No Carnaval pode

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MÁSCARAS

As máscaras que nos protegem, também podem ser aquelas que nos sufocam.

André observava o campus pela janela embaçada, nem se dando ao trabalho de fingir escutar o que o professor de Estatística dizia na frente da sala. Escolhera estudar Administração porque não sabia qual seria o melhor curso para sua vida e futuro profissional. Na verdade, conhecer a si mesmo era um desafio para ele. Tirando a cerveja favorita e o futebol no fim de semana, gostava de pensar que se descobria um pouco mais a cada dia.

Seu celular vibrou sobre a mesa e a notificação iluminou a tela. Alana tinha acabado de lhe mandar mais uma mensagem.

— Cara, falei pra você que não ia dar certo começar a namorar em dezembro. Agora faltam só alguns dias pro Carnaval e sua mina tá como? Pirando totalmente! — disse Júlio. André concordou.

Ele queria ir atrás do trio elétrico, acompanhar seus amigos nas festas, nas baladas, e se divertir, mas tinha começado a namorar Alana cedo demais. Agora, ela ia viajar, e já estava desconfiada antes mesmo do Carnaval começar e ele ir pra farra sozinho.

— Você que fez certo. Ainda não assumiu nada com a Alice, né? — perguntou, invejando a esperteza e a lábia do amigo. Júlio sabia falar as coisas certas, no momento certo, para convencer a garota de qualquer coisa. André o admirava.

Se bem que quando Júlio quis sair com a meia-irmã dele, o jovem fez de tudo para impedir e atrapalhar o possível relacionamento. Júlio não era o tipo de pessoa que ele gostaria que Lúcia tivesse como namorado.

— Claro que não. Tô cozinhando ela em banho-maria.

— Tá o quê?!

— Nada, esquece, não importa. Você já sabe quais dias vai pular Carnaval?

Segundo o que ele dissera para Alana, nenhum dia, mas...

— Não, por quê?

— A galera tá combinando de sair na pipoca. Topa? Vamos até para As Muquiranas.

— Topo. — André aceitou sem titubear, ele não perderia a oportunidade de se enturmar com os colegas da faculdade, e muito menos de se divertir com os amigos. — Mas... Muquiranas, é sério?

— Sim, você vai ver que é divertido.

— Nunca imaginei que você iria num bloco de carnaval assim.

— Por quê? — Júlio questionou.

André deu de ombros, e nada precisou ser dito para que Júlio entendesse o pensamento do amigo.

— No Carnaval pode, relaxa. É só diversão.

— Vai se vestir de mulher, cara — criticou.

— É só fantasia, não é pra valer... Além disso, todo mundo vai tá usando máscara este ano, se o seu problema for sentir vergonha.

André franziu o cenho, mas não comentou nada. Ele teria de ir em algum momento para descobrir como seria, afinal de contas. Mesmo já com seus 22 anos, ainda não tinha participado do Carnaval "de verdade", aquele que passa na televisão com trios elétricos e multidões de pessoas festejando na rua.

— Beleza, então. Tenho que comprar ou preparar alguma coisa?

Júlio passou todas as informações para o amigo, e a empolgação com os dias de folia começaram a preencher os pensamentos de André. Foi uma boa distração até as aulas da manhã terminarem e ele voltar para casa. A animação era tanta que ele não escondeu de seu amigo de infância que sairia em um grande bloco aquele ano.

Máscaras (conto)Onde as histórias ganham vida. Descobre agora