Carta 29 - Eu tive que ir

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Santa Clara, 30 de novembro de 2019

Luísa,

Eu sei que cometi um número infinito de erros. Errei com você (principalmente), com minha mãe, com minha irmã. Mas eu nunca vou me arrepender por ter começado a te escrever estas cartas. Nunca vou me arrepender de nenhuma das linhas, nenhuma das palavras, nenhuma das letras escritas aqui. Porque elas são tudo de mim. Estas cartas são a minha verdade e toda a verdade da nossa história.

Estas cartas são o meu amor.

E eu não vou mais me desculpar por isso.

Algumas destas cartas são de despedida. Outras, pedidos de desculpas.

É bom saber que eu ainda sinto alguma coisa.

Quando comecei a escrevê-las, eu pensava que não existia mais nada dentro de mim, que eu estava oca. Eu queria acabar com tudo.

Não é fácil estar neste lugar, viver neste mundo. Os homens tiram tudo de nós só porque acham que podem tirar. Vivemos em um mundo de homens (e eu sei que se você estivesse aqui diria que nós vivemos em um mundo de brancos). Vivemos em um mundo de pessoas que acreditam ter poder sobre nossas vidas. Eu queria tirar isso deles.

Mas eu me lembrei de você, assustada sob a chuva naquele dia, seus olhos imploravam por vida. Então, você a pegou para si, tomou de volta o controle do que era seu e eu sei que nunca mais permitiu que ninguém achasse que tem algum poder sobre você.

Naquele dia, vendo seu ônibus ir embora, eu entendi.

— Você deu todo o seu dinheiro pra ela, não deu? — Luna surgiu do nada.

— Claro que não! — Eu a encarei, ela me encarou. — Dei.

— Ai, Rafaela! — Ela revirou os olhos e me puxou pela mão. — Vem. Vem chorar dentro de casa.

Eu a acompanhei, desejando muito poder dizer que não estava chorando, mas eu estava quase morrendo de chorar. Luna me levou até seu quarto e me empurrou para a cama.

— Senta aí.

Obedeci, abraçando meus joelhos e soluçando desolada. Luna me lançou um olhar de pena, mas não disse nada, só pegou um bolo de notas e me entregou.

— Toma!

— Que isso?

— Dinheiro, né, minha filha!?

— Eu sei que é dinheiro! — Sequei as lágrimas com a outra mão. — Mas pra que você está me dando isso?

— Pra você fazer suas viagens idiotas pelo mundo!

— Mas Luna... Eu não posso aceitar. É a sua grana... A grana do seu...

— Rafaela, eu sou mais inteligente, mais esperta e mais nova que você. A chance de eu recuperar essa grana aí é muito maior. Aceita, vai lá viajar e não me enche mais o saco.

— Isso é você sendo fofa?

— É! — Ela fez uma careta e eu me joguei para cima dela. — Ai, me solta!

— Eu te amo, sabia?

— Sabia... Você não pode nem sonhar em contar isso pra mãe, entendeu?

— É o nosso segredo. — Eu a soltei.

— Espero que você o carregue para o túmulo, senão eu vou te carregar para o túmulo.

— Nossa, você é tão amorosa que chega a doer. — Beijei o rosto dela. — Obrigada!

Cartas para LuísaOnde as histórias ganham vida. Descobre agora