CAPÍTULO 5

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PARTE 2 - YARA

Os cabelos suados já me incomodam e puxo os grampos para prender tudo num rabo de cavalo alto. Os cílios postiços também pinicam e me forçam a arrancá-los.

— Tá se desmontando aí, menina? — Cauã ri ao voltar para a sala com Diego. Faço uma careta cansada.

— Tô... Tô me sentindo cansada e suja. — Resmungo enquanto jogo os grampos e os cílios na pochete. Os dois riem sem tirar os olhos de mim.

— Toma um banho lá, Yara. A Aline já deve estar saindo. — Diego oferece a mão para me ajudar a levantar do chão da sala. Encaro o namorado da minha melhor amiga, sem mexer um palmo das minhas pernas esparramadas no tapete.

— Eu só trouxe isso aqui, meu anjo. — Aponto para meu corpo com uma mão enquanto sacudo a pochete com a outra.

— E daí, menina? Tá cheio de roupa da Aline lá no quarto. Vai lá, vai. — Ele sacode a mão na minha frente de novo e eu acabo cedendo. Diego me acompanha até o quarto e pega uma toalha para mim no armário. Antes de me entregar, ele me encara e fala baixo: — ele vai precisar da gente hoje. Vai precisar de você também.

Respiro fundo e fujo dos olhos de Diego. Bruno passou por um trauma mais cedo, não estava nada bem. De fato, ele precisava dos amigos. Mas de mim? Por que ele precisaria de mim? Eu já havia lidado com a situação da maneira mais empática possível. Uma pessoa por quem eu tenho apreço passou por uma dificuldade e eu ajudei. Lidei com o bandido por ele, cuidei dele na orla quando passou mal, fiz até carinho com ele em choque no sofá! E é claro que eu percebi a forma como ele apertou minha mão mais forte na hora do assalto. Ou como o polegar dele gentilmente acariciou minha mão enquanto saíamos daquela confusão.

Eu não sou nada dele, como ele mesmo fez questão de deixar bem claro ao longo do ano passado... Fiz tudo o que qualquer pessoa decente na minha posição faria, mas não consigo enxergar para que mais ele pode precisar de mim.

— Você sabe do que eu tô falando, Yara. Tenta dar uma apaziguada nessa guerra fria, pelo menos hoje. Eu sei que você se importa. Todo mundo sabe... — Diego fala como se lesse meus pensamentos e eu me pergunto o quanto de mim Aline ensinou a ele. E, pior, o quanto disso ele passou para o Bruno. Não que eu tivesse o direito de reclamar, afinal, foi exatamente o que eu fiz no ano passado com minha amiga. Mesmo que para ela tenha dado certo, era basicamente a mesma coisa.

Aline abre a porta do banheiro, interrompendo meu raciocínio. Diego me entrega a toalha e pede que ela me empreste uma roupa. Minha amiga confirma como se fosse óbvio e abre a gaveta que Diego lhe cedeu, pegando um macaquinho cinza que fui eu quem dei para ela. Agradeço e corro para o chuveiro.

Um banho era realmente tudo de que eu precisava. Enquanto a água cai sobre meus cabelos eu penso no que Diego falou. É claro que eu me importo. Afinal, como aparentemente é óbvio, eu ainda gosto do Bruno. Talvez gostar não seja a melhor palavra. Mas não me recuperei totalmente de tudo o que aconteceu entre a gente, se é que eu entendo o que aconteceu entre a gente. Mas também não quero ninguém pensando que eu estou me aproveitando da situação do menino pra me reaproximar.

Quando volto para a sala todos estão debruçados em volta de Cauã, que tem um notebook no sobre as coxas. Franzo a testa enquanto amasso meu cabelo molhado com as mãos. Ninguém parece me notar.

— Que isso?! — Me aproximo de Aline, que está sentada no colo de Diego, ao lado de Cauã.

— Boletim de ocorrência. — Diego responde. — Descobrimos que dá pra fazer pela internet.

— Não vamos precisar ir à delegacia? Ai, Graças a Deus! Vou embora então, gente.

— Que embora o que, garota. — Aline me puxa e eu quase caio sentada em cima do casal. — Tem que dar teu documento aqui. E a senhora nem sonhe com a possibilidade de sair daqui hoje.

— Ah tá, Aline! Pelo amor de Deus! Já não tem mais nada na rua. Para de bobagem. Eu vou já, já, e chego em casa antes de escurecer.

— Yara, vai escurecer em quarenta minutos. Daqui a Madureira dá mais de uma hora. — Aline contesta sorrindo ao me contradizer. É óbvio que ela está certa. O perrengue até minha casa seria gigante no domingo de Carnaval. Mas não ir para a minha casa implica que eu durma ali, na casa dos meninos. Exatamente o que eu vinha evitando desde o início do Carnaval.

— Não faz sentido você sair daqui pra casa a essa hora, Yara. Ainda mais depois do que aconteceu. — Diego faz coro enquanto Aline levanta, pegando o telefone fixo no móvel ao lado do sofá. Quem ainda usa telefone fixo?!

— Fica aqui, Yara. Por favor. — Bruno diz e só então percebo que o olhar vazio deu uma melhorada. Ele não parece mais uma criança perdida. Mas ainda tem sinais claros de abatimento. Parece cansado, triste. Me surpreendo com o pedido. Por que ele quer que eu fique? Para ter o gostinho de me evitar pessoalmente até amanhã? Para que pedir desse jeito? Como se o simples fato de eu ir embora dali fosse acabar ainda mais com ele, aumentar ainda mais o trauma daquele dia. Quem olha até pensa que ele se importa. Não tem a menor chance de eu cair nessa lábia!

A risada de Aline interrompe meu pensamento antes que eu responda ao pedido de Bruno. Ela vem andando pelo corredor em direção à sala. Não havia notado sua saída enquanto pensava no que dizer. "Vou passar", ela diz entre uma risada e outra. "Vou passar, tia, beijo", ela diz e me estende o telefone. Em um segundo entendo o que ela fez e arregalo os olhos perplexa. "Você é suja", digo a ela sem emitir nenhum som e Aline apenas ri e me dá um beijo na bochecha antes de voltar ao sofá. Coloco o telefone na orelha, sabendo o que me espera:

— Alô.

— Alô, Yara?! — Minha mãe grita do outro lado. Cerro os olhos e antes que eu responda ela me bombardeia. — Que horas a senhorita pretendia me avisar que foi assaltada? Eu falo pra você não ir pra esses blocos! Eu falo. Mãe sente, mãe sempre sabe, minha filha! Mas pra que ouvir mãe, não é? Agora tá aí sem celular. Eu não tenho dinheiro pra te dar outro não, minha filha. E sei que sua bolsa da faculdade também não dá. E agora? Você tá bem pelo menos Yara?

— Tô bem, mãe. Tava tomando banho. Fica tranquila que eu dou meu jeito e...

— Podia ter me avisado antes do banho! Custava nada. — Ela recomeça e eu acho melhor me sentar. Puxo uma cadeira da mesa e Aline ri, mandando um beijo no ar. Faço uma careta de deboche em resposta. — E você nem pense em voltar pra casa agora, hein, Yara! Você não se atreva!

— Mãe, não tem problema nenhum eu voltar pra casa agora. — Falo fuzilando Aline com o olhar. — Ainda tá cedo.

— Yara você acabou de ser assaltada!

— Então! Um raio não cai no mesmo lugar duas vezes!

— Yara você não debocha com a minha cara, hein, garota! Sua amiga tá oferecendo a casa, falou que não tem problema nenhum você dormir aí, que você é que tá de pirraça. Deixa de ser mal-agradecida que não foi assim que eu te criei! A Aline tá sendo legal com você. Não vai sair daí com a rua perigosa assim. A Aline me disse que deu até tiro! Você vai ficar aí, minha filha.

— Mas, mãe, eu... — Tento começar a explicar que eu prefiro dormir em casa, mas sou interrompida no mesmo momento.

— Yara se tu aparecer aqui lá pras sete, oito da noite eu não abro. Tá me ouvindo? Vai dormir do lado de fora. — Ela sobe o tom e eu rio pela contradição. Quer que eu fique em segurança, mas, se eu for para casa, fico ao relento na rua. — Para de fogo e fica aí com a sua amiga, em segurança. Não me mata do coração.

— Tá bom, mãe. — Eu desisto de argumentar. — Se cuida aí então... Qualquer coisa é só ligar pra esse número. — E então pergunto para Diego: — qual o número daqui?

Passo o número para minha mãe que agradece e diz mais uma vez que fica mais tranquila comigo em segurança. Quando desligo o telefone, Aline pula gritando "ÊÊÊ" e me abraça.

— Essa trapaça vai ter volta hein! — Digo enquanto ela me abraça e todo mundo ri. — Tô com fome. Já que vou ficar, o que tem pra comer nessa casa? 

NOTA DA AUTORA: Quem gostou do ponto de vista da Yara? Querem saber o que ela tem a dizer no meio disso tudo? Então não percam o capítulo de amanhã que será de-ci-si-vo! Não esqueça de deixar sua estrelinha e um comentário!

AH! E não se esqueçam de que "De Volta Ao Carnaval" é um spin off do meu conto "Enquanto o Carnaval Durar". Para ler a primeira aventura carnavalesca das amigas Aline e Yara, é só clicar no link externo!

De Volta ao CarnavalWhere stories live. Discover now