Prólogo As Regras de Delfos, o Oráculo

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Regras de Delfos, o Oráculo:

1 – Delfos virá até você, nunca o contrário.

2 – Aquele que deseja o olhar de Delfos deve primeiro se colocar perante o Oráculo.

3 – Tudo tem um preço. É necessário pagar um Tributo.

4 – Não busque nada que você não queira mostrar.

5 – Delfos não dá segundas chances, sobretudo àqueles que mentem.

"Você deseja adentrar Delfos?"

As letras garrafais brancas, num estilo clássico, destacavam-se na tela preta com o símbolo do aplicativo, trazendo-me o questionamento o qual eu sabia ser muito mais importante do que parecia.

Há eras concordávamos em dividir informações, antes preciosas, com aplicativos que iam sendo criados: primeiro, cedemos nossas imagens, depois passamos a dar endereços, em seguida, o acesso a nossos contatos... Em pouco tempo, tornou-se impossível baixar um jogo de Tetris sem que, para isso, precisássemos entregar o acesso completo à nossa galeria, localização, câmera e microfone para empresas que, claramente, repassam e utilizam essas informações como bem entendem. E não, esta não é uma narrativa distópica, futurista: não falo de um futuro distante com parques de diversões e cowboys robôs. Refiro-me ao início do ano de 2020 — para mim, mais precisamente, tudo começou no dia 13 de Maio de 2020.

"Você deseja adentrar Delfos?" — A mensagem continuava impávida, erguida entre mim e o universo de informações do Oráculo, feito uma porta demasiadamente pesada.

Quando soube de Delfos, um aplicativo que funcionava como uma espécie de oráculo, fornecendo informações sobre qualquer pessoa do globo — inclusive pessoas famosas! —, em troca de um valor que dificilmente era monetário, ele me soara como uma creepypasta, um desses mitos que infestam a internet, tomando vida em meio aos grupos de Facebook do momento. Não só pelo que prometia ser capaz de fazer, mas sim porque cada detalhe em torno de Delfos parecia um mistério criado com o intuito de suscitar curiosidade em seus usuários, fazendo sua fama se espalhar rapidamente. Primeiro: dizia-se que Delfos ia até você e nunca o contrário, sem que pudéssemos escolher quando conseguíamos usá-lo. Claro, você deveria baixá-lo, no entanto, só funcionava quando fosse chegada a hora: quando recebesse o chamado do Oráculo. Até lá, apenas uma tela preta, com arabescos cinzas e o símbolo do aplicativo — um olho com traços que o faziam lembrar o sol —, era apresentada aos usuários.

Na espera, todos ficavam atentos, grudados ao seu telefone, arquitetando as possibilidades trazidas pelo aplicativo. Enfim, quando isso acontecia, a regra principal nos era apresentada: Aquele que deseja o olhar de Delfos, deve primeiro se colocar primeiro perante o Oráculo. Antes de poder utilizá-lo, você precisava entregar algumas informações pessoais, aparentemente bobas: nome completo, data de nascimento, e-mail, os contatos de sua agenda, cor, comida, séries e músicas favoritas. Esse era o único padrão. Daí, depois, nunca se sabia o que o Oráculo pediria: podia ser sua localização, o acesso ao Instagram, Facebook ou Spotify. Era imprevisível, embora atendesse a outra regra importante: Tudo tem um preço. É necessário pagar um Tributo.

O Oráculo nunca cedia nenhuma de suas informações gratuitamente — não fazia favores, prestava serviços —, o valor de cada uma era calculado com base em algumas variáveis: importância, complexidade, sigilo e infâmia. Os usuários poderiam pedir o número de Whatsapp da autora Cris Soares, nudes do ator Matthew Daddario, ou usá-lo para descobrir a conta bancária do seu inimigo, desde que estivessem prontos para pagar o preço certo por cada uma dessas solicitações: não se podia voltar atrás, uma vez solicitado, o preço deveria ser pago. Por essa razão, a penúltima regra servia como um aviso: Não busque nada que não deseje mostrar.

De início, numa epidemia silenciosa, antes da febre absoluta, os primeiros usuários utilizavam o aplicativo em segredo, para frivolidades, talvez por não acreditarem no horizonte que Delfos propunha, ou por medo de ceder aos preços que pouco a pouco iam se tornando informações mais íntimas. Os que tentavam burlar o aplicativo imediatamente iam sendo excluídos, e sem volta. De alguma maneira, o Oráculo sabia quando alguém mentia sobre as informações fornecidas, muitos acreditavam que ele mesmo os testava. Sem tardar, cumpria-se a última regra: Delfos não dá segundas chances, sobretudo àqueles que mentem.

"Você deseja adentrar Delfos?"

Eu sabia, ao aceitar o chamado de Delfos, que teria de agir em acordo com cada uma dessas regras. Não havia volta. Não havia segundas chances. Uma vez adentrada aquela porta, minha vida poderia mudar completamente — embora ainda não soubesse para qual direção. Incerto, tomei o celular nas mãos, clicando no enorme símbolo do aplicativo. A tela do aparelho ficou clara, como num amanhecer brusco, voltando a mostrar a exata tela preta em que permaneceria até o momento do próximo chamado.

Estava feito: eu havia adentrado Delfos.

As Crônicas de Delfos - Privacidade [DEGUSTAÇÃO]Where stories live. Discover now