Amostra

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Divorciada, mãe de três filhos e vítima de algumas cirurgias plásticas que me deixaram com o aspecto da avó da Barbie, aos sessenta e sete anos eu já não tinha mais qualquer expectativa quanto ao amor. Estava perdida no limbo entre os bailes da terceira idade e os jogos de bingo, aos quais eu me recusava a me entregar. É quando o sutiã já não adianta mais nada e todo dia antes de dormir você se preocupa em passar o antirrugas que você percebe como a vida é... chata. Ah, me desculpem os que dizem que a maturidade é a maior bênção que alguém pode receber. De que me vale tanta experiência se não tenho fôlego para sair à noite e me divertir? Aliás, experiência e sabedoria são, na verdade, duas grandes maldições. Antes jovem e tola, como eu era antes. Era bom ser assim. O amor existia, a paz mundial era possível e minhas coxas não batiam uma na outra até sair sangue durante uma simples caminhada.

Além da solidão de todas as noites, a solidão de todos os dias também me deprimia. Às vezes os netos vinham me visitar, mas sabe como é. Criança parece que tem uma atração fatal por cristais e bibelôs, e a minha casa é cheia deles. De modo que, em vez de curtir meus netos, eu passava o tempo todo preocupada se eles não iam destruir minha decoração.

Meus filhos perceberam que eu não estava bem. Tentaram me empurrar para todos os solteirões que viam pela frente, até que minha vida começou a parecer um filme barato de Hollywood, algo como “Meus filhos querem que eu case”. E então, uma noite, enquanto bebia meus martinis em frente à TV, tive uma revelação: o mundo estava louco. Todos pensavam que, para ser feliz, era necessário estar com alguém. Pois eu decidi, naquele momento, que eles estavam errados. Levantei de uma vez (o que se provou uma besteira, dada a tontura e vista escura que se seguiram por alguns segundos) e fui arrumar minhas malas. No dia seguinte, comecei uma jornada de cruzeiros ao redor do mundo, disposta a provar para os meus filhos que eu podia sim ser feliz sozinha, tudo financiado pela polpuda pensão que meu ex-marido pagava de má vontade.

Mal sabia eu que essa jornada me levaria à descoberta mais fascinante da minha vida – e da de qualquer pessoa que a fizesse.

Mas espere aí que não vou começar do clímax. Tudo tem um começo sem o qual fica difícil entender o final. Aliás, jamais gostei de filmes que começam assim, pela última cena. Tenho mania de me perder e acabo frustrada. Bom, mais uma de minhas frustrações não vem ao caso. Ocorre que a primeira coisa que aconteceu, é claro, foi a reação contrária e exagerada dos meus filhos. Aparentemente não era apropriado que uma mulher “da minha idade” passasse tanto tempo sozinha no oceano. Eu poderia adoecer, ter um troço e cair no mar, desenvolver escorbuto e todos os outros argumentos sem fundamento que eles conseguiram elaborar. Mas eu estava decidida. Para acalmá-los, resolvi arranjar uma amiga para me acompanhar.

Todas as minhas conhecidas estavam ocupadas demais fingindo ser boas mães e esposas, e eu já tinha desistido desse teatro havia um bom tempo. A única velha disponível para me fazer companhia era uma viúva de oitenta anos que morava no terceiro andar. Frequentadora assídua das reuniões de condomínio, supus que ela também não tivesse muito para fazer. Chamava-se Suerda. Imaginei a mim e a ela nos bronzeando em Nápoles e, embora não tenha gostado do que vi, propus a viagem. Ela aceitou. Se eu soubesse o que me esperava, teria me jogado da cobertura do prédio sem pensar duas vezes.

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"Amor nos tempos da artrose" é um conto de Kássia Monteiro, integrante da antologia "Meu amor é um mito", que foi publicada pela Editora Draco.

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