— Sabe o que é? — Ele pondera, sem tirar os olhos de mim. — O que aconteceu hoje me fez pensar em outras coisas também. Além da morte do meu tio, sabe?

— Que tipo de coisa? — pergunto cortando o último pedaço de esparadrapo e colando em sua pele.

— Tipo você. Ai! — Ele fecha os dedos da mão machucada, pegando a minha, mas logo abre de novo.

— Cuidado! — Confiro o curativo, tentando ignorar o que ele disse. Mas a curiosidade me corrói por dentro. De que maneira o assalto fez ele pensar em mim? E que tipo de pensamento sobre mim poderia tirar o sono justo dele?

— Tá tudo bem. Com a mão. Obrigado. — Ele diz enquanto pousa a mão boa no meu ombro. Volto a encará-lo e não consigo controlar a pulsação do meu coração, que acelera contra minha vontade, fazendo o corpo inteiro ficar mais quente.

— Eu nunca entendi direito o que aconteceu com a gente. — Ele continua e minha respiração congela por um segundo. Essa era a razão pela qual eu não queria passar essa noite aqui. Venho fugindo dessa conversa há meses. E definitivamente a madrugada da segunda-feira de carnaval não era o momento ideal para ela. — Porque era bom... Não era bom?

Ele pergunta mais para ter certeza de que estou viva, imagino, já que mal pisquei desde que ele começou a falar. Respiro fundo, tentando organizar meu pensamento, talvez para ganhar tempo antes de responder.

— Era, Bruno. Era muito bom. Mas...

Começo, mas não sei bem como terminar. Antes que eu consiga completar o pensamento ele me interrompe:

— Mas o que? Mas a gente não queria nada sério? Mas você não queria se prender? Mas você não sabia que ia se apaixonar? Mas você não soube lidar quando eu me apaixonei?

— Eu?! — Corto ele antes que mais alguma coisa vire culpa minha. — Como assim eu, Bruno? Que eu me lembre os dois foram responsáveis pelo que aconteceu.

— Foi você que... — ele sobe o tom de voz e no mesmo instante parece se lembrar de que todo o resto da casa dorme. Então, volta a sussurrar. — Foi você quem começou a me dar gelo, Yara!

— Bruno, olha só... — Respiro fundo, com as mãos na cintura e troco o peso de perna duas vezes antes de me sentar no vaso fechado. — Eu adiei muito essa conversa justamente porque eu nunca soube organizar tudo aquilo na minha cabeça. Aconteceu tudo muito rápido, sabe? A gente ficou era carnaval...

— E daí? O Diego e a Aline também!

— Eu sei! Mas, quando eu vi, a gente tava saindo toda semana. E eu comecei a perceber que tava sentindo algo diferente por você. — Bruno me encara prestando atenção com certa curiosidade. — Comecei a ficar entediada toda vez que saía com outras pessoas. A querer mais do que só aquilo que a gente tinha. Passei a sentir vontade de falar com você o tempo todo, de estar com você o tempo todo...

— E aí você achou mais inteligente se afastar do que conversar comigo? — Ele deixa a pergunta no ar por alguns segundos. Fecho os olhos, respirando fundo. Eu não falei com ele na época por puro medo. Mesmo depois de tudo o que eu critiquei sobre os medos de Aline, eu abri mão do que estava sentindo por medo de ser rejeitada. — Porque se você tivesse falado comigo, Yara... A gente não precisaria estar tendo essa conversa agora. — Bruno se agacha, ficando com os olhos na altura dos meus. Na minha garganta, um nó começa a se formar como se tivesse a intenção de me estrangular. — Sabe por quê? Porque eu tava sentindo a mesma coisa.

Olho pra ele e sinto cada palavra sendo cravada no meu peito. Sinto o nó apertando cada vez mais, o que dificulta minha respiração. Minha cabeça é bombardeada de cenas do ano passado. Antes de responder, empurro a vontade de chorar para baixo na garganta.

De Volta ao CarnavalWhere stories live. Discover now