Carta 28 - Vai ficar tudo bem

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Santa Clara, 29 de novembro de 2019

Luísa,

Nunca fui uma pessoa de muita fé. Mas sempre acreditei que alguma coisa rege o universo. Naquela noite, fechei meus olhos com tanta força, desejando que tudo ficasse bem, que eles doeram por vários minutos, antes de eu conseguir pegar no sono.

Acordei com um barulho na janela.

Por um segundo, pensei que estava sonhando. Não estava.

Era você, lá, parada, debaixo da chuva. Você e seu cabelo curtinho e um pacote embrulhado em plástico bolha nas mãos.

Abri a porta de casa, assustada e surpresa, e fui até o lugar onde você estava. Na chuva mesmo, porque nada me impediria de te abraçar. E eu te abracei tão forte, como se quisesse acreditar que você estava realmente ali. E você estava, Luísa.

Acho que nós duas estávamos chorando, mas nossas lágrimas se misturaram com as gotas da chuva.

— Vem. — Peguei sua mão e te puxei para dentro de casa. Eu te levei até o banheiro e sequei seu rosto com uma toalha. — Como você está?

— Não sei.

— E o monstro?

— Viajou. Acho que foi resolver coisas em Santa Clara.

— Ah. — A guarda.

— E sua mãe, onde está?

— Viajou. Acho que pelo mesmo motivo. Como você chegou aqui?

— Fugi. O monstro saiu e me trancou em casa, mas eu consegui pular o muro. Então, peguei o ônibus pra cá, com o dinheiro que eu tinha.

— Ele fez alguma...

— Não.

Respirei tão aliviada que minha cabeça tonteou.

— Onde vocês estavam?

— Em São Roque. Ele tem uma casa lá. Se é que eu posso chamar aquilo de casa.

Você estava tão assustada. Parecia um filhotinho indefeso e acuado.

— Toma! — Você me entregou o pacote. — Comprei para o seu aniversário, mas só chegou semana passada. Eu queria te entregar, mas aconteceu tudo aquilo e...

— Vem, você precisa trocar essa roupas. — Evitei olhar para você, porque sabia que não trouxera nada, além do meu presente. — Vou te emprestar algo.

— Suas roupas não me servem.

— Mas as da Luna sim. — Sorri e coloquei o pacotinho sobre minha cômoda. — Fica no meu quarto e se seca e eu vou lá buscar algumas coisas.

Fui, andando de fininho, até o quarto de Luna, na esperança de não acordá-la. No entanto, minha irmã nem tinha dormido.

— Que que tá acontecendo? — perguntou, alto.

— A Luísa tá aqui — falei baixinho, indicando para que ela também falasse baixo.

— O quê? Como?

— Ela fugiu. — Andei até o guarda-roupa dela. — Vou emprestar umas roupas suas pra ela, tudo bem?

— Tá.

Fui pegando as roupas que eu sabia que Luna nunca usava, mas que eram bonitas.

— Depois a gente conversa — comuniquei, antes de sair.

Abri a porta do meu quarto depressa, com medo de que você tivesse ido embora. Mas você aí da estava lá, Luísa. Sorri sem querer e joguei as roupas sobre a cama.

Cartas para LuísaOnde as histórias ganham vida. Descobre agora