Capítulo 1 - A proposta

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O barulho do despertador assusta Camila, fazendo-a acordar de mal humor. Ao se sentar na cama, ela se lembra para onde terá de ir em alguns minutos: para escola. A menina ganhara uma bolsa integral na melhor escola da cidade, onde apenas os filhos dos mais ricos conseguiam estudar. Seria por apenas um ano já que a garota está no terceiro ano do ensino médio, mas o seu pai já achou que a ajudaria para tentar uma vaga na universidade. Aliás, este trabalhava praticamente 24 horas por dia como taxista para pagar os livros e uniformes extremamente caros que a bolsa estudantil não cobria.

– Camila! – A voz grossa do pai a chama. – Não vá se atrasar!

Ao se encarar no espelho, além de ver os olhos grandes e castanhos, o nariz pequeno coberto com algumas sardas, a boca carnuda e rosada, a menina também ver o olhar de desespero. No final do trimestre, Camila se saíra muito mal em física e isto a ameaçava a continuar na escola. Qualquer nota ruim era motivo de expulsão. Ela não poderia decepcionar o pai deste modo.

– Você tem que enrolar menos, Camila. – O pai a adverte assim que a mesma adentra o táxi.

O resto do caminho é silencioso. Ela não insistia em conversar com o pai e vice versa. Ambos estavam muitos cansados. Ele por ter chegando a casa às 3 da manhã e está saindo às 7; E Camila por ter estudado até tarde para a prova de física, além de fazer os trabalhos domésticos. A mãe dela fugira de casa quando a menina tinha 12 anos, levando o meio irmão dela no ventre. Desde então, o pai proibia a menina de ter relacionamentos com garotos, com medo de a mesma ter o mesmo infeliz destino da mãe.

– Tchau, pai! Com Deus! – Ela o beija na bochecha antes de deixar o táxi.

– Com Deus! – Ele acelera assim que a porta se fecha.

A escola mais parecia um castelo de tão grande. Ocupava um quarteirão inteiro. Os jardins bem cuidados dividia espaço com bancos e estátuas. Os outros jovens que ali estavam, andavam sempre com muito luxo, jóias, rolex, perfumes caros e as meninas, muito maquiadas. Eram admitidos apenas cinco bolsistas por ano. Na turma da Camila, apenas outra garota se encontrava na mesma situação. Porém, esta, mesmo vindo da periferia, vestia itens caros e andava com a menina mais rica da escola, Branca.

A garota alta, loira, com rosto angelical e corpo escultural parecia ter saído de um catálogo de modelos da Victoria Secret's. A mesma era filha de um dos magnatas de casas noturnas da cidade. Cada mês vinha em um carro luxuoso diferente, este dirigido por um motorista. Fazia parte do grupo de Branca: Antônia, a outra bolsista do terceiro ano do ensino médio, e Frederico, um menino com aparência andrógena e assumidamente gay.

Ao passar por eles, Camila se sente vigiada e observada. Ela não liga muito e se dirige para a sala onde teria agora uma prova daquelas de física. Mesmo se preparando a noite toda, assistindo vídeo aulas e resolvendo exercícios, a menina sabia que não se sairia bem o bastante para recuperar sua nota.

O sinal toca. Os alunos que estavam no corredor entram. O velho professor adentra a sala, com sua pasta de couro debaixo do braço. As pernas de Camila tremem só de pensar no conteúdo da pasta. As folhas são entregues. Ao ver as questões, a mão da menina começa a suar. A mesma segura à vontade de chorar e começa a fazer a prova. A cada questão respondida, o desespero da menina aumenta. Ao terminar a prova, ela não pensa duas vezes em levantar se livrar daquilo o mais rápido possível.

A passos rápidos, ela invade o banheiro, se dirige a uma cabine e se põe a chorar. O choro é silencioso. Seu corpo treme todo ao conter o barulho, mas as lágrimas quentes descem pelas bochechas da menina. Logo a mesma escuta alguém entrando no banheiro. Ela fica imóvel. Os passos são vagarosos, como se a pessoa estivesse procurando alguém.

– Oi?! – A voz rouca a assusta. Era Antônia. – Sou da sua turma...

Camila enxuga as lágrimas e destranca a porta, mas não a abre.

– Oi...

– Eu vi como ficou nervosa... – Antônia se aproxima da porta, mas também não a abre. – Eu só queria ver se estava tudo bem.

Camila desata a chorar dessa vez sem se importar em fazer barulho. A mesma abraça seus joelhos, ficando totalmente encolhida em cima do vaso sanitário. A porta se abre e Antônia adentra a cabine, abraçando a garota. As duas ficam ali por alguns minutos, uma consolando a outra até que outra pessoa entra no banheiro, assuntando Camila.

– Não se preocupa... Ela pode te ajudar. – Antes mesmo de Antônia terminar de falar, Branca aparece no campo de visão de Camila.

– Não precisa chorar querida... – Ela sorri, parecendo um anjo e estende a mão para enxugar as lágrimas da menina. – O que você está disposta a fazer para se tornar uma boa aluna?

Sem pensar duas vezes, Camila responde:

– A tudo. 

Aluna ExemplarOnde as histórias ganham vida. Descobre agora