Capítulo I O primeiro chamado

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— O que eu faço? — balbuciei, com a fumaça saindo evanescente por meus lábios. Silenciosamente, agradecia por não ter me engasgado com o susto. — Eu não sei o que perguntar.

— Não acredito que você entrou para Delfos! — bradou Marília, passando-me o cigarro que até então estivera em seus lábios. — Toma cuidado com essa coisa, viu? É viciante!

— Eu sei, eu sei — respondi, soltando a fumaça espessa, que dançou pelo ambiente relativamente frio. — Nem sei como acontece de verdade, vai ver é só um mito!

— Mito tipo a monogamia ser natural?

— Algo como isso.

Marília assentiu e se calou, recebendo o cigarro de volta para tragá-lo novamente, detendo-se no horizonte, pensativa, claramente longe demais. Estávamos no campus de nossa universidade, após um dia inteiro de aulas exaustivas. Cursávamos o quarto semestre de Psicologia na Universidade de Fortaleza e, todas as sextas-feiras, antes de irmos para casa, ficávamos juntos no bosque, conversando, fumando. Era nosso ritual de final de semana, realizado num ato de resistência às demandas da vida adulta iminente.

— Você foi atrás de um aplicativo de respostas, mas você não sabe perguntar? — tornou ela, depois de algum tempo em completo silêncio.

— Isso... — respondi, bastante incerto.

— Até parece que eu não te conheço, Leonardo! Você é extremamente obsessivo com planejamentos. Impossível que você tenha um dos aplicativos mais importantes e misteriosos da nossa geração, sem ter programado os próximos dez anos de perguntas! Quer saber? Aposto que você vai desperdiçar tudo em sexo!

— Eu não sou um viciado em sexo!

Marília me encarou séria por alguns segundos, antes de balançar a cabeça e me passar novamente o cigarro. Seus lábios arredondados, esfumaçantes, expressavam a mais pura incredulidade, apesar de estar incrivelmente certa. Não sobre eu ser viciado em sexo, nunca me considerei uma pessoa extremamente sexual, e isto era verdade. Claro, adorava transar, sentia tesão por homens e mulheres, apesar de ser difícil me sentir atraído verdadeiramente por alguém. Vez ou outra até saía com contatinhos que arrumava por aí, contudo, em todos esses casos, não era a relação sexual em si que realmente me deixava excitado: era a curiosidade.

Sim, sei que estamos começando a narrativa agora, mal temos intimidade para adentrar este tema, assim, compreendo e perdoo por me achar bizarro, entretanto, ratifico: é a curiosidade o sentimento que me impele a procurar os corpos que se mostram, independente do gênero. Podia ser um colega, um amigo, até mesmo uma pessoa aleatória. Sabe quando está andando, pondo a cabeça no lugar ou deixando que ela voe solta, e, de repente, alguém chama a sua atenção em meio à multidão de passantes? Uma troca de olhares, um sorriso discreto, uma mão faustosa, aquele ar de possibilidades se abrindo a partir dali... esses fortuitos encontros sempre me causavam uma curiosidade voraz, a qual me fazia buscar aquelas imagens. Antes de ansiar por seus corpos, desejava descobrir seus segredos, coisas possivelmente banais, das quais normalmente não se falam ou mostram em conversas casuais, banais. Algo íntimo. Sabia que era, de alguma maneira, um desejo estranho, peculiar, provavelmente pitoresco — mas toda a sexualidade não o é? Já me pegara muitas vezes olhando figuras, conhecidas ou não, imaginando como seria vislumbrá-las em seu íntimo, os segredos que guardavam, o que faziam quando ninguém estava olhando... Claro, não sou livre de um clichê básico de devanear sobre como seria ver estas mesmas pessoas peladas, quais seriam as formas de suas curvas, a sensação de ter sua pele sob minhas mãos, que gosto permaneceria em meus lábios após um beijo... O sexo acabava por ser uma concretização desses passos: o fim de minha curiosidade, o ato final daquela trama.

As Crônicas de Delfos - Privacidade [DEGUSTAÇÃO]Where stories live. Discover now