CAPÍTULO 4

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Assim que damos as mãos para tentar sair da orla, um homem aparece na frente de Diego.

— Pode passar tudo, pleiba. — O homem balança uma arma apontada para o peito de Diego.

— Eu dou, só calma, por favor. — Diego solta a mão de Cauã e lentamente a enfia no bolso.

— Calma é o caralho, playboy! — O homem grita. — Vambora! Tenho o dia todo, não.

Rio de nervoso ao perceber que, apesar de segurar uma arma e ameaçar meu namorado, o ladrão tem purpurina no rosto e uma saia de tule por cima da bermuda. Ele assaltava à caráter.

— Tá rindo do quê, garota? É pra passar tudo todo mundo. — Ele volta a gritar e nossa corrente se desfaz.

Todo mundo começa a vasculhar os próprios bolsos. Diego estende o celular e a carteira e o assaltante pega só o aparelho.

— Só o celular, playboy, só o celular! — Ele repreende meu namorado contradizendo o próprio "passa tudo". Depois que Diego entrega o telefone, o assaltante pega o de Cauã e o meu. Bruno, atrás de mim, o encara sem se mexer. — Tá, maluco, playboy? Quer morrer?

— Bruno, entrega essa merda. — Ouço a voz de Yara e percebo que era ela quem segurava a outra mão de Bruno antes do assalto. Ele olha do homem com a arma para minha amiga e o ladrão fica impaciente, sacudindo a arma ainda mais perto dos dois. Yara acaba enfiando a mão no bolso de Bruno. Ela entrega os dois celulares, o seu e o dele, seguida por Pedro que também entrega seu telefone. O homem pega todos os aparelhos e some na multidão.

— Todo mundo bem? — Cauã pergunta passando os olhos por nós. É só então que percebo a adrenalina em meu sangue. Minha cabeça pesa e respiro ofegante, com um gosto amargo na boca.

Ao olhar para o lado, percebo que Bruno está curvado, com as mãos apoiadas no joelho e as asas cintilantes viradas para cima. Yara segura a testa dele e tem a outra mão pousada em suas costas. Percebo que Bruno está vomitando no mesmo segundo que uma mulher vestida de borboleta é empurrada e para aos meus pés. Eu e Cauã a ajudamos a levantar e então Diego se volta para o grupo.

— Bruno, consegue ir até em casa?

Bruno apenas levanta o polegar direito, enquanto volta a coluna para o lugar. Damos as mãos novamente e Diego recomeça a se embrenhar pela multidão que ainda se empurra assustada. Não sei bem quanto tempo demoramos do calçadão até o prédio, mas parece uma jornada infinita. O sol começa a se pôr quando finalmente conseguimos sair da multidão. Pedro chega à calçada depois de Yara e então eu respiro aliviada. Corremos para o prédio e o porteiro aperta o botão para que a porta se abra assim que nos vê, antes que alguém pegue as chaves.

— Seu Diego o que que aconteceu aí? Tá uma correria danada, disseram que ouviram tiro e tudo. — Roberval pergunta apreensivo, esticando a cabeça para ver lá fora.

— Não sei direito, Roberval... A gente ouviu o tiro também e depois fomos assaltados. Acho que foi arrastão... 

— Valha-me, Deus! Vocês estão bem?

— Tirando o susto, tá tudo bem, seu Roberval. — Foi Cauã quem respondeu.

— É — Diego completou. — Vamos esperar a poeira baixar pra ir até a delegacia.

Dessa vez, diferente do Carnaval do ano passado, preferimos não deixar de denunciar...

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Subimos no elevador e abraço Diego no caminho. Ele pega meu rosto com as mãos e me pergunta:

— Você tá bem? — Assinto com a cabeça e ele me dá um beijo na testa suada. Aperto meus braços em volta de sua cintura e o elevador abre no hall do quinto andar.

— Tudo bem, Brunão? — Cauã pergunta e Bruno apenas assente, com o olhar ainda vago, enquanto Diego abre a porta. Observo preocupada e Diego me puxa para a cozinha.

Meu namorado me conta que Bruno tem pavor de armas desde a infância. Aos 10 anos, durante um passeio com tios e uma prima, perdeu o tio para a violência da cidade. O carro foi parado em um sinal e, na tentativa de proteger as crianças, o tio de Bruno tentou negociar com os bandidos. Bruno viu o tio ser assassinado com três tiros no peito e terminou aquela noite de horror com a tia e a prima no meio da rua. Desde então, o garoto adquiriu um pavor latente de armas de fogo. Evitava ao máximo situações de risco e nunca mais passara por nada parecido. Até o dia de hoje.

Escuto a história com o coração apertado, sem conseguir imaginar um trauma desse para duas crianças, assistir à morte de um tio e de um pai dessa maneira... era pesado demais. Concordando comigo, Diego enche um copo d'água e leva até o amigo. Cauã e Pedro estão no sofá, um de cada lado de Bruno. Ninguém diz nada, mas Cauã faz carinho no cabelo suado do amigo e Pedro tenta arrancar as asas de fada dos ombros dele. No corredor, encontro Yara observando a cena com um misto de pena e respeito. Ela sabia da história, dava para notar em seus olhos, mas não fazia ideia de como agir diante daquela situação.

Me aproximo devagar e me sento no chão, perto das pernas de Bruno, pegando uma de suas mãos e apertando com força. Yara me segue e imita meu gesto, numa trégua à guerra dos dois. Bruno dá um meio sorriso, mas os olhos continuam vagos. Diego põe a mão no ombro dele antes de dizer:

— Cê não quer tomar um banho? Esfriar a cabeça um pouco...

— Pode. Pode ser... — Bruno responde meio atônito, como quem volta de um transe. — Tá tudo bem, gente. — Ele diz se levantando e anda meio trôpego pelo corredor até o seu quarto.

— Não é melhor alguém ir com ele? — Yara sussurra e eu me viro para cima, curiosa pela opinião dos meninos.

— Acho que ele precisa ficar sozinho um pouco. — Diego fala baixo conosco para logo depois subir o tom na direção do corredor: — Não tranca a porta, não, Bruno. Se precisar de alguma coisa, grita.

Em resposta, Bruno resmunga alguma coisa, que todos interpretamos como um ato de concordância. Resolvo ir tomar meu banho também. Ao levantar-me do chão, sinto meus músculos retesados e um incômodo no pescoço. Ainda é domingo, mas minha energia de hoje para o Carnaval se esgotou na praia. Água gelada, com bastante shampoo, condicionador e sabonete talvez recuperem um pouco das minhas forças.

NOTA DA AUTORA: Gente, que loucura! Será que o Bruno vai se recuperar do choque? E o carnaval? Será que eles ainda têm clima para festa depois disso? O que vocês acham que vai acontecer?? Conta aqui nos comentários! Ah, e deixem suas estrelinhas!! 

AH! E não se esqueçam de que "De Volta Ao Carnaval" é um spin off do meu conto "Enquanto o Carnaval Durar". Para ler a primeira aventura carnavalesca das amigas Aline e Yara, é só clicar no link externo!

De Volta ao CarnavalWhere stories live. Discover now