CAPÍTULO 1

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PARTE 1 – ALINE

— Amor, onde você botou o regador? — Diego pergunta, arrumando o cabelo, enquanto eu tento costurar as flores de plástico na jardineira que ele vestiu antes que eu tivesse terminado.

— Acho que deixei na varanda ontem.

Quando cheguei na casa de Diego, cansada do bloco em que havia ido com Yara durante a tarde, ele me contou que não havia tido tempo de procurar o regador para a fantasia de hoje. Concordamos então em ir até uma loja de construção em Copacabana, eu ainda com muita purpurina e um rabo de sereia, e acabamos comprando um mais caro do que o planejado. Não fazia ideia de que um simples regador poderia custar tanto dinheiro. Mas era pelo bem da fantasia...

Ao voltar para casa, sentei na varanda e decorei o regador com cola quente e as flores de plástico. Deixei lá para secar enquanto tomava banho e acabei esquecendo de voltar para pegar.

— Ai! — Diego reclama quando esbarro em seu peito com a agulha.

— Desculpa, amorzinho.

— Não tá bom de flor, não?

Levanto o lado esquerdo da jardineira que pende aberto sobre seu peito nu e analiso a simetria das margaridas falsas. Decido costurar mais uma na parte de dentro, já que ele vai usar a jardineira aberta e esconder metade do meu trabalho.

— Só mais essa aqui. — Volto a costurar e ele faz uma careta jogando a cabeça pra trás. — Ai, deixa de ser chato, amor!

— Deixo. — Ele sorri e aperta minha cintura, me trazendo pra mais perto. Tiro a agulha da frente antes que ele termine o abraço e dou um beijo estalado em seus lábios. — Você tá tão linda...

Sorrio e dou-lhe outro beijo. Ele murmura que me ama e pergunta se já terminei. Finalizo a costura da última flor e a campainha toca. Deve ser Yara. Diego se adianta até a porta enquanto eu termino minha maquiagem. Escuto as vozes na sala e reconheço uma Yara empolgada, porém hesitante. Sobre a cama, o relógio do celular de Diego marca oito da manhã em ponto. Reviro os olhos por imaginar o horário em que minha amiga precisou acordar para chegar em Ipanema a essa hora. Tudo por pirraça.

Yara se recusou a dormir na casa dos meninos de sábado para domingo, ainda que eu e ela tivéssemos ido a um bloco no bairro vizinho, no sábado à tarde. O motivo? Bruno Simões. Ela não queria dormir sob o mesmo teto que ele, mesmo que Diego tivesse oferecido seu quarto para nós duas. O orgulho falou mais alto do que a logística.

— Oi, amiga! Ai meu Deus você tá linda! — Yara joga a pochete na cama e me gira para analisar a fantasia. Não era nada muito elaborado. Mas eu também adorei o resultado. Cobri um biquíni amarelo velho com várias margaridas de plástico. A saia de tule amarelo também foi confecção minha e estava bem mais cheia do que as vendidas pelo Centro da cidade.

— Obrigada! Viu o Diego? — Abraço minha amiga que abriu mão de fantasia por um body prateado metalizado e uma saia de fitas coloridas.

— Vi. Mas não entendi direito. O que ele é? — Yara ri e eu a acompanho antes de explicar

— É que falta o regador... — Digo prendendo o cabelo de lado com uma margarida colada na presilha.

— Não falta mais. — Diego fala entrando pela porta da varanda e sacudindo o regador que compramos ontem à noite. — Nossa... — Ele me olha pelo espelho. — Minha namorada é muito gata.

Eu e Yara sorrimos cúmplices. Era engraçado pensar que um ano atrás, naquele mesmo apartamento, eu ainda relutava em ficar com ele. Com o tempo, e com uma paciência admirável, Diego conseguiu aniquilar todos os meus medos de relacionamento. Depois de um carnaval conturbado, nosso namoro fluiu tão bem que eu mal acreditava que já era fevereiro de novo. E dessa vez eu não competiria em placares de beijos e ficadas com Yara, meu amor de carnaval era um só.

— É, né... Perdi minha parceira de fantasia! — Yara resmungou.

— Pode parar de graça que ontem a gente tava um par de jarro lindo. — Yara se esquiva do travesseiro que jogo em sua direção. No dia anterior, fomos a um bloco na Gávea vestidas de sereias. Mais duas fantasias improvisadas e confeccionadas por mim, é claro.

Diego ri e elogia a roupa de Yara:

— Vai arrasar corações...

— É... — Yara responde repentinamente murchinha e o motivo fica suspenso no ar. Diego olha pra mim e, quando percebe que não direi nada, resolve falar.

— Sabe que esse aí já tá arrasado, né?

Yara desviar o olhar. Ela não responde e Cauã, irmão de Diego, aparece dando dois tapas na porta aberta.

— Todo mundo pronto? — Ele pergunta e Pedro, namorado de Cauã, entra logo atrás do meu cunhado. Os dois vestiam a mesma fantasia de Magic Mike do ano anterior. Saímos do quarto para encontrar Bruno na sala, vestindo bermuda e minha asa de fada.

Sem conter a gargalhada, corro até ele para arrumar o elástico da asa, que foi feito para o meu tamanho e agora se retorcia ao redor dos músculos de Bruno. Na mão ele segurava uma pequena varinha com um dente de plástico na ponta.

— Tô um fadão bonito?

A zoação é geral, mas acaba interrompida por até que Cauã, rindo, incita todo mundo a sair logo lembrando que o bloco já começou.

Diego entrelaça os dedos nos meus quando o encontro do lado de fora do apartamento. Deposito um beijo em seu braço e ele devolve no topo da minha cabeça. O elevador chega e entramos os seis. Como os meninos são grandes, o espaço fica um pouco apertado. Me abraço em Diego apoiando a cabeça de lado e então vejo que Yara e Bruno ficaram de frente um pro outro. Bruno retorce a boca num meio sorriso que minha amiga devolve e então os dois desviam o olhar para os próprios pés. Deixo escapar uma risada abafada e Diego também olha para a situação. O silêncio constrangido deles toma conta do ambiente claustrofóbico e o clima fica esquisito do quinto ao primeiro andar.

Em alguns minutos estaremos novamente pulando carnaval na orla de Ipanema. Quase como no ano passado. A diferença é que agora minha amiga não conseguia disfarçar o desconforto que a presença de Bruno lhe provocava.

NOTA DA AUTORA: É, minha gente, o Carnaval começou com o pessoal animado, cheio de fantasias criativas. Mas também com muita tensão. O que será que o bloco vai trazer para Aline, Diego, Cauã, Pedro, Yara e Bruno? Não perca o capítulo de amanhã! Gostou do primeiro capítulo? Deixe sua estrelinha e um comentário!


AH! E não se esqueçam: "De volta ao carnaval" é spin off do meu conto "Enquanto o Carnaval Durar". Para ler a primeira aventura carnavalesca das amigas Aline e Yara é só clicar no link externo!

De Volta ao CarnavalWhere stories live. Discover now