Capítulo um - Frank

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— Uma cirurgia apenas. Parece que o pessoal resolveu manter a saúde. — Respondo emburrado. — E eu preciso trabalhar!

Minha melhor amiga riu. Eu reviro meus olhos e em seguida passo meu olhar para a fila em que estamos. Observo que não falta muito para chegar a minha vez já que os próximos são só alguns pacientes e pouquíssimos médicos.

— Não tenho esse problema na pediatria. Mas com as enfermeiras em greve, estamos num caos.

— A ala cirúrgica também está sentindo o efeito. Espero que a porcaria do salário delas aumente de uma vez. Não posso perder pacientes quando os tenho por causa de enfermeiras.

Dra. Harrison dá de ombros e a fila anda mais um pouco até que chega a minha vez.

— Use os estagiários. — ela sugere enquanto eu faço o meu pedido e pago cinco libras por um copo de café. Tudo o que eu precisava no momento para animar meu ânimo.

— Não preciso dos garotos de greve também. — respondo. — Deus, é tão cruel querer que alguém sofra?! Eu preciso trabalhar.

Elena explode em uma gargalhada, afinal para a Dra. Harrison é engraçado a forma com que eu lido com o meu trabalho. De acordo com ela, o hospital é a minha esposa, ou algo assim. Não saio daqui há três dias e passo em casa, de vez em quando, apenas para tomar um banho.

Agora é a vez de Elena pegar o pedido dela, mas mesmo já estando com o meu na mão, eu a espero. Nós dois somos amigos desde a faculdade e sempre esperamos um pelo outro para um bom café no intervalo. Isso virou quase que um hábito.

— Qual foi a última vez que você esteve em um relacionamento? — Elena pergunta brincalhona e eu apenas reviro os olhos. Não irei dar uma resposta que ela já conhece. — Rebecca deve sentir sua falta.

— Agradeceria se não tocasse no nome dessa mulher, por favor.  Acabou de estragar meu café. — Aponto para o copo que tinha acabado de receber enquanto vamos caminhando para uma mesa. Rebecca é a minha ex-esposa. Talvez tenha sido até pelo meu divórcio de um casamento fracassado, há três anos, que eu acabei me isolando no hospital.

— Não seja tão dramático. — Ela pede mesmo sabendo o motivo do meu término. Eu ignoro-a e tomo um gole da minha bebida, sentindo a cafeína me aquecendo do frio de Londres... até que... me tirando do meu momento pacífico escuto a emergência me chamando e é a minha deixa para sair daqui. Dou um sorriso sarcástico a Elena que revira os olhos, mas deixa escapar uma risada nasal.

Levanto da cadeira que sentei há poucos minutos e vou em direção ao corredor que me levaria à ala cirúrgica.

– Eu preciso trabalhar.

♥ ♥ ♥

Eu amo e odeio a minha profissão. ...Eu nunca soube ao certo o que sinto em relação a isso, a não ser que é uma constante relação de amor e ódio.

Algumas vezes tenho vontade de pedir demissão, já nas outras sinto vontade de beijar o chão do hospital. E esse era um desses momentos em que eu poderia facilmente ser capaz de explodir o meu local de trabalho sem me importar com qualquer vítima.

Meu celular faz o som ensurdecedor do toque de emergência. Não abro os olhos, e por aquela cena se repetir várias vezes, já sei onde encontrar o telefone, por isso apenas estico o braço do outro lado da cama e sorrio.

Pelo menos dessa vez eu não tinha dormido em cima dele e acabado com uma horrível dor nas costas, eu amo pensar desse jeito. Ajuda-me muito na minha profissão pensar que poderia ser pior. É algo como um mantra.

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