CAPÍTULO 3

26 6 21
                                          



Almoçamos todos juntos na mesa da sala e a comida acaba provocando uma certa lombeira coletiva.

— Tem certeza de que vocês querem outro bloco? — Cauã pergunta, apoiando a cabeça no ombro de Pedro, depois de lhe dar um beijo. Pedro faz carinho no cabelo do namorado.

Todos se encaram e ninguém tem coragem de responder, o que acaba provocando uma risada coletiva. Imito Cauã e apoio a cabeça no braço de Diego que me dá um beijo no topo da testa. Bruno brinca de alavancar o garfo na mesa, apertando os dentes do talher para baixo e fazendo o cabo subir. Parece uma criança de seis anos presa em seu próprio mundo. Diego observa o amigo e ri em silêncio, fazendo tremer a barriga.

— Ah, mas cadê a animação de vocês, meu povo?! — Yara fala alto e bate na mesa. Todo mundo pula de susto. O garfo de Bruno vai parar no chão.

— Isso aí, gente, bora! — Pedro se junta a Yara e começa a recolher os pratos. — Carnaval já, já acaba.

Concordo, assentindo enquanto bocejo e entrego meu prato a ele. Cutuco Diego e ele também se levanta. Em quarenta minutos e com trabalho em equipe lavamos toda a louça, escovamos os dentes e retocamos o glitter. Ao descer para a orla, encontramos uma Ipanema ainda mais superlotada do que de manhã.

---

Eu sempre questionei o conceito de protesto político em bloco de Carnaval. Está certo que, além de ter aversão à festa, o prefeito não fez nada pela cidade desde que foi eleito. Mas qual a eficácia de gritar "Fora, Prefeito" e em seguida continuar festejando e descendo até o chão? Ainda assim, a orla grita contra o governo entre uma música da Anitta e outra.

Quando o funk recomeça, Yara, com o celular na mão, me puxa para tirar fotos. Fazemos caretas, sorrimos e pedimos para Cauã tirar uma de corpo inteiro e registrar as fantasias. Yara pega o celular de volta para olhar o resultado, eu apanho o meu na doleira, por dentro da saia de tule, e peço para Bruno tirar uma minha com Diego.

Quando chamo Diego, ele aponta para uma dupla vestida com a roupa idêntica às da série "La Casa de Papel". O macacão é perfeito e as máscaras também. Eles percebem que Diego apontou e acenam para a gente. Aquela era sem dúvidas a fantasia mais popular desse ano. Desde de manhã, perdemos as contas de quantos grupos nós vimos vestidos daquela forma. Não sei como aguentam o calor carioca...

Diego posiciona o regador acima de minha cabeça e me segura pela cintura. Depois me puxa, fazendo com que eu me deite em seus braços e me dá um beijo de cinema. Bruno registra tudo e me devolve o celular. Uma foto mais linda que a outra. Deixo para postar quando estiver de volta em casa. Guardo o aparelho de volta na doleira e volto a dançar com Yara.

Enquanto pulo, cantando com minha amiga, Diego aparece com uma lata de coca-cola para mim e outra de cerveja para ele. Meu namorado dança comigo e Yara e, em alguns segundos, Pedro também está dançando com a gente. Quando ele se vira, percebo que seu braço direito tem uma tatuagem removível com os dizeres "não é não", iniciativa de diversas instituições para combater o assédio no carnaval.

—Ah, onde você conseguiu? — Pergunto apontando para o braço dele.

— Passou uma menina distribuindo.

Chamo Yara e ela também lamenta não ter ganhado uma.

— Eu peguei mais, vocês querem? — Ele fala já enfiando a mão no bolso lateral da bermuda. Eu e Yara temos a mesma reação: abrimos um sorriso e batemos palminhas.

Pedro entrega uma tatuagem para cada uma de nós. Diego me ajuda a colar a minha no braço esquerdo. Ele passa a unha por cima do papel para que a tinta fique toda sobre minha pele. Yara cola a dela bem acima do decote, de forma que a tatuagem, por cima do glitter, é a primeira coisa que se enxerga ao olhar para ela.

— Amei! — Eu aponto para o colo dela e minha amiga sorri, mas percebo que ela já não presta atenção em mim. Quando olho para trás, vejo Bruno alheio ao grupo, conversando com uma power ranger rosa. Puxo minha amiga e troco de lugar com ela para que voltemos a dançar. Ela sorri amarelo para mim e balança o corpo no ritmo da música.

É quando boto a mão no joelho para dançar um funk que ouvimos um barulho. Inconfundível para quem cresceu numa cidade como o Rio. Pelo som eu já sabia o que era, mas a histeria que tomou conta do lugar depois de um segundo de apreensão confirmou a suspeita. Um tiro. E não muito longe de onde estamos.

Diego puxa a mim e Yara e nos coloca no meio de uma tentativa de círculo formada por ele, Cauã e Pedro. Bruno continua longe e o perdemos de vista na confusão. Toda a multidão aglomerada na rua começa a correr junta, embora não haja espaço para isso. A música continua alta, o que dificulta ainda mais que se entenda o que está acontecendo. Estamos perto do calçadão e chegar ao prédio dos meninos é uma tarefa quase impossível naquele cenário.

Diego e Cauã se olham tensos quando percebem que não conseguem fugir do empurra-empurra. Bruno reaparece depois de se esgueirar por uma brecha, e resolvemos tentar correr para casa. Damos as mãos e, quando Diego, que é o primeiro da fila, se vira, o que ele encontra faz todos nós apertarmos mais forte as mãos uns dos outros. 

NOTA DA AUTORA: O Rio de Janeiro não é para iniciantes! O que será que aconteceu? Quanta tensão! Não perca o capítulo de amanhã! Me conta o que você está achando aqui nos comentários! E não se esqueça de deixar sua estrelinha!

AH! E não se esqueçam de que "De Volta Ao Carnaval" é um spin off do meu conto "Enquanto o Carnaval Durar". Para ler a primeira aventura carnavalesca das amigas Aline e Yara, é só clicar no link externo!

De Volta ao CarnavalWhere stories live. Discover now