no poder de evitá-la. E fora exatamente por isso que passara a noite inteira em claro, apenas permitindo-se sentir raiva do pai por sua atitude imprudente. Podiam evitar o assassinato de uma pessoa; podiam enganar a morte, trapacear, fazê-la perder a batalha. Preservar a vida... era o que ela mais apreciava na profissão de seu pai.

            Na verdade, gostava de acreditar que aquela era também sua profissão. Não que algum dia conseguisse autorização para trabalhar em uma delegacia ou tornar-se sócia de seu pai no escritório de investigação particular, afinal, era uma mulher. E isso trazia apenas frustração para si.

            Mas não era hora nem momento para se sentir miserável ou se encher de autopiedade; precisava reunir forças para convencer seu pai de que sua dedução estava correta e que ela poderia ser útil na conclusão do caso.

            Pronta para tomar seu desjejum, sentou-se à mesa de jantar e abriu o jornal que uma das criadas já havia deixado ali para que o Sr. Lestrange pudesse ler.

            Uma matéria de capa chamou sua atenção. Dizia:

"CAÇADOR ATACA NOVAMENTE."

Depois de passar alguns meses em silêncio e sem aparecer, o justiceiro mascarado que conhecemos simplesmente como Caçador surgiu novamente, escondido pelo manto negro da noite, e deixou seu rastro de sangue pelas calçadas de Sorenhill.

A vítima, de nome August Vanderloot, era conhecido por ser um homem violento, um estuprador com gosto peculiar para meninas ainda na puberdade. No dia anterior à sua morte, sua esposa, Margareth Vanderloot, foi encontrada esfaqueada, agonizando em sua casa, nos braços da filha de apenas doze anos. Testemunhas afirmam que August foi o culpado pelo incidente, porém, escapou antes que a polícia pudesse ser acionada.

De acordo com informações coletadas, ele estava desaparecido desde então, mas, ironicamente, foi encontrado morto, em frente ao bar que frequentava diariamente.

August foi espancado, esfaqueado e apresentava sinais de tortura em seu corpo, como alguns dedos quebrados, e queimaduras pelos braços e pernas. Além, é claro, da marca registrada, encontrada em todas as vítimas de nosso impiedoso Caçador: um xis talhado a canivete, no ventre do cadáver. A marca da vingança e da justiça.

Ainda não há nenhuma pista da identidade do justiceiro noturno, mas muitas especulações sobre seus atos. Um homem que assassina seres humanos com tanta crueldade, mas que limpa nossa cidade, livrando-nos de criaturas ainda mais cruéis que ele... Herói ou vilão? Talvez jamais saberemos.

 

            O texto fez Maryanne refletir. Ela se perguntava primeiramente por que ainda não tinha conhecimento da existência do tal Caçador mencionado na notícia. De acordo com o que o jornalista afirmava, não era a primeira vez que ele agia, e isso a intrigava. Era bem verdade que não conseguia ler o jornal diariamente, pois sempre que seu pai primeiro o escondia, na intenção de não deixar que ela se interessasse pelos casos mais sérios e quisesse se intrometer com uma investigação amadora e improvisada. Com certeza fora nessas ocasiões que os feitos do tal justiceiro foram mencionados.

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