Passamos a conversar sobre assuntos cotidianos, como fazíamos quando eu morava aqui. Sinto falta disso. Devido a compromissos profissionais, eu e Murilo alugamos juntos um apartamento no Rio de Janeiro, em Copacabana, porque assim ficamos mais perto do estúdio onde ensaiamos e do escritório do nosso empresário. Recentemente, o dono do apartamento em que vivo me fez uma oferta para eu comprar o imóvel. Fiquei muito tentado, mas ainda não tenho grana suficiente para isso. Embora seja um apartamento pequeno, num prédio antigo, com apenas dois quartos, é perfeito para as minhas necessidades. E eu adoro morar na Zona Sul do Rio de janeiro, onde tudo acontece. 

    Porém, sempre que posso venho para a minha amada Petrópolis. Não só para rever os meus pais, mas também para acompanhar Angelina, minha namorada que, embora também more em uma república em sua faculdade no Rio, vem quase todo fim de semana para a casa dos pais, que também residem aqui. 

    Crescemos juntos, eu e Angelina, mas passamos a namorar há cerca de dois anos. A gente se conhece até do avesso e eu não posso imaginar uma mulher mais perfeita para mim. Desde que eu era adolescente já nos imaginava como uma típica família italiana: comendo sob a sombra de uma árvore enquanto nossos quatro filhos correm desenfreados pelo quintal.

   Angelina só quer ter dois filhos, mas acho que isso é negociável. Por garantia, oro para que venham trigêmeos na segunda gravidez.

    Enquanto converso agradavelmente com meus pais, reparo pela primeira vez em um raio de sol que incide bem em cima de um jarro com lírios que minha mãe dispôs sobre o aparador, perto da janela. Começo a reparar nos microelementos que pairam no ar e só podem ser vistos sob aquele feixe de luz. Parece uma pintura. Aquela visão me dá uma sensação de paz e me distraio momentaneamente sobre o que meu pai estava falando. Penso na foto linda que poderia postar, se meu celular não tivesse sido confiscado. 

    Por fim, termino de comer a refeição deliciosa e me levanto. Beijo a cabeça da minha mãe, pego a carteira e vejo meu pai se levantar para me dar um abraço. Já com saudade, passo o braço em torno do pescoço dele, mas quando dou de cara com meu relógio percebo que... 

    — Droga! — rosno eu, dramático. — Preciso pegar o Murilo e já estou vinte minutos atrasado. Tchau, pai. Tchau, mãe. A gente se vê daqui a duas semanas.

    — Dante?! — meu pai me chama.

    — O quê? — Viro para ele.

    — Vai deixar a sua bússola comigo? 

    Fico um segundo sem entender sobre o que ele está falando. Ele me mostra o meu celular, que eu pego correndo. 

    — Não é minha bússola — resmungo.

    — Mas parece que é.

    — Desencana, pai. Amo vocês.

    Depois de um tempo considerável para eu localizar a chave do carro, minha mãe me acompanha até o portão e fica me observando enquanto segura Billy, o nosso Rottweiler. Entro no meu Mini Cooper S, feliz da vida com essa recente aquisição, um mimo que me permiti — e que faz de 0 a 100 quilômetros em 7,1 segundos e alcança 222 km/h, caso queria saber. 

    Sim, este é um dos meus defeitos: eu adoro correr. (Embora ainda não tenha tido a oportunidade de verificar a veracidade dos dados do carro nas deprimentes estradas brasileiras). Não sou tão irresponsável. Já tenho 22 anos.

    E antes que você repita as palavras de meu pai, eu sei que deveria ter investido esse dinheiro no apartamento primeiro. Mas, oras, só tenho 22 anos. 

  Quando chego à casa de Murilo, ele já está encostado ao portão e agarrado a Michele que, obviamente, seguirá viagem conosco em vez de curtir o domingo com a família; ao contrário de Angelina, que por conta do aniversário do irmãozinho só descerá para o Rio de Janeiro amanhã de manhã.

    Michele já se formou, mas ainda não está trabalhando. Por essa razão, segue Murilo para todo canto e se autodenominou a produtora de moda do nosso grupo. Devo confessar que ela faz boas escolhas. É ela quem decide os nossos looks para os shows e ensaios fotográficos, e, até agora, está dando tudo certo. Mas, de vez em quando a gente se sente meio maricas.

     — Tudo pronto? — pergunto a eles quando estaciono.

    — Se eu soubesse que iria atrasar tanto, teria comido mais pão de queijo lá dentro — ronrona Michele, mas em seguida me dá um beijo no rosto e entra no banco de trás carro. Em geral, ela é uma ótima companhia. A não ser que você fique no caminho dela.

   Desço do veículo para ajudar a Murilo a arrumar a bagagem com nossas roupas de show. Quando estamos com a mala do carro aberta, minha voz cai uma oitava e pergunto:

    — Já conseguiu contar?

    Apreensivo, Murilo espia o local onde Michele está sentada. Totalmente compreensível. Eu não queria estar na pele dele quando contasse. 

    — Não, e você? Contou pra Angelina?

     Mordo o lábio inferior por dentro e aceno com a cabeça que não.

    — Acho melhor fazermos isso logo — ele diz, preocupado. —, antes que a notícia se espalhe.

    — Eu sei. — Respiro fundo e olho para a rua dos pais de Angelina. — Mas, como acha que elas vão reagir? Não é qualquer mulher que aceita essa situação.

   — Eu não sei. A única coisa que sei é que isso vai vazar na internet a qualquer momento. É melhor elas saberem pela gente.

    — Esse é o problema. — Com o coração trêmulo, bato a mala do carro. — Não tenho a menor ideia de como contar. 

    Solidário, Murilo põe uma mão no meu ombro.

    — Se não contar, ela te larga.

    Suspiro pesadamente.

    — E se eu contar, também.

PERDIDO SEM VOCÊOnde as histórias ganham vida. Descobre agora