Aira

418 103 367
                                                  

"Quando você é criança, a noite é assustadora. Porque existem monstros escondidos debaixo da cama. Quando você cresce os monstros são diferentes.
Desconfiança...solidão...arrependimento. E embora você seja mais velho e mais sábio, você ainda se vê com medo do escuro.
[...]
Dormir...é a coisa mais fácil de se fazer. Você só...fecha os olhos. Mas para muitos de nós, dormir parece estar fora de nossa compreensão. Nós queremos, Mas...não sabemos como conseguir. Mas, uma vez que enfrentamos os nossos demônios...os nossos medos. E pedimos ajuda uns aos outros...
A noite não é tão assustadora assim porque...Nós percebemos que não estamos totalmente sozinhos na escuridão."

Se existe uma pessoa que Cássia é cheia de compaixão é Aira. Desde adolescente Aira foi diferente, seu corpo não se formou como a maioria das meninas, ela só menstruou aos dezoito anos e seus seios só ganharam um pouco de volume depois disso, então, foi muito difícil para ela.

Cássia estudou com Aira no mesmo colégio, mas não na mesma classe porque Aira é um pouco mais nova.
Os meninos da escola nunca olhavam para Aira, ela não tinha seios e nem rabo, era bem magra e aos quatorze anos já tinha um metro e oitenta de altura, não era compatível em altura com nenhum menino da escola.

Cássia conversava muito com Aira no intervalo e também no trajeto da escola, ouvia o desabafo da menina e sentia pena por ela ser tão diferente de todas as moças que ela conhecia.

Os anos se passaram Cássia foi para outra escola e só via Aira de tempo em tempo.

No casamento de Cássia na hora de pegar o buquê Aira era a moça mais alta, mesmo assim não conseguiu pegá-lo.

Aira não conseguia arranjar namorado nunca, ora por causa de sua altura, ora por incompatibilidade, enfim os anos se passaram e todas suas colegas se casaram e o sonho de se casar ficava cada vez mais distante.

Então, Aira numa determinada fase de sua vida, tinha mesmo ficado para titia, pois seus irmãos todos mais novos já tinham casados e todos tinham filhos.

Aira para em frente ao espelho, vê marcas do tempo, faz uma avaliação de tudo que viveu e decide que vai mudar seu quadro.

A cada roupa que Cássia confecciona para Aira ela se divertia muito, pois em busca de sua alma gêmea, ela aprontava muitas travessuras, ela dizia que ao invés de achar a alma gêmea ela encontrava era a alma penada.

O primeiro rapaz por quem Aira se interessou, casou-se com sua irmã, a pobre moça sofreu calada ninguém além de Cássia soube disso.

Aira ia às festas, aos bailes, aos parques, às feiras, aos mercados, enfim em todos os lugares ninguém se interessava por ela, se sentia transparente, na verdade ela era tão branca que quase era transparente mesmo.

Então, a idade bateu e Aira travou uma luta consigo mesma para mudar sua sina e o primeiro lugar que ela visitou foi uma mulher que via búzios e então, a mulher jogando os búzios disse para ela que na vida passada Aira tinha sido uma cigana e que ela maltratou muito os homens e que nesta vida ela iria ficar sozinha para pagar por aquilo.

Aira entrou em desespero e a mulher então, disse que conseguiria reverter à situação mediante a algumas aquisições. Aira tomada por um desejo de mudança aceita. A mulher disse que ela foi uma cigana chamada Mayteté, pediu dinheiro para comprar uma imagem desta moça e a trancou numa casinha. Um dia pedia dinheiro para a fruta, outro para o cigarro outro para as velas.

Durante um bom período Aira visitava aquela mulher e pedia para ver a imagem da tal cigana, mas a mulher um dia dizia hoje tem muitas nuvens, no outro dizia o sol já se pôs e assim foi até Aira se cansar, sua Mayteté ficou lá trancada para sempre na sua memória e no seu coração.

Mutatis MutandisOnde as histórias ganham vida. Descobre agora