Carta 23 - Nada em você

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Santa Clara, 22 de outubro de 2019

Luísa,

Chorei por três horas seguidas, enquanto enchia meu computador de músicas da Fresno. Chorei, deitada na cama, encolhida; chorei quando "Cada poça dessa rua tem um pouco das minhas lágrimas" tocou em looping; chorei ao notar que aquele beijo de vocês parecia corriqueiro demais para um primeiro beijo.

Não era o primeiro, era, Luísa?

Não que isso fizesse alguma diferença. Na minha cabeça, tudo começou a fazer sentido: o jeito como ele te olhava durante os ensaios, principalmente quando eu espiava vocês pela janela da cozinha, o jeito como ele evitava te olhar quando eu estava por perto.

Vocês eram perfeitos juntos. E eu era burra. Fui burra por não ter notado antes. Egoísta demais, só enxerguei os meus sentimentos, aquele tempo todo. Não sei quando Artur percebeu que estava apaixonado por você. Talvez tenha sido natural, como abrir os olhos de manhã, do jeitinho como aconteceu comigo. Porque ele estava apaixonado. Isso ficou nítido quando as peças todas se encaixaram na minha cabeça.

Não sei se posso confiar nas conclusões às quais cheguei naquele dia. No entanto, ficou óbvio o seu interesse em desvendar meus sentimentos por ele, sua implicância comigo, seus questionamentos. A forma como parecia haver algo sempre preso na sua garganta, nos seus olhos.

Você estava gostando do meu namorado, Luísa?

Caralho, por que não me falou?

A gente era amiga muito antes de Artur aparecer. Eu já te amava muito antes dele.

Ok, talvez eu esteja sendo irracional. A verdade é que, provavelmente, eu teria ficado arrasada do mesmo jeito. E teria engolido o meu orgulho do mesmo jeito.

Eu me levantei da minha cama disposta a ir ao show de vocês, como se nada tivesse acontecido, na esperança de que algo mudasse, de que tudo se esclarecesse e que as coisas voltassem a ser boas entre nós.

Você sabe o que aconteceu naquele dia, muito melhor do que eu, mas sabe como me senti? Não, Luísa, você não faz ideia.

Vesti o look mais preto que eu tinha, vesti o sorriso mais desonesto da minha vida, e fui para aquela quadra. Fui, porque eu tinha que ir, eu tinha que saber. E soube.

Eu me sentei bem em frente ao palco, não queria perder nada. Aquele era o meu lugar, um lugar de honra para alguém que praticamente fazia parte daquela banda. Luna se sentou do meu lado direito e ficou me encarando por longos segundos.

— Cê tá bem? — perguntou.

— Tô, uai, por quê? — Eu me mexi na cadeira, completamente desconfortável. Será que estava tão na minha cara o quanto eu não queria estar ali?

— Você está esquisita. — Ela se virou e olhou para o palco. Luna parecia desconfortável também. Não respondi nada, só fiquei esperando o show começar.

Vi vocês subirem no palco, vi quando começaram a tocar, vi quando agradeceram a presença de todos. Eu sei que a quadra estava lotada, tinha até gente em pé, sei que todo mundo aplaudia e gritava quando vocês tocavam alguma música antiga. E sei que meu coração parou no peito quando você decidiu falar com a plateia, antes de tocar a música seguinte.

— Gente, vocês sabem que minha mãe morreu meses atrás. — A quadra inteira era puro silêncio. — E podem imaginar que esses últimos tempos foram especialmente difíceis pra mim. O que eu acho que vocês não sabem é que uma pessoa me ajudou demais, não só agora, mas desde sempre.

Todo mundo olhou para mim. Todo mundo.

Eu só conseguia olhar para você.

— Essa pessoa esteve e está comigo, me fortalecendo nos momentos em que eu, sinceramente, estou prestes a cair; me mantendo de pé. Eu não sei se estaria aqui se não fosse por você...

Cartas para LuísaOnde as histórias ganham vida. Descobre agora