1.1 A CAVERNA

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                                                        CAPÍTULO 1 - A CAVERNA

- Adriana, presta atenção! - a voz de minha mãe pareceu com um rugido de leão na cozinha do bar, apenas um segundo antes da minha mão encostar na fritadeira e eu me queimar muito feio.

Droga. Eu ainda estava sonhando com aquela maldita redação do vestibular.

- Desculpa - sussurrei, nervosa. - Eu me distrai um pouco.

Ela me lançou seu terrível olhar de desagrado, o qual vinha direcionando a mim durante todo o ano anterior e por aquele verão.

Isso era simples e totalmente porque eu decidira que queria fazer faculdade, de preferência longe dali. Nós discutimos feio e acabou que colocamos terra em cima do assunto, ao menos até o resultado do vestibular sair. Aí o bicho ia pegar.

- Você anda é distraída feito os infernos - reclamou. Infelizmente, tinha razão. - Fica aí sonhando com um futuro que não é seu ao invés de ir trabalhar e ganhar a porra do dinheiro que sustenta a casa.

Respirei fundo porque não queria entrar naquela confusão de novo. Cela havia me dito que não valia muito a pena e que minha mãe era louca - a mãe dela tinha quase enfartado quando ela disse que não queria fazer faculdade.

O problema da minha mãe era o medo do desconhecido. Não fazia muito tempo em que se faltava oportunidade, mas as coisas tinham melhorado nos últimos anos e eu tinha condições de sonhar com uma faculdade, com um emprego melhor e uma vida melhor quando eu me formasse. Mas minha mãe só pensava em colocar a comida no prato agora e me queria trabalhando em seu bar para auxiliá-la. Justo, eu achava. Exceto a parte em que ela achava que eu não tinha que viver a minha vida para continuar ali, presa aquela realidade, sem buscar nada melhor.

- Não quero discutir, tá? - sussurrei, um pouco temerosa de retornarmos àquele ciclo de desententimentos que parecia não ter fim.

Ela fechou os olhos e respirou fundo, indo para a fritadeira checar as batatas fritas, parecendo querer fingir que eu não estava ali. Acabei me encolhendo no canto, voltando meus pensamentos para um lugar onde eu não ficasse fedendo à álcool e fritura.

Puxei meu shortinho para baixo, um pouco incomodada. Não era incomum que eu me vestisse com roupas curtas, mas fazê-las no bar… Sempre acabava com algum bêbado achando que podia dizer palavras sujas para mim. E, por algum motivo, minhas calças jeans sempre sumiam nos fins de semana, quando o movimento no bar parecia triplicar.

Eu sabia que era coisa da minha mãe, mas não dizia nada. Os bêbados pediam mais bebidas apenas para eu ter que andar até suas mesas e ouvir suas gracinhas, então… Tudo bem. Só me incomodava um pouco, mas ainda era mais dinheiro para casa e, com sorte, eu talvez conseguisse fazer um pé de meia ao menos para me mudar quando eu passasse no vestibular.

Se eu passasse.

Meu estomago se revirou de nervoso.

- Aê! Ô da cozinha! - alguém chamou.

Minha mãe me lançou mais um olhar zangado, então eu me arrastei para o balcão com um sorriso bem falso no rosto. Ao menos não era um bêbado. Atendi o cara, que só queria alguns salgados para levar para casa, e resolvi que ficar no balcão, parada, olhando a rua, era melhor do que voltar para a cozinha, o calor, a fritura e os olhares decepcionados da minha mãe.

Só mais alguns meses, eu repeti mentalmente o meu mantra favorito. Só mais alguns meses e eu vou poder deixar tudo isso para trás.

Minha contagem havia começado há três anos atrás. Na época, eu estava entrando no ensino médio e muitas coisas aconteceram ao mesmo tempo que quase me levaram a me meter em problemas sérios. Minha mãe se separou do meu padrasto depois dele bater em nós duas e ameaçar acabar com a nossa raça. Ela entregou ele para o pai de um amigo meu, que era um dos chefes do tráfico do morro, que deu sumiço no meu padrasto. Isso fez os bandidos todos acharem que nossa lanchonete era um ótimo lugar para se encontrarem, armados ou não e, aos poucos, a lanchonete alegre e familiar se transformou em um bar escuro e desesperador.

Eu sempre fui meio na minha e, naquela época, era ainda mais quieta. Eu tinha uma amiga. Prima, na verdade. E ela escolheu aquela hora para se afastar de mim e viver seu próprio drama familiar. Se envolveu com drogas, bebidas, escândalos e festas e tudo o que minha mãe soube me dizer para me consolar foi que essa gente rica não se importa com você, nem nunca vai se importar. E tudo o que eu conseguia pensar era que se Mila esquecera seus problemas com drogas e bebidas, eu deveria fazer o mesmo.

Antes disso acontecer, porém, Cela apareceu na minha vida. Naquele verão desesperador, eu comecei a estudar na FAETEC depois de passar em uma prova louca e aí conheci a Cela. Ela grudou em mim e eu nela e eu pude me apoiar em alguém.

Eu mal via a hora de me livrar daquele bar e daquela vida.

Respirei fundo. Só mais alguns meses.

Recentemente, minha prima e eu voltáramos a nos falar. O relacionamento da minha mãe com o meu padrasto tinha sido um exemplo tão ruim que eu gostava de comemorar os bons, então quando fui parabenizar minha prima pelo casal lindo que ela fazia com o namorado, ela disse que sentia muito a minha falta e nós voltamos a conversar e ela estava me ajudando com dicas para o vestibular e sobre carreiras e se dispusera a me ajudar se eu quisesse sair de casa, embora me aconselhasse a ficar e estudar em alguma universidade do Rio.

Mas, de qualquer forma, ela estava vindo para o Rio com o namorado em alguns dias e pedira para ser guia turística deles. E iria me pagar por isso.

Só mais alguns meses. O dinheiro iria dar para sair dali e conseguir uma vaga em qualquer república barata que eu conseguisse. Ia dar certo.

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