CAPÍTULO 6

17 5 8
                                          



Pedimos uma pizza porque ninguém quer cozinhar. Talvez o assalto tenha sugado a energia de todo mundo. Comemos conversando pouco e antes das nove da noite estou no quarto de Diego com Aline, que me emprestou um pijama. Assistimos a um filme de comédia, mas eu durmo antes do fim. Acordo no meio da noite, incomodada com a luz da televisão que Aline não desligou antes de dormir. Procuro o controle pela cama de Diego e quando encontro acabo deixando cair no chão. O barulho não faz nem cosquinha em Aline, que, ao contrário de mim, dorme mais pesado que uma pedra. Levanto da cama tonta de sono e tateio o chão para achar o controle. Antes que eu consiga, um barulho de vidro quebrando me chama atenção no corredor.

Abro a porta com cuidado e encontro Bruno no corredor se dividindo entre juntar com o pé os cacos de um copo no chão e estancar o sangue de um corte na mão. Ele nota minha presença e eu me aproximo devagar.

— Quer ajuda?

— Seria bom. — Ele afasta o pé do vidro e se encosta na parede. A mão direita apertando a esquerda aberta, abaixo do dedão, e um fio de sangue escorrendo pelo braço esquerdo.

— Onde tem vassoura? — Pergunto e ele aponta com a cabeça para a porta da cozinha, a última antes da sala. Vou até lá e apanho a vassoura e uma pá na área de serviço, no fim da cozinha. Antes de voltar para o corredor, pego uma cadeira de lata apoiada no armário. Quando chego atrapalhada com as mãos ocupadas, Bruno estranha. Chamo ele até mim e abro a cadeira, fazendo ele sentar enquanto varro a sujeira.

— O copo tava vazio? O que houve? — Questiono num sussurro enquanto varro bem devagar, evitando fazer barulho.

— Tentei catar o vidro com a mão, mas acho que fui com força demais... Eu tava trazendo de volta pra cozinha. E me assustei com o barulho no quarto de vocês. — Ele responde no mesmo tom.

— Fui eu. — Abafo uma risada. — Desculpa.

— Também não tava conseguindo dormir? — Ele pergunta quando me aproximo já com os cacos na pá de lixo.

— A Aline esqueceu a TV ligada, na verdade. — Digo e ele murmura alguma coisa que não compreendo. — Vem cá, tem que lavar isso.

Ajudo ele a se levantar e o acompanho até o banheiro. Puxo delicadamente a mão machucada para baixo da água corrente na pia. Bruno se retrai, mas não diz nada. Quando o sangue para, consigo enxergar o corte, que não foi tão profundo.

— Não conseguiu dormir? — Já sei a resposta, mas é a única coisa em que consigo pensar para quebrar o silêncio no banheiro. Passo o sabonete antisséptico em sua mão enquanto ele responde.

— É... não muito.

Não sei o que responder a isso. Finjo estar concentrada demais no machucado e limpo o filete de sangue que havia escorrido pelo braço. Procuro por alguma coisa para fazer um curativo e Bruno me aponta uma caixinha de primeiros socorros. Pego uma pomada cicatrizante, gaze e esparadrapo e começo a ajeitar tudo isso sobre o corte.

— Não fica pensando nisso não... — É a única coisa que consigo dizer e tenho consciência de que é péssimo. — Eu sei que foi horrível. Mas passou, sabe? E o importante é que a gente tá bem. Tenta focar em outras coisas, sei lá.

Bruno ri baixinho, pensativo e coça a barba com a mão boa antes de falar. Aquele gesto que ele faz sempre que está escolhendo as melhores palavras para expressar o que quer.

— Acho que o problema é justamente esse...

Levanto os olhos para seu rosto, sem entender aonde ele quer chegar.

De Volta ao CarnavalWhere stories live. Discover now