9. Com você eu me sinto inteira. (Mike)

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Jade estava fazendo um filme infantil de conto de fadas. O roteiro era muito bom e o elenco muito famoso. Provavelmente, aquela projeção lhe daria um salto. No entanto, gravar com roupas de princesa de época, em cenários quentes, estava lhe matando. Eu tentava ao máximo estar por perto.

Mas, hoje, um grupo de adolescentes estava no corredor do camarim querendo vê-la e pegar um autógrafo. Pareciam alucinados como grávidas diante de um doce desejado, ou prestes a encontrar um Messias. Eles não conheciam a minha Jade e queria falar com ela. Todos desejavam tirar foto com o ícone de sucesso do momento, aquele que eu ajudava a construir com simpatia, textos e fotos em seu nome nas redes sociais. Eu sabia que era necessário dar-lhes toda a atenção, afinal, qualquer interpretação de pouca simpatia poderia acabar com horas de trabalho para manter sua imagem. Nenhum simples blogueiro famoso poderia usar algumas frases e uma foto errada para prejudicá-la. No entanto, eu sabia que Jade estava no seu limite e eu era o juiz de ambos os lados.

Entrei no camarim e uma maquiadora retirava sua peruca, enquanto fazia caretas de dor. Aproximei-me, falando baixo.

— Tem alguns fãs que vieram conhecer o set de filmagem e querem te ver. Tente sorrir, tirar algumas fotos e eu corto eles. Consegue mais cinco minutos?

Jade olhou os botões da minha camisa de forma meio absorta, como se ficasse inanimada, mais pálida que aquela maquiagem poderia lhe conferir. Fiz um sinal com a cabeça para que nos deixassem sozinhos e as duas camareiras saíram. Ainda chamei o nome dela duas vezes.

— Eu preciso respirar. — Tocou o ventre e seus seios se movimentaram mais rápido naquele espartilho absurdamente apertado. — Me ajuda... — Seus dedos gelados tocaram meu braço. — To me sentindo muito tonta — disse e a sentei imediatamente na cadeira.

— Posso mandá-los embora, ok? Beba água — peguei um copo e ela tremia um pouco ao segurar, apertando meu coração de um jeito que podia me matar. — Jade, eu...

— Desamarra isso pra eu respirar — pediu alto, irritada, a ponto de chorar e entendi que estava no máximo da exaustão.

Dei a volta na cadeira e puxei os cordões do espartilho, que estavam muito apertados. Imaginei como aguentou o dia inteiro com suas costelas esmagadas daquele jeito. Ninguém sabia que ela também podia suportar isso pra ser famosa.

Respirou forte várias vezes e ficou ereta de novo.

— Eu nem sinto meus pés... — falou lívida e imediatamente joguei o espartilho no sofá e me ajoelhei pra tirar aqueles sapatos de época. Engoli em seco quando vi bolhas em torno dos dedos. Fiquei ali com seu pequeno pé na palma da minha mão, de cabeça baixa, quase sentindo sua dor.

— Eu vou recebê-los... — pegou meu queixo e deu um microssorriso que parecia lhe custar, num jeito alegórico de uma princesa, como se um restinho da sua personagem ainda estivesse conduzindo-a. — Eu sei que ficará mais feliz...

— Não, Jade. Você está fraca e precisa imediatamente...

— Meu olho está lacrimejando, acho que a maquiagem me deu alergia... — passou os dedos nos cantos dos olhos e os inspecionou. — Será que é só cansaço ou foi alergia?

— Vou pedir pra maquiadora vir tirar tudo, você vai vestir uma roupa leve e te levo pra casa. Precisa descansar.

— Peça para que entrem — escondeu os pés de baixo do vestido e levantou o queixo com um sorriso artificial.

Era arrepiante ver como conseguia ser uma rocha de força, postura e profissionalismo, quando muitos ainda achavam que ela era só uma ex-dançarina. Imagem essa que as poucos eu vou mudando com o trabalho de assessoria de imprensa. A multidão que lhe bate a porta vai aumentar. Ela se sustentará assim, altiva, forte, resoluta? Tudo que tenho medo é que eu não esteja aqui, quando mais precisar. Cada vez era mais difícil saber que ela uma hora ou outra descobriria a verdade e quereria me expulsar da sua vida.

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