Capítulo VII

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Chegou o dia da aula de biologia que Vitor me prometeu, era meu dia de folga do trabalho, combinamos de nos encontrarmos em um parque da cidade, lá tinha um espaço cheio de grama verdinha, muitas árvores e um lago.
Era um dia ensolarado, os ipês estavam todos floridos, as criaças corriam pra lá e pra cá, e um senhor estava alimentando os ganços do lago.

- Então Maria, no que mais tem dificuldade?- perguntou

- Em tudo!- brinquei

Mostrei o que estava estudando, e minhas dificuldades, eu ia ter prova daqui duas semanas e minha nota tinha que ser razoável, ele me ajudou, afinal de contas é um ótimo professor, biologia ainda era difícil, mas com ele me explicando estava sendo mais suportável, se ele continuasse com as aulas nessas proximas semanas com certeza eu ia até que me sair bem.
Terminamos a parte do estudo e por que não aproveitar a tarde linda pra conversar?

- Eu menti- eu disse, ele se assustou- Eu tenho um emprego, bom... Mais ou menos, trabalho meio período no sex shop de uma amiga, fiquei com vergonha de dizer onde eu trabalhava- disse finalmente, uma hora ele ia ter que saber.

- Tudo bem- ele riu- Levei um susto, digo você solta do nada "eu menti"... Bom tudo bem, entendo essa insegurança, afinal você trabalha com uma coisa que ainda tem um pouco de tabu..

-Muito obrigado, um hora eu ia ter de falar não é mesmo?
A propósito, seria interessante você ir lá um dia desse, digo é estranho te convidar pra um sex shop sem estar tendo segundas intenções (no fundo eu estava), é que você ia adorar conhecer minha amiga, Amara, que contou comigo aquele dia, ela também está louca pra te conhecer.

-Então você não está tendo segundas intenções comigo?- ele falou brincando, e eu corei- Brincadeiras a parte, eu adoraria ir lá, pode ser amanhã se quiser?

-Combinado!- passei a localização e horário pra ele.

O sol estava quase se pondo totalmente, e uma bandinha começou a tocar perto de onde estávamos, tinha um espaço pra isso no parque. Fomos até lá, havia alguna bancos ali por perto, nos sentamos.

- Não se esqueça que sexta você vai cantar la em casa- ele falou todo sorridente.

- Jamais iria esquecer, eu vou morrer de vergonha, mas tudo bem.

- Bom, pra te acompanhar no clima musical eu toco algo. Fechado?- apertamos a mão em um acordo.

- Falando em música, como você começou a tocar?- perguntei pra ele.

- Foi quando eu era criança, quando não se pode ver, você presta muita atenção nos sons, e eu adorava o som das guitarras das bandas que meu pai ouvia, era lindo, eu me arrepiava, queria fazer igual, transmitir a sensação que eu sentia para outras pessoas, então meu pai me matriculou primeiro em aulas de violão, então eu fui crescendo e aprendendo mais e mais, eu sempre tive muito contato com a música, meus pais se conheceram em um show do Metallica, então já da pra imaginar em que meio musical eu cresci.

-Que legal, que bom que você aprendeu a tocar, porque você faz incrivelmente bem, da pra sentir a emoção com que você toca, é incrível. Eu sempre fui apaixonada por música, e por coincidência, as mesmas que você, quando eu era pequena eu vivia cantando, aí entrei no coral da escola, eu não posso negar que eu era boa, mas as inseguranças da adolescência chegam e... Bom, nunca mais voltei a cantar, a não ser no chuveiro e no Karaokê quando estou bêbada.

- Pois você deveria, não entendo porque não tentou a carreira de música, digo Física é totalmente diferente.

- Bom o tempo passou e eu não pensava que poderia tentar algo com a música, então consegui uma bolsa de física, e entrei, sinceramente, as vezes eu me perguntou por quê estou nesse curso, eu sempre gostei de física, mas hoje, acho que faço só porque ganhei uma bolsa.- falei, eu nunca falava isso pra ninguém, mas pra ele eu não tive medo de desabafar.

- Então fecha o curso, olha a vida é muito preciosa pra você desperdiçar com coisas que não te fazem totalmente feliz, e você é bem jovem, nós dois somos, não da pra desperdiçar esse período da vida com alguma coisa que você não quer levar pra vida toda, não é errado deixar uma coisa pra trás pra começar do 0 em uma coisa que vai te deixar mais feliz- ele disse. Eu fiquei em silêncio por um instante, ele tinha razão, pensei nos meus pais, deixaram a vida passada pra trás e começaram do 0, uma nova fase para a felicidade.

- Sabe Vitor, as vezes eu penso que você seja o Matt Murdock brasileiro.- Eu disse brincando com ele.

-Por quê?- ele disse confuso.

-Bom, você é cego, ruivo, sábio, só lhe falta ter os outros sentidos super aguçados e você combater o crime a noite. Você não tem os outros sentidos super aguçados né?- brinquei com ele

-Talvez! Eu não sabia que o demolidor era ruivo, mas ele não nasceu cego, fique tranquila, não vou me vestir de vermelho e combater o crime da cidade, sou só o Vitor mesmo.

Nós dois rimos, fiquei feliz em saber que ele entendeu a referência, bom saber que ele também curte o universo dos heróis, estou começando a achar que ele é algum tipo de versão masculina de mim.

Ainda Rindo eu perguntei:
-Como você sabe que ele veste vermelho e não azul?

-Eu sou cego, não louco- ele riu
-Falando em cores, eu queria saber como são as cores em sua percepção, tipo, o que você sente com cada uma delas?

- Sabe que nunca parei pra pensar nisso, sempre vi as cores como sendo só elas mesmo.

Ele segurou minhas mãos e pediu que eu fechasse os olhos, pensasse nas cores e falasse o que eu sentia.
Foi uma sensação boa, é como ele vê, por sons e sensações, pude sentir um pouco do que ele sente.

- Eu falo uma cor e você fala o que sente, certo? - Perguntou Vitor - Verde?

-Bom... Verde... Grama, árvores, cheiro de natureza, o barulho que o vendo faz quando atinge as folhas...

Nessa hora eu pensei o quanto as coisas são mais lindas e tem mais valor quando você tenta as sentir com toda sua alma.

- amarelo?

-Sol, tarde ensolarada, crianças brincando no parque enquanto correm com suas pipas voando pelo ar.

-Azul?

-O céu, seus olhos, a água, o frio, o acampamento que fiz no inverno com Amara quando tínhamos 13 anos e não levamos cobertas quentes, foi engraçado, foi no quintal da minha casa, ficamos só até meia noite e meia e voltamos para dentro de casa... Azul é minha cor favorita.

-Vermelho?

Meu coração bateu mais forte.

-Paixão, amor, calor...

Não precisei falar mais nada, ja sentia meu corpo eufórico, querendo o toque dele, o calor dele. Então senti suas mãos subindo até meus rosto, eu sabia o que isso significava, e que ele estava sentindo o mesmo que eu, continuei de olhos fechados, senti seus lábios nos meus, e a sensação que descrevi do "vermelho", aumentaram a intensidade; De novo eu me apaixonei por ele, por seu toque, por seus lábios, por seu peculiar jeito de me fazer sentir com a alma, ver com a alma, eu ja estava apaixonada por ele, e o único lugar que eu pretendia ficar era em seus braços, sentindo seu calor.

O amor em seus olhos Onde as histórias ganham vida. Descobre agora