Carta 24 - Fotos para Luísa

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Santa Clara, 24 de outubro de 2019

Luísa,

Eu realmente pensei que as coisas não poderiam ficar piores. Na segunda de manhã, quando me levantei para ir à escola, eu já não chorava mais. Ninguém estranhou o fato de eu ter ficado o domingo todo no quarto. Acho que queriam me dar espaço ou, simplesmente, não sabiam o que me dizer.

No fim das contas, acho que minha mãe nem percebeu o quanto eu estava mal. Ela e Luna voltaram diferentes da viagem, mas eu estava tão imersa na minha própria dor (como sempre) que mal notei. Como eu esperava que elas me notassem?

Está todo mundo tentando viver e vencer as próprias batalhas para se preocupar com a dor dos outros.

Saí de casa e andei pela rua como se eu estivesse segurando uma caixa de vidro sobre o meu peito. Atravessei a rodovia com cuidado, mais do que o normal. Minha mãe sempre detestou morar tão perto da estrada, mesmo ela não sendo tão movimentada. Mas essa era a casa do Mauro, a gente não tinha muita escolha.

Era esse o tipo de coisa que me deixava com raiva da minha mãe. Nós tínhamos uma casa no lugar onde morávamos antes, aliás ainda temos. E eu era feliz lá.

E, sim, fui feliz na casa de Santa Má, no entanto, naquele momento, eu estava tão infeliz que nada mais importava.

A rua da escola estava silenciosa. Ou era eu, incapaz de ouvir qualquer coisa. Julinho franziu a testa ao me ver.

— E aí, Rafinha? — Ele levou a mão ao portão. — Tá tudo bem com você?

Não.

— Tá, sim! — Abri um sorriso.

Fui entrando na escola, me esforçando para manter o sorriso no rosto. Não sei nem dois passos e senti uma mão agarrar meu braço.

— Eu tenho que falar com você! — Seus olhos escuros me encararam com medo.

— Você estava me esperando?

— Não. Cheguei logo depois de você.

— Ah... — Voltei a andar em direção ao pátio. Você veio atrás de mim.

— É sério, Rafa, eu não quero que as coisas fiquem sem explicação. Não quero que você conclua coisas, porque você sempre conclui coisas.

— O que está acontecendo? — Minha atenção estava fixa no aglomerado de pessoas em volta da pilastra que ficava em frente a nossa sala.

— Ai, droga... Deve ser uma dessas cartas idiotas. Eu falei pro Artur... — Só pude ver cor sumir do seu rosto, antes de você se adiantar e andar até lá.

Não era uma das minhas cartas idiotas. Eu sabia que não.

Vi quando nossos colegas abriram espaço para você passar. Observei quando você levou as mãos à boca e deu dois passos para trás.

As pessoas cochichavam e apontavam.

— Que merda...? — resmunguei.

Você foi até a pilastra de novo e arrancou a folha A4 que estava colada nela. Como uma bala, veio na minha direção.

Instintivamente, dei um passo para trás. Você parecia que ia me esfolar quando pressionou o papel contra o meu peito.

— Foi você? — Tinha tanta dor na sua voz que eu tive medo de respirar e acabar quebrando você.

— Que... — Peguei o papel amassado e o analisei. Depois olhei para você. Eu não sabia o que dizer, não sabia o que você esperava ouvir.

— É na porra da varanda da sua casa!

Cartas para LuísaOnde as histórias ganham vida. Descobre agora