Capítulo único

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Vagando na escuridão, não importa em que direção siga, não encontro um só ser vivente que possa me fazer companhia. Deparo-me sempre com um obstáculo, sempre o mesmo obstáculo: uma parede feita com pedras grandes, ásperas e

frias. Onde estou e como cheguei aqui?

Encosto uma das mãos na parede e sigo paralelo a ela. Enquanto caminho, sinto o chão macio de terra úmida sob meus pés nus. Frio, úmido e escuro, até onde consigo perceber, é tudo que define esse lugar. Tento medir a distância que


percorro, conto as frestas que ficam entre as pedras. Mas, depois de algum tempo, acabo perdendo a conta.

A parede não tem nenhuma passagem, segue íntegra e intransponível. A experiência me revela uma curva. Então, percebo que a tal parede me circunda, enclausura-me. Como poderei sair daqui?

Sinto a fadiga nos músculos. As forças se esvaem, o corpo pesa e vou de encontro ao chão. Enquanto meu corpo se recupera, sinto-me entorpecido. É intrigante. Mesmo nessa situação, não me sinto abalado pelo medo.

Percebo que, acima de mim, não muito distante, há luz. Está sob uma forma ampla e circular. É forte e cálida, mas incapaz de adentrar a escuridão que me cerca.

De alguma forma que não sei explicar, essa luz me invade, reverbera em mim. Por um momento, tudo é luz. E, então, quando volto a mim, vejo-me no aniversário de um primo dando gargalhadas enquanto alguém conta piadas. Outro flash

e estou competindo com os amigos para saber quem consegue atravessar primeiro o açude onde costumávamos nadar, e, depois do próximo clarão, sentado na calçada com os vizinhos

enquanto decidíamos se o filme que estava em cartaz valia ou não o investimento da entrada no cinema. Foram momentos bons, felizes. As lembranças me afagam a alma.

Mais uma lembrança. Uma fogueira e uma roda de amigos na praia. Compartilhávamos alguns de nossos momentos constrangedores e dávamos muitas risadas. Mas, ali, sentia-me diferente. Como um membro que não faz parte do conjunto. Podia vê-los, tocá-los, ouvi-los, mas estava distante deles. A lembrança me deixa angustiado, abatido. Não quero mais ficar aqui! Fecho os olhos e respiro fundo. Percebo um brilho através das pálpebras. Será que foi a luz que passou outra vez!? Volto a abrir os olhos e me deparo com uma cena diferente.

Um casamento.

Estava vestido em um daqueles trajes tradicionais que obrigam a gente a usar em festas a rigor. Havia muita gente na celebração. Não conhecia metade deles. Estava sentado à mesa com uns poucos conhecidos. Quando foi que parei de chamá-los de amigos?

Em parte, a festa era agradável, em parte, insuportável. A hora no telefone me informa que a festa ainda estava no começo, mas a frequência com a qual sou acometido pelo mal-estar de estar naquele lugar faz com que eu deseje fugir. Invento uma desculpa e me afasto dali.

Escondo-me atrás de uma parede quase desesperado. Agacho-me, fecho os olhos e respiro fundo. Fico ali, imóvel, espero o sentimento passar. Os segundos se estendem e, quando

me dou conta, se passaram muitos minutos. O próximo flash foi demorado e pareceu mais distante ou, pelo menos, mais fraco.

Agora estou no meu quarto. Lar doce lar. Estendido na cama, examinando as estantes com meus livros favoritos e o computador na escrivaninha com uma mensagem em letras garrafais. É um convite para o reencontro da turma do colégio. Sinto saudade de muitos deles. Estou relutante. O evento foi marcado para daqui a poucos minutos, mas ainda não consegui sair. Pego o telefone e navego até o grupo do encontro e envio: "Desculpem. Aconteceu um imprevisto e não vou poder comparecer. Fica para uma outra oportunidade".

Já faz muito tempo que estou assim. O que está acontecendo comigo? Estava esperando melhorar, mas a espera não ajuda. O tempo não cura as feridas, só as amargura, intensifica a ausência. Desejo de corpo e alma me livrar desse sentimento horrível e aproveitar o aconchego da presença dos amigos. Mas, sempre que penso em sair, sou atacado por ele, que acaba me obrigando a desistir.

As lembranças dos momentos felizes agora me mutilam. É cada vez mais difícil fazer essa dor parar. Saudade e pesar atravessam meu coração. Onde aquelas pessoas estão? O vazio no peito tenta me sufocar. Junto todas as minhas forças. Respiro fundo e fecho olhos.

Quando me sinto em paz, abro os olhos. Não há mais nada. Estou mergulhado na escuridão e sozinho. Questiono-me sobre coisas do destino, mas, deste lugar, não consigo enxergar nenhum futuro.

De pé, contemplando aquela luz que insiste em não entrar no meu recinto, sou invadido por um vazio. A solidão me abraça e a desesperança me empurra. Meu corpo encontra novamente o chão. Fito a luz mais uma vez. Por que trouxe esse sentimento de volta? Eu estava em paz aqui no fundo!

Abraço a terra e sinto os dedos penetrá-la. Arranco um punhado do solo, depois outro e mais outro e mais outro. É um trabalho pesaroso, mas, aos poucos, vou afundando e me distanciando de tudo aquilo.

LuzWhere stories live. Discover now